Ficção urbana
Uma cidade inteira está sendo erguida no Distrito Federal para abrigar jovens famílias de classe média
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Edição 130 - Código postal: Águas Claras - Desapropriação de agricultores
Érico Hiller
A busca por áreas para novos prédios pressiona a antiga chácara do agricultor Edmar Muniz Silva, de 30 anos. "Não quero sair", diz.
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Edição 130 - Código postal: Águas Claras - Apartamento em Águas Claras
Érico Hiller
O publicitário Ademir Brito, de 35 anos, e a esposa, Karina (à esquerda), conversam na varanda do espaçoso apartamento, antes de Brito sair para o emprego em Brasília. Águas Claras é uma das 30 Regiões Administrativas (RAs) que compõem o Distrito Federal; engloba a chamada Águas Claras Vertical (onde se concentram todos os edifícios altos do DF) e os setores de moradia popular de Areal e Arniqueiras. Leia a reportagem completa
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Edição 130 - Código postal: Águas Claras -Operários constroem Águas Claras
Érico Hiller
Milhares de operários, vindos de cidades goianas no entorno do Distrito Federal, constroem Águas Claras em ritmo de mutirão. Com centenas de projetos ainda no papel, os empregos estão garantidos nos próximos anos.
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Edição 130 - Código postal: Águas Claras -Cidade em obras
Érico Hiller
Cenários fabulosos dominam a propaganda imobiliária nas ruas, tentando mostrar o destino da cidade em obras. Águas Claras é um exemplo brasileiro da voracidade da engenharia das nações emergentes.
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Edição 130 - Código postal: Águas Claras - Novos empreendimentos
Érico Hiller
Um jovem casal visita o modernoso estande de uma construtora. Nos últimos seis anos, o crescimento populacional foi espantoso na Região Administrativa: passou de 43 623 para 135 685 habitantes. A maioria vive na área verticalizada - funcionários públicos ou profissionais liberais que trabalham em Brasília
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Edição 130 - Código postal: Águas Claras - Metrô em Águas Claras
Érico Hiller
A cidade foi planejada para que seus moradores privilegiassem o metrô. Nos horários de pico, porém, os trens chegam cheios de estações anteriores.
Futurismo é a palavra da moda em Águas Claras. Todo mundo usa, mas isso não quer dizer que seu significado seja claro. Um dia depois da minha chegada, um corretor de imóveis vem conversar. "O senhor precisa conhecer o nosso projeto. É o que há de mais atual em termos de futurismo", diz. (Mesmo sem entender nada, aceito um cartão para visitar o estande de vendas do edifício.) Mais do que antever o amanhã, ou o dia incerto no qual a cidade que emerge com velocidade estonteante estará definitivamente construída no Distrito Federal, o futurismo é um modo de explicar uma arquitetura que, acreditam os moradores, servirá para diferenciar seu novo hábitat. Ou seja, é um estilo. Ou uma maneira curiosa de tentar buscar identidade estética em uma cidade de feições únicas no Brasil - absolutamente vertical, na qual centenas de espigões residenciais, finalizados ou em obras, se projetam rumo aos céus do Planalto Central, anunciando um novo tempo nas adjacências da capital da República.
Enfim, Águas Claras é isso: Brasília revisitada, 50 anos depois do sonho de Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Com bem menos personalidade visual, diga-se logo, mas sintonizada com muitos aspectos de seu tempo: impessoal, confortável, apressada, consumista. Uma cidade-condomínio. Sua súbita existência, que decolou de vez apenas cinco anos atrás, provém da metropolização de Brasília, do déficit habitacional de uma urbe tombada como Patrimônio da Humanidade e cuja verticalização é engessada pelo Plano Piloto (seu mapa tem a forma de um avião). Planejada em 1960 para abrigar 500 mil pessoas, a capital já atingiu cinco vezes esse total, segundo o Censo de 2010.
