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Edição 140/Novembro de 2011 02/12/2011

Direto para baixo

Com cordas, mas sem GPS, australianos destemidos mergulham nos cânions secretos das montanhas Azuis

por Mark Jenkins Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Os suíços têm montanhas, e por isso escalam. Os canadenses têm lagos, e então remam. Os australianos têm cânions, e se aventuram neles em uma forma híbrida de loucura – uma mistura de montanhismo com exploração de cavernas, na qual se vai sempre para baixo, seguindo um rio, muitas vezes dentro de túneis úmidos e passagens claustrofóbicas. Ao contrário de outros destinos com cânions estreitos, cavados pela água nas rochas, como em Utah ou na Jordânia, a Austrália tem uma herança rica e profunda dessa experiência, o canyoning, ou canionismo.

De certa forma, é uma maneira extrema de bushwalking, a travessia de regiões inóspitas que era hábito dos aborígines, e algo que eles faziam milhares de anos antes da chegada dos europeus. Entretanto, sem cordas nem equipamentos, os nativos não podiam explorar as fendas mais profundas.

Nos dias atuais, milhares de australianos exploram os abismos, descendo por eles com cordas. Mas apenas um punhado de malucos explora cânions selvagens. Esses indivíduos determinados tendem a ter pernas de jogador de rúgbi, joelhos cheios de cicatrizes e arranhões, tolerância de pinguim à água gélida, habilidade de canguru para pular de rocha em rocha e disposição de marsupial para rastejar na umidade. Preferem usar tênis de lona com sola de borracha, shorts esfarrapados, perneiras rasgadas e camisetas de algodão barato. Acampam ao lado de pequenas fogueiras e fazem jaffles para o café da manhã. Jaffles, diga-se, são sanduíches com todo tipo de ingrediente – inclusive Vegemite, um extrato de levedura de sabor peculiar – preparados em um tipo de tostadeira.

Muito além de desafiar o próprio paladar, contudo, o que esses aventureiros querem é testar seus limites nos cânions remotos e de difícil acesso. “Quanto mais escuro, estreito e tortuoso, melhor”, diz Dave Noble, um dos experientes exploradores de cânions do país. “As pessoas me perguntam: ‘E se você ficar preso lá’? Acontece que é exatamente isso que buscamos: sermos forçados a improvisar para poder escapar.”

Nos últimos 38 anos, Noble fez 70 descidas pioneiras nas montanhas Azuis, a apenas algumas horas de carro a oeste de Sydney. Essa região sulcada tem centenas de cânions com fendas. As “Blueys”, contudo, não são montanhas e sim um platô sedimentar entalhado pela erosão de rios e acarpetado por eucaliptos.

Noble, de 57 anos, é um sujeito nada convencional. Nunca dirigiu um carro. Ele pedala em média 30 quilômetros por dia pelos subúrbios de Sydney para ensinar física em um colégio. Embora tenha desenhado mapas cheios de anotações de cânions que explorou e batizou – com nomes sugestivos como Canibal, Cripta Negra, Crucificação e Ressurreição – e postado fotos em seu site, ele não conta a ninguém onde esses tesouros se localizam. Nem sequer me deixa dar uma boa olhada nos mapas. “É a nossa ética”, diz ele. “Os cânions selvagens devem ser mantidos sem descrição para que permaneçam puros e outros possam ter o desafio de explorá-los por si mesmos. Isso é parte do mistério.”

Seu principal oponente na atividade é Rick Jamieson, que conquistou a desaprovação de Noble há alguns anos ao revelar alguns desses segredos da geografia local. Há dez anos, Jamieson, também um professor de física, levou-me à primeira descida completa de dois cânions, o Bennett Gully e o Orongo. Um homem enorme, corpulento e bem-humorado, ele, aos 70 anos, ainda explora os cânions e continua rindo. “Fantástico!”, exclama, com seu pronunciado sotaque australiano, quando saímos uma noite para tomar uma cerveja. “Temos a sorte de esses GPS não funcionarem nos cânions. Isso mantém a aventura.”