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Edição 136/Julho de 2011 02/07/2012

Bagdá depois da guerra

Apesar das adversidades e da renitente violência, os moradores começam a ter fé no renascimento da cidade

por Brian Turner

Não voltei a Bagdá para ser um turista de guerra, sintonizar o olhar com as copiosas sequelas do trauma, mas é difícil não fazer isso. Na outra vez em que estive aqui, usei camuflagem de deserto e uma carabina M4. Eu era sargento da Segunda Divisão de Infantaria do Exército dos Estados Unidos. Isso foi em 2003 e 2004, quando até 150 mil soldados americanos atuavam no Iraque. Desde então venho me perguntando como será que os iraquianos estão lutando para reconstituir a vida: o soldador, o estudante, o taxista, a idosa, os noivos. Também tento imaginar como seria andar por uma rua de Bagdá sem colete à prova de balas nem 210 cartuchos pendurados no peito.

Naquela época, minha unidade escoltava longos comboios que serpenteavam pela cidade. Insurgentes armavam complexas emboscadas usando carros abarrotados de explosivos. As marcas negras dos veículos incendiados permaneciam no solo ou nas paredes muito tempo depois de os destroços terem sido removidos e me deixavam pensativo toda vez em que eu passava por elas. Eram lamentáveis sinais da morte. Um dia, o líder de nosso esquadrão gritou para mim e para meu atirador que nos abaixássemos nas escotilhas de nosso blindado Stryker – e de repente salvas de morteiros explodiram nos ares, despejando uma chuva letal de estilhaços. Atravessamos aquela tempestade de metal com o coração na boca. Memórias como essa revivem em minha mente quando passamos de carro pela cidade, e por um momento imagino que retornei à capital do Iraque como um fantasma a assombrar o mundo que um dia habitou.

Mas as coisas mudaram. Esta não é a Bagdá que conheci. Observo agora um movimento novo que tenta reconectar-se à vida normal: na rua Abu Nuwas, perto do rio Tigre, onde ser baleado por um atirador de tocaia já foi um risco diário, os barulhos da guerra foram substituídos pelos da criançada jogando futebol na grama. É uma gritaria esganiçada e festiva como a de passarinhos chamando uns aos outros. Na rua Haifa, assolada por uma sangrenta luta sectarista de 2006 a 2008, rapazes param na entrada de um mercado para terminar uma conversa, com música pop iraquiana bombando do som portátil. Perto da universidade, várias moças riem, abraçando livros e cadernos, e seus lenços salpicam de cor as fachadas pardacentas. Por toda parte em Bagdá se ouve o som de uma cidade recuperando a voz.

Porém, devo confessar: quando desci do avião, peguei a bagagem na esteira e saí para a cidade, não sabia o que esperar. É fim de dezembro de 2010. Notícias de assassinatos planejados com revólver e silenciador ocupam meus pensamentos. Não consigo descartar a possibilidade de ser sequestrado. Contudo, por mais que o medo me aconselhe a embarcar de volta no mesmo avião, quero saber como anda o lugar em que um dia fiz a guerra. Se quero conhecer a nova Bagdá, preciso deixar de lado velhos hábitos e memórias.

Cidade de muros

No primeiro dia de meu retorno, em um quintal à sombra, abro um mapa sobre uma mesa. É uma carta obsoleta, com muitos pontinhos marcados com adesivos vermelhos e azuis. Alguns nomes de bairro mudaram desde a invasão. A Cidade Saddam, como consta no meu velho mapa, por exemplo, agora é Cidade Sadr, em honra ao falecido líder xiita Muhammad al Sadr. Os pontinhos formam um padrão geral quando me afasto para ter uma visão do todo: azuis de um lado, vermelhos de outro; xiitas dominando o lado leste do Tigre, sunitas agrupados a oeste. Os sunitas avançaram mais para o oeste enquanto os xiitas penetraram em setores adjacentes ao rio. Embora ainda existam alguns bairros mistos, Bagdá, definitivamente, não é mais uma cidade secular modelo do Oriente Médio, como outrora os iraquianos a descreviam com indisfarçável orgulho. A guerra mudou tudo. Os anos de renitente violência criaram uma paisagem definida por tribos e pela religião.

