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Edição 120/Março de 2010 02/12/2011

O sonho da China

Xangai tenta recuperar a glória do passado - desta vez nos próprios termos

por Brook Larmer Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Frtiz Hoffmann

China: vista do World Financial Center, a Jin Mao Tower e a Oriental Pearl TV Tower

Frtiz Hoffmann

World Financial Center, Jin Mao Tower e Oriental Pearl TV Tower, marcos da ambição da cidade

O mundo secreto do antigo abrigo antibombas de Xangai parece um universo paralelo. Lá em cima, na rua ensolarada, operários migrantes devoram marmitas de arroz e tofu enquanto funcionários de escritório vestindo impecáveis camisas brancas passam diante da pequena placa na calçada. No recesso sombrio, a jovem desce por uma escada até o lugar que ela conhece apenas como "0093".

Depois de passar pelas portas de metal, a jovem de 22 anos - Sheng Jiahui, mais conhecida pelo apelido de "Sammy" - embrenha-se por corredores. Em seu perpétuo crepúsculo, o 0093 ainda evoca a claustrofobia da guerra e da revolução comunista que pôs fim ao apogeu esfuziante de Xangai, quando a mescla das culturas ocidental e oriental fez dessa cidade a Paris do Oriente.

A porta abre-se e uma explosiva rajada de guitarra elétrica invade o corredor. Na pequena sala, sob um cartaz do lendário Jimi Hendrix, quatro garotas xangainesas - que formam com Sammy uma banda de punk rock, a Black Luna - começam a ensaiar. Esse é um giro curioso da história: o abrigo antibomba, antes símbolo de uma sociedade ferida e temerosa, tornou-se incubadora dos novos músicos de Xangai. O local de ensaio no 0093 já prestou bons serviços para mais de uma centena de bandas, revigorando uma cultura que hoje, como no passado, embaralha as fronteiras entre o Oriente e o Ocidente.

Sammy tira o blusão enquanto as outras continuam a ensaiar. Orange, de 20 anos, martela a bateria; Juice, de 23, toca os acordes com a mesma velocidade do novo trem Maglev de Xangai. Sammy começa a cantar e seu cabelo curto sacode para cima e para baixo em ritmo acelerado. Filha de uma cantora de ópera, ela está dando novo rumo ao talento musical da família. "Somos aves recém-nascidas, mas temos sonhos", berra. "O mundo todo vai ouvir a gente cantar."

Toda a cidade tem seu ritmo próprio, uma pulsação que a leva adiante. Em Xangai, é fácil perder-se em meio à incessante percussão de britadeiras e bate-estacas, tratores e guindastes de construção. A proliferação de arranha-céus e canteiros de obras faz parte da metamorfose pela qual está passando Xangai para ser a anfitriã da Expo 2010, a versão contemporânea da Feira Mundial, que será realizada de maio a outubro. Todavia, a ascensão da única metrópole chinesa de fato global está sendo impulsionada não só pelas máquinas mas sobretudo por uma cultura urbana que segue a própria batida - acolhendo o novo e o estrangeiro ao mesmo tempo que busca recuperar sua glória passada.

Os nativos de Xangai formam uma tribo urbana distinta do restante da China pela língua, pelos costumes, pela arquitetura, pela culinária e pelas atitudes. A cultura local, com frequência chamada de haipai (estilo de Xangai), originou-se da história peculiar da cidade como um ponto de reunião de mercadores estrangeiros e migrantes chineses. "Para os estrangeiros, Xangai é parte da China ‘misteriosa’", explica o comediante local Zhou Libo. "Mas, para os outros chineses, Xangai faz parte do mundo externo."

Xangai, ao contrário da Pequim imperial, não passava de um vilarejo de pescadores há um século e meio - mas já impregnada do sentimento de que estava destinada a um grande futuro. Era um sonho de estrangeiros, um porto para mercadores ocidentais que trocavam ópio por chá e seda.

Os edifícios erguidos à beira-rio, no trecho conhecido como Bund (palavra derivada do hindi), manifestavam o poder de nações estrangeiras, não o da China. Ali desembarcavam ondas de imigrantes, criando uma exótica mescla de banqueiros britânicos e dançarinas russas, missionários americanos e grã-finos franceses, refugiados judeus e seguranças siques com turbantes.