Belém 2007 d.C.
Belém, onde Jesus nasceu, é hoje um dos lugares mais disputados da Terra
Christopher Anderson
Christopher Anderson
Muro erguido por Israel transformou em beco sem saída uma rua comercial da cidade
Não foi assim que Maria e José entraram em Belém, mas, hoje, não há outro jeito. É preciso esperar diante do muro, uma intimidante barricada de concreto da altura de três andares guarnecida de arame farpado. Soldados armados com fuzis de assalto examinam os papéis. Revistam o veículo. Por ordem militar, nenhum civil israelense pode entrar. E poucos residentes em Belém têm permissão para sair – a razão de ser do muro, segundo Israel, é manter os terroristas fora de Jerusalém.
Apenas 9,5 quilômetros separam Belém de Jerusalém, mas, na geografia condensada e intratável da região, é como se estivessem em reinos diferentes. Pode demorar um mês para um cartãopostal ir de uma cidade a outra. Belém fica na Cisjordânia, em terras que Israel tomou em 1967, na Guerra dos Seis Anos. É uma cidade palestina: a maioria de seus 35 mil habitantes é muçulmana. Em 1900, mais de 90% eram cristãos. Hoje, essa parcela caiu para cerca de um terço, e vem minguando à medida que os cristãos partem para a Europa ou para as Américas.No mínimo 12 homens- bomba vieram da cidade e do distrito circundante. Belém, a “aldeia” venerada do Natal, é um dos lugares mais disputados do planeta.
Dada a autorização para entrar, uma porta de aço deslizante, parecida com as de um trem de carga, abre-se com rangido. Os soldados dão passagem, e o motorista atravessa a brecha temporária no muro. E então, rilhando nos trilhos, a porta se fecha com estrondo. Eis Belém.
A cidade fica na escabrosa orla do deserto da Judéia. A vegetação é esparsa, e as casas mais antigas, feitas de pedras de um amarelo desmaiado, ladeiam espremidas as vielas íngremes. Alguns táxis decrépitos circulam, chamando passageiros a buzinadas. Num quiosque, carne de carneiro gira no espeto, pingando gordura.Homens sentados em cadeiras de plástico bebem o forte café árabe em copinhos. Paira um cheiro de lixo não coletado. Subindo o morro, pode-se ver a extensão do muro e avaliar sua contínua expansão: uma serpente verde, segmentada de guaritas cilíndricas, cingindo metodicamente Belém.
Muros adentro, há três campos de refugiados palestinos: blocos de apartamentos exíguos e amontoados a esmo.As ruelas do acampamento são decoradas com centenas de cartazes de mártires – moços de olhar fixo e impassível, alguns empunhando fuzis.Muitos são vítimas das Forças de Defesa de Israel. Outros explodiram a si mesmos em algum shopping, restaurante ou ônibus israelense. O texto em árabe nos cartazes louva a grandiosidade desses atos.
Do outro lado do muro, dominando a crista de morros ao redor, esparramam-se assentamentos judaicos, espetados por guindastes de construção, em férvido crescimento.No fim de tarde, o Sol fulgura nas paredes das casas dessas povoações, e Belém parece cercada de brasas.
No topo da colina central de Belém está a praça da Manjedoura, calçada de paralelepípedos, defronte à igreja da Natividade. Ali a estrutura mais alta e destacada é uma mesquita.Muitas das lojas de suvenir estão de portas e janelas fechadas. São relíquias de tempos mais pacíficos. O turismo é reduzido. Os peregrinos religiosos entram e saem levados por guias – uma rápida parada na praça e uma partida apressada morro abaixo para atravessar o muro e voltar a Jerusalém. Os hotéis vivem às moscas. Poucos visitantes pernoitam. O desemprego em Belém, pela estimativa do prefeito, anda em 50%, e muitas famílias não sabem se irão comer no dia seguinte.
A igreja da Natividade fica quase escondida. Parece uma fortaleza de pedra, com paredes grossas, impenetráveis, e fachada austera. Talvez por isso mesmo tenha sobrevivido por 14 séculos: Belém não é lugar para delicadezas arquitetônicas. Estar plantada na encruzilhada do mundo – a movimentada intersecção de Europa, Ásia e África – significa perpétua hora do rush dos exércitos invasores. A igreja sobreviveu a conquistas de pérsios, bizantinos,muçulmanos, cruzados, mamelucos, otomanos, jordanianos, britânicos e forças israelenses. A porta de entrada foi sendo diminuída com o passar dos séculos, talvez para impedir o acesso a cavalos e camelos dos viajantes, até ser apenas uma abertura minúscula. Para passar ali, é preciso quase dobrar o corpo ao meio.