Com população de quase 6 milhões de pessoas, Bagdá tornou-se um município de enclaves murados sob a guarda de soldados do Exército iraquiano, policiais federais e locais, seguranças privados e outros grupos, como os Filhos do Iraque, uma milícia voluntária que patrulha seus bairros armada de fuzis AK-47. As demarcações são feitas por fortes barreiras de concreto resistente a explosões, conhecidas simplesmente como muros T, pois lembram gigantescas letras tês viradas de cabeça para baixo. Bandeiras religiosas adejam em telhados, mesquitas e cruzamentos nas áreas xiitas. Os bairros sunitas destacam-se pela ausência de bandeiras. “Bagdá é um imenso campo de concentração, meu amigo”, resume meu intérprete, Yousif al-Timimi. “Os Estados Unidos não trouxeram a democracia. Trouxeram muros.”

O táxi aquático

Uma manhã pego um barco-táxi no Tigre com um barqueiro chamado Ismail. O rio bíblico divide a cidade ao meio. Ele me conta que herdou o ofício de seu pai, em uma tradição de várias gerações. Vai dirigindo com a mão esquerda e falando sobre sua vida, e eu me esforço para não pensar que estamos a descoberto, em uma linha de mira livre, e que um atirador de tocaia pode estar agora mesmo debatendo a física de sua arte balística enquanto nos contempla na surdina. Não sou mais um soldado e, nesse lugar tão marcado pela guerra, preciso me ambientar.

Assim, trato de me concentrar no Tigre que coleia pelo coração de Bagdá. É largo, com uma despretensiosa superfície de luzes e sombras, um rio lendário que não apregoa as inexoráveis comoções transportadas em suas profundezas. No inverno de 1258, quando os mongóis liderados por Hulegu Khan saquearam Bagdá, a devastação se abateu sobre seus habitantes. A Bayt al Hikma, ou Casa do Saber, foi pilhada, e seu acervo, jogado no Tigre – ensaios e tratados filosóficos, arte, poesia, volumes históricos, obras científicas e matemáticas, a riqueza intelectual acumulada ao longo de séculos. Dizem que, quando os mongóis terminaram o serviço, o Tigre corria negro de tinta.

Há pouco tempo, correu coalhado de corpos. No inverno de 2004, soldados de meu batalhão subiram o rio de lancha para fazer uma busca em uma ilha, na cidade de Mosul, e checar rumores de um posto de artilharia de morteiro. A embarcação virou, e um soldado e três policiais iraquianos, sob o peso do equipamento militar, desapareceram nas águas. Minha companhia ajudou a isolar as margens para que barcos de patrulha da Marinha pudessem recuperar os corpos. Antes de conseguir encontrá-los, as equipes de busca içaram o cadáver de um estudante de Kirkuk e o de um policial iraquiano que não estávamos procurando. Foi uma operação deprimente, que ainda hoje me causa amargas lembranças. Sentado no táxi de Ismail, hesito em pôr minha mão na água. O Tigre virou uma espécie de cemitério; merece respeito.

Tiro várias fotos, tentando documentar a nova Bagdá. Até que soldados do Exército iraquiano se materializam de seus postos sob os pilares da ponte e nos mandam atracar. Somos detidos logo a seguir e interrogados pelo comandante; parado à porta de uma guarita, segurando uma xícara de café árabe com uma expressão divertida, ele está usando apenas uma segunda pele térmica e botas de combate desamarradas. Enfim, ele nos proíbe de tirar mais fotos das pontes e nos libera. Antes de podermos ir, um soldado faz questão de que eu partilhe de seu prato de ovos mexidos. Divide seu pão árabe e me põe uma das metades na mão com um sorriso.

Agora, no Tigre, Ismail fala sobre o incidente na semana anterior com uma bomba magnética “adesiva” e diz que um barco-táxi também pode estar envolvido. Os militares iraquianos vigiam o rio. E eu me pergunto como será que Ismail consegue ganhar a vida naquelas condições tão ruins. Pergunto-lhe quando foram os bons tempos. “Bons tempos?”, estranha ele.