Águas Claras foi, por isso, pensada para abrigar uma classe média bem-sucedida que, mesmo com poder de compra, não dispunha de ofertas de bons imóveis em Brasília. Quando o agrônomo Francisco Resende chegou à cidade, em 2001, vindo de Lavras, em Minas Gerais, para trabalhar na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecúaria (Embrapa), o Plano Piloto já estava saturado. "As opções de compra eram raras e caras, assim como os aluguéis", lembra-se. Ele e a mulher encontraram seu paraíso a 20 quilômetros dali e a 15 andares do solo, com varanda, três quartos, playground e piscina, em um canto tranquilo da cidade-refúgio que começava a crescer. Duas filhas nasceram nos anos seguintes. "Os prédios são novos, têm grandes áreas comuns, segurança, lazer. E são mais baratos. Como resistir?", diz sua esposa, Patrícia.
O passado (sem bueiros)
Divergindo das demais cidades-satélite, como Taguatinga, Gama ou Ceilândia, bolsões de vida proletária que nasceram para abrigar os trabalhadores que construíram o Plano Piloto, Águas Claras é chique. Não era bem assim no fim da década de 1990, quando os primeiros empreendimentos habitacionais tinham vocação popular, tocados por cooperativas de servidores públicos do Distrito Federal. Sem fôlego financeiro, elas logo arrefeceram - para alegria das incorporadoras particulares, que, a partir de 2006, vislumbraram lucros incalculáveis na vastidão desapropriada de 800 hectares, uma antiga zona de chácaras e produtores rurais.
O crescimento, desde então, é espantoso - um fenômeno urbano comparável, nas devidas proporções, com a extravagante Dubai ou a ostentosa Cingapura. Nesse território livre da especulação imobiliária, a iniciativa privada sobressai de tal modo que inverte a lógica de ocupação de uma área planejada, na qual certos investimentos públicos garantem inicialmente uma infraestrutura mínima. Em Águas Claras, primeiro chegaram os moradores. Ainda não há escolas públicas, hospitais (primeiros socorros, em Taguatinga; casos graves, no Plano Piloto), bibliotecas, creches, corpo de bombeiros nem delegacia de polícia. A cidade, por enquanto, parece depender de uma ordem própria, do entendimento espontâneo entre seus habitantes - uma sucessão de acidentes de trânsito em esquinas mal sinalizadas mostra que as coisas fogem um pouco do controle. "Até que melhorou. Nos primeiros anos nem bueiro havia. Na estação das águas, as ruas viravam rios", conta um morador.
Se não chove, é outro o problema. "As pessoas querem saber quando a poeira vai acabar", diz Athayde Passos da Hora, atual administrador da cidade, dos poucos representantes do governo distrital. "Mas elas precisam entender que estão vivendo no maior canteiro de obras da América Latina. Um dia Águas Claras vai ficar pronta."
O projeto original atendia a um princípio de sustentabilidade: o estímulo ao uso do transporte coletivo. A cidade foi desenhada ao longo da linha do metrô do Distrito Federal, e cada condomínio não pode estar a mais de 500 metros de distância de uma das quatro estações locais. No papel é perfeito. Mas hoje, com a cidade ainda pela metade, os trens não dão conta de atender os usuários nos horários de pico. Os carros, sempre eles, tornaram-se prioridade em uma malha urbana na qual deveriam ser coadjuvantes. Os congestionamentos são corriqueiros nas largas rodovias que levam ao Plano Piloto, como a Estrada-Parque Taguatinga-Guará (EPTG).
Para piorar, a demanda por imóveis fez com que uma das normas mais importantes de Águas Claras, que limitava a altura dos edifícios a 12 andares, fosse flexibilizada. Já são autorizados 28 andares - por enquanto, dizem os críticos. "Ou providencia-se uma revisão ou a cidade ficará sem espaço para estacionamento. Vão acabar consumindo áreas públicas, como as praças", disse em 2010 o arquiteto Paulo Zimbres, responsável pelo desenho de Águas Claras, na ocasião de eventos relacionados aos 50 anos de Brasília.
