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Edição 93/Dezembro de 2007 25/08/2011

Belém 2007 d.C.

Belém, onde Jesus nasceu, é hoje um dos lugares mais disputados da Terra 

por Michael Finkel

Christopher Anderson

Em Belém, muro separa palestinos e judeus

Christopher Anderson

Muro erguido por Israel transformou em beco sem saída uma rua comercial da cidade

Não foi assim que Maria e José entraram em Belém, mas, hoje, não há outro jeito. É preciso esperar diante do muro, uma intimidante barricada de concreto da altura de três andares guarnecida de arame farpado. Soldados armados com fuzis de assalto examinam os papéis. Revistam o veículo. Por ordem militar, nenhum civil israelense pode entrar. E poucos residentes em Belém têm permissão para sair – a razão de ser do muro, segundo Israel, é manter os terroristas fora de Jerusalém.

Apenas 9,5 quilômetros separam Belém de Jerusalém, mas, na geografia condensada e intratável da região, é como se estivessem em reinos diferentes. Pode demorar um mês para um cartãopostal ir de uma cidade a outra. Belém fica na Cisjordânia, em terras que Israel tomou em 1967, na Guerra dos Seis Anos. É uma cidade palestina: a maioria de seus 35 mil habitantes é muçulmana. Em 1900, mais de 90% eram cristãos. Hoje, essa parcela caiu para cerca de um terço, e vem minguando à medida que os cristãos partem para a Europa ou para as Américas.No mínimo 12 homens- bomba vieram da cidade e do distrito circundante. Belém, a “aldeia” venerada do Natal, é um dos lugares mais disputados do planeta.

Dada a autorização para entrar, uma porta de aço deslizante, parecida com as de um trem de carga, abre-se com rangido. Os soldados dão passagem, e o motorista atravessa a brecha temporária no muro. E então, rilhando nos trilhos, a porta se fecha com estrondo. Eis Belém.

A cidade fica na escabrosa orla do deserto da Judéia. A vegetação é esparsa, e as casas mais antigas, feitas de pedras de um amarelo desmaiado, ladeiam espremidas as vielas íngremes. Alguns táxis decrépitos circulam, chamando passageiros a buzinadas. Num quiosque, carne de carneiro gira no espeto, pingando gordura.Homens sentados em cadeiras de plástico bebem o forte café árabe em copinhos. Paira um cheiro de lixo não coletado. Subindo o morro, pode-se ver a extensão do muro e avaliar sua contínua expansão: uma serpente verde, segmentada de guaritas cilíndricas, cingindo metodicamente Belém.

Muros adentro, há três campos de refugiados palestinos: blocos de apartamentos exíguos e amontoados a esmo.As ruelas do acampamento são decoradas com centenas de cartazes de mártires – moços de olhar fixo e impassível, alguns empunhando fuzis.Muitos são vítimas das Forças de Defesa de Israel. Outros explodiram a si mesmos em algum shopping, restaurante ou ônibus israelense. O texto em árabe nos cartazes louva a grandiosidade desses atos.

Do outro lado do muro, dominando a crista de morros ao redor, esparramam-se assentamentos judaicos, espetados por guindastes de construção, em férvido crescimento.No fim de tarde, o Sol fulgura nas paredes das casas dessas povoações, e Belém parece cercada de brasas.

No topo da colina central de Belém está a praça da Manjedoura, calçada de paralelepípedos, defronte à igreja da Natividade. Ali a estrutura mais alta e destacada é uma mesquita.Muitas das lojas de suvenir estão de portas e janelas fechadas. São relíquias de tempos mais pacíficos. O turismo é reduzido. Os peregrinos religiosos entram e saem levados por guias – uma rápida parada na praça e uma partida apressada morro abaixo para atravessar o muro e voltar a Jerusalém. Os hotéis vivem às moscas. Poucos visitantes pernoitam. O desemprego em Belém, pela estimativa do prefeito, anda em 50%, e muitas famílias não sabem se irão comer no dia seguinte.

A igreja da Natividade fica quase escondida. Parece uma fortaleza de pedra, com paredes grossas, impenetráveis, e fachada austera. Talvez por isso mesmo tenha sobrevivido por 14 séculos: Belém não é lugar para delicadezas arquitetônicas. Estar plantada na encruzilhada do mundo – a movimentada intersecção de Europa, Ásia e África – significa perpétua hora do rush dos exércitos invasores. A igreja sobreviveu a conquistas de pérsios, bizantinos,muçulmanos, cruzados, mamelucos, otomanos, jordanianos, britânicos e forças israelenses. A porta de entrada foi sendo diminuída com o passar dos séculos, talvez para impedir o acesso a cavalos e camelos dos viajantes, até ser apenas uma abertura minúscula. Para passar ali, é preciso quase dobrar o corpo ao meio.