Edição 175/ Maio de 2010 12/09/2011

Compras em Buenos Aires

Buenos Aires é o novo Eldorado das compras dos brasileiros: roupas de grife, jaquetas de couro, maquiagem, tênis, vinhos

por Manuela Nogueira

Christian Kaptelyn/Alamy

Galerías Pacífico, shopping no Centro de Buenos Aires, Argentina

<p> Christian Kaptelyn/Alamy</p>

O interior do shopping Galerías Pacífico

Responda rápido: o que foram fazer 460 mil brasileiros em Buenos Aires no ano passado? Comer a melhor parrilla de suas vidas? Secar o time de Maradona in loco nas eliminatórias da Copa da África do Sul? Tomar cortado (ou lágrima) até enjoar? Dançar tango com direito àquelas expressões de rosto dramáticas? Sentir um gostinho de Europa a três horas de distância?

Tudo isso pode ter sido parte da motivação, mas certamente não foi a principal. A principal foi o fato de o real seguir forte, muito forte em relação ao peso argentino. Hoje, R$ 1 vale aproximadamente AR$ 2,20, a melhor cotação nos últimos dez anos – pelo menos. Com isso, uma velha expressão dos argentinos daqueles tempos em que deitavam e rolavam em Balneário Camboriú, Canasvieiras, Búzios, Morro de São Paulo e Jericoacoara foi reabilitada. Mas agora quem diz “Dame dos” (“Me dá dois”) são os brasileiros.

Com produtos como uma blusa da Zara por AR$ 49 – cerca de R$ 22, portanto –, é difícil não resistir à tentação do “dame dos”. Que o diga a carioca Maria Moreira, que, com o marido, Nilton, esteve na capital portenha em março. “Vim para passear, mas fiquei impressionada com os preços e acabei comprando muitas roupas”, diz ela. “No Rio teria gastado três ou quatro vezes mais.” Dados do Global Refund, a empresa que administra o programa que devolve ao turista o valor dos impostos embutidos nos produtos adquiridos, mostram que, em dezembro de 2009, os brasileiros foram responsáveis por 23% das compras feitas por estrangeiros na capital argentina. A soma da participação de americanos e chilenos, os viajantes que vieram a seguir, fica abaixo desse percentual.

Os brasileiros não param de chegar. De acordo com a Secretaria de Turismo de Buenos Aires, em fevereiro de 2010, estivemos em quantidade 56% maior que um ano antes. E, para o próximo inverno, a expectativa é de que a capital argentina receba 25% a mais de brasileiros – é bem verdade que o inverno passado foi comprometido pela gripe A. Não é por outra razão que taxistas, vendedores, recepcionistas de hotel e garçons cada vez mais se esforçam para falar algo mais próximo do português. É só puxar um papo com eles sobre as novelas da Globo – elas fazem o maior sucesso por lá –, e você vai ouvir perguntas sobre o Rrrossê Mayer e a Rrruliana Paes.

Mas voltando às compras: na terra do alfajor, da uva malbec, da jaqueta de couro – e das grifes internacionais baratas –, bater pernas é também sinônimo de passear. De Puerto Madero a Belgrano, o visitante encontra lojas bacanas entre umponto turístico e outro. Isso quando a própria loja não for ponto turístico, como a livraria El Ateneo Grand Splendid. E mesmo aqueles avessos às compras, que trocariam cinco minutos de bateção de pernas por cinco dias de vinho e parrillada,vão se deixar seduