Edição 191/ Setembro de 2011 18/09/2011

Cinza sobre o branco

Bariloche viveu o pior julho de sua história com a erupção do Vulcão Puyehue, mas ainda acredita em um setembro feliz

por Paulo Vieira (edição)

Piadas sobre clima são antigas. Há uma, conhecida, que diz que "os ingleses estão felizes, pois o verão caiu em um sábado". Uma atualização possível é dizer que os argentinos estão tristes, já que o inverno caiu em uma quarta de cinzas. As cinzas, infelizmente reais, expelidas pelo vulcão chileno Puyehue, o vilão da temporada em Bariloche.

Há 51 anos adormecido, o vulcão despertou em 4 de junho e jogou cinzas na atmosfera, que o vento se incumbiu de levar a Bariloche e bem mais ao norte, impedindo os voos em diversas cidades da américa do sul (até em santa Catarina). Bariloche, o destino de esqui preferido dos brasileiros, eterno vencedor do Prêmio VT, e a vizinha Villa La Angostura ficaram com as ruas cheias de um pó similar à areia. Ele impediu o funcionamento da estação de Cerro Bayo, em Angostura, em julho, mas os "2 centímetros de areia" que cobriram Cerro Catedral, em Bariloche, não foram suficientes para atrapalhar o esqui. O problema esteve o tempo todo no ar, com o fechamento do aeroporto de Bariloche por longos períodos. Isso derrubou a temporada. A rede hoteleira fechou julho com ocupação de 20% - a previsão antes do vulcão era de 100%; e dos 20 mil estrangeiros esperados, chegaram mil. "Foi o pior ano de nossa história. Pior que a crise política de 1999 e a gripe suína de 2009", disse à VT Léo Tiberi, da Emprotur, o organismo de turismo da cidade.

Com os problemas no ar, a melhor solução encontrada foi o desembarque em Esquel, a 350 quilômetros, ou quatro horas de ônibus, de Bariloche. Uma via crúcis que poucos brasileiros tiveram vontade de encarar. A pedagoga Stella Pellegrini, com diárias reservadas desde março em Bariloche, decidiu viajar para Valle Nevado, no Chile. Como ela, fizeram outros compatriotas. "Havia muitos brasileiros, mas nada que tenha atrapalhado a estada. A semana foi ótima no Chile", disse Stella. O executivo Mário Gasparini, que já foi mais de dez vezes a Bariloche, fez uma opção mais tropical: Punta Cana. "O estresse para chegar por Esquel não compensaria o prazer da viagem. Por isso, em fidelidade a Bariloche, minha estação de esqui preferida, resolvi não trocá-la por outra."

Operadora que tem em Bariloche uma de suas especialidades, a Agaxtur cancelou 22 voos fretados para o destino. Segundo Aldo Leone Filho, presidente da empresa, 95% de seus clientes trocaram Bariloche pelo Caribe e pelos Estados Unidos. Até Dubai entrou na roda. Já a CVC, que fez fretamentos com a companhia área argentina andes, vendeu 80% dos pacotes planejados antes das cinzas. Com o desconforto do desembarque em Esquel.

Esta reportagem falou até aqui do que passou, mas é bom lembrar que setembro ainda é inverno - e ainda tem neve. Por isso há otimismo em Bariloche. Sol Canalda, gerente do galileo Boutique Hotel, crê em uma taxa de ocupação de 65%. Ali o preço da diária caiu de US$ 200 para US$ 140 (e, com três diárias, o hóspede ganha uma noite em hotel de Buenos Aires). A atividade do Puyehue diminuiu ao longo de agosto, mas as cinzas ainda podem estar lá. Como explica Valdecir Janasi, geólogo e professor do Instituto de Geociências da USP, "é mais fácil prever o início de uma erupção do que seu término". A boa notícia é que o Servicio Meteorológico Nacional, da Argentina, prognostica boas chances de cair neve neste fim de inverno.