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Edição 11/Março de 2001 29/08/2011

A jóia dos trópicos

Santuário ecológico numa região remota do Pacífico, o atol Palmyra agora é protegido por um grande grupo conservacionista

por Alex Chadwick

Randy Olson

Atol de Palmyra, no Oceano Pacífico

Randy Olson

Um extasiado visitante mergulha no Atol de Palmyra, no Oceano Pacífico.

E no mundo. Todos aqueles lugares idílicos que povoavam nossa imaginação já passaram por tantas transformações que jamais poderão recuperar sua condição original. Ilhas desertas com longas praias virgens, chuva morna à tarde, lagoas cor de turquesa emolduradas por coqueirais, peixes e animais selvagens vivendo despreocupados no éden. Teoricamente, tudo isso acabou.

Numa das áreas mais remotas do oceano Pacífico, contudo, resiste um minúsculo conjunto de ilhas que formam o atol Palmyra. O lugar é a exceção que confirma a regra. Por conta do seu isolamento e da obstinação das pessoas que o preservaram, conseguiu atravessar incólume o burburinho da história moderna. Recentemente o atol foi comprado por um dos principais grupos conservacionistas do mundo, o Nature Conservancy. Com isso, deve continuar a ser algo próximo daquilo que vislumbramos como o paraíso – ainda que um paraíso em miniatura.

Levando-se em conta apenas o que está acima do nível do mar, o atol inteiro não tem mais do que 2,75 quilômetros quadrados – quase dez vezes menor do que o arquipélago de Fernando de Noronha. Seu ponto culminante não ultrapassa os 2 metros de altitude. Palmyra só adquire uma dimensão razoável durante as horas da maré baixa, quando ficam expostos 60 quilômetros quadrados de belíssimos recifes de coral. No momento em que a maré volta a subir, toda essa área é recoberta pela água.

Palmyra, território americano, nunca foi habitado. Na década de 70 o lugar teve seu maior – e, certamente, mais infeliz – momento de notoriedade, quando serviu de refúgio para um traficante de drogas foragido do Havaí. Depois de conseguir chegar ao atol a bordo de um frágil barco, o criminoso matou um casal que aportou ali e lhes roubou o iate, antes de ser finalmente capturado. A história acabou virando um best-seller, O Mar Vai Contar, de Vince Bugliosi, adaptado depois para a televisão.

Além de eventuais veleiros e barcos de pesca, os principais visitantes de Palmyra sempre foram as aves marinhas, que formam ali uma das maiores e mais coloridas colônias do mundo. Há milhares de atobás-de-pés-vermelhos (Sula sula) com bicos azuis brilhantes, elegantes rabos-de-palha (Phaethon lepturus) e alcatrazes (Fregata minor), cujas asas têm uma envergadura impressionante. Depois das ilhas Galápagos, no Equador, o atol tem a maior concentração de atobás-de-pés-vermelhos do mundo. E é o único local de procriação dessas aves num raio de 1,2 milhão de quilômetros quadrados do Pacífico.

Muitos pássaros migram para lá por causa do clima, considerado úmido demais para os padrões humanos – 450 centímetros anuais de precipitação. Tanta chuva possibilita a existência de bosques de uma árvore da família das nictagináceas, a Pisonia grandis, que chega a atingir 30 metros de altura e cuja fibra é tão macia quanto a do pau-de-balsa. A cada primavera o atol transforma-se em um berçário florestal para dezenas de milhares de aves marinhas que ali vão fazer seus ninhos e cuidar dos filhotes. “Provavelmente não há nenhum lugar igual no Pacífico. A maioria dos atóis com boa média de chuvas – e que podem acolher a vida humana – foi colonizada. E muitas das espécies desse ecossistema não coexistem com uma população humana”, analisa a bióloga Elizabeth Flint, que estuda a fauna local para a agência federal de conservação National Wildlife Refuge System.

Certa tarde fui de caiaque até a praia de uma ilhota de coral e mergulhei com snorkel nas águas rasas abrigadas do vento. A água era transparente, e a única sombra vinha das ondulações na superfície. Pequenos trechos de coral aglomeravam-se na areia do fundo e depois se fundiam em um recife, formando uma espécie de jardim encantado. Corais cristalinos de tons roxos cresciam pelo fundo como se fossem musgos perolados. Outros tinham hastes que se achatavam e se abriam em forma de um cogumelo. Outros ainda balançavam seus delicados galhos, com as pontas parecidas com pequenas espigas de cor amarela queimada, cada grão abrigando um minúsculo pólipo.

Jim Maragos, biólogo especialista em corais que trabalha para o U.S. Fish and Wildlife Service, outro órgão federal de pesquisas, me conta que, em 30 anos de mar, já mergulhou em milhares de recifes no Pacífico. “Mas esses são os mais espetaculares que já encontrei”, avalia ele. “Aqui há magníficos cardumes de tubarões, peixes-papagaios (Bolbometopon muricatum) e garoupas. São espécies que estão desaparecendo em outros lugares do mundo.”

 

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