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Edição 109/Abril de 2009 02/12/2011

Previsão: tragédia  

Com o aquecimento do planeta, aumentam as inundações nas regiões úmidas e ficam ainda mais secas aquelas em que falta água 

por Elizabeth Kolbert Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

China Daily/Reuters/Corbis

Chuvas na cidade de Chongqin, na China

China Daily/Reuters/Corbis

Em julho de 2007, 230 milímetros de chuva em 24 horas inundaram a cidade de Chongqin, na China

O primeiro império de que se tem notícia, a Acádia, surgiu há 4,3 mil anos entre os rios Tigre e Eufrates. O império era governado a partir de uma cidade também conhecida como Acádia - que ficava logo ao sul da atual Bagdá -, e sua influência estendia-se ao norte até a Síria, a oeste até a Anatólia e a leste até o Irã. Bem organizados e armados, os acádios acumularam muita riqueza: textos da época mencionam desde madeiras nobres até metais preciosos, que chegavam à capital vindos de regiões remotas.

No entanto, após um século de existência, o império acádio chegou ao fim. Durante um período de três anos, quatro indivíduos reivindicaram o trono do imperador. "Quem era o soberano? Quem não era?", indaga um texto que ficou conhecido como Lista dos Reis Sumérios.

Por muito tempo os historiadores atribuíram às disputas políticas a culpa pela queda do império. Mas, há uma década, climatologistas que examinaram os registros de leitos dos lagos e do golfo de Omã descobriram que, bem na época em que ruiu o Império Acádio, houve uma drástica redução nas chuvas. Acredita-se que o colapso da Acádia tenha sido, na verdade, ocasionado por uma seca devastadora. Outras civilizações cujo fim foi associado a alterações na precipitação pluvial incluem o Antigo Império no Egito, cuja derrocada ocorreu na mesma época da decadência dos acádios; a civilização de Tiwanacu, que prosperou nas imediações do lago Titicaca, nos Andes, por mais de um milênio até seus campos serem abandonados, por volta do ano 1100; e o período clássico da civilização maia, que, no apogeu de seu desenvolvimento, também sofreu um colapso no ano 800.

As alterações no regime das chuvas que aniquilaram essas civilizações são, claro, muito anteriores à industrialização. Elas foram ocasionadas por alterações naturais no clima cujas causas permanecem desconhecidas. Por outro lado, as mudanças provocadas pelo aumento da concentração de gases associados ao efeito estufa são de nossa inteira responsabilidade. Também elas vão afetar o regime das chuvas, e de uma maneira que poderá se revelar também catastrófica.

O ar quente contém mais vapor d'água - em si mesmo um dos gases do efeito estufa - do que o ar frio, e por isso, num mundo mais quente, a atmosfera contém mais umidade. A cada grau Celsius que a temperatura sobe, aumenta em 7% o vapor d'água no ar junto da superfície. Isso não significa que vai haver mais chuva, mas é provável que provoque mudanças na distribuição dela. E vai intensificar a dinâmica básica que governa as precipitações: em algumas regiões, o ar úmido tende a subir, ao passo que em outras a umidade costuma retornar como chuva e neve.

"O raciocínio básico seria que as transferências de água vão aumentar", explica o cientista Isaac Held. Nos próximos 100 anos, as regiões polares e subpolares vão receber mais precipitações, ao contrário das regiões subtropicais - entre as zonas tropicais e temperadas -, que terão menos chuvas. Já em escala regional, os modelos divergem sobre algumas tendências. No entanto, há consenso em que a bacia do Mediterrâneo, por exemplo, vai se tornar mais árida. O mesmo vai ocorrer com o México, o sudoeste dos Estados Unidos, a África do Sul e o sul da Austrália. O Canadá e a Europa setentrional, por outro lado, vão ficar mais úmidos.

Uma boa regra prática geral, segundo Held, é que "as áreas úmidas vão ficar mais úmidas e as áreas secas vão ficar mais secas". Como temperaturas mais elevadas provocam o aumento da evaporação, até mesmo locais que continuam receber a mesma quantidade total de precipitação vão ficar mais propensos a períodos de seca. Isso constitui um risco especial para regiões que dependem da chuva para o cultivo agrícola. "Na África, só 6% das plantações são irrigadas", diz Sandra Postel, da organização Global Water Policy Project. "É uma área muito vulnerável."

Por outro lado, quando há chuva, esta virá em tempestades intensas, aumentando a probabilidade de inundações - mesmo em áreas assoladas pela seca. De acordo com recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da ONU, "estima-se que ocorrências de precipitações fortes se tornem mais corriqueiras" e que um aumento de tais ocorrências já provoca situações desastrosas. Na década entre 1996 e 2005 registrou-se um número duas vezes maior de enchentes catastróficas do que nas três décadas entre 1950 e 1980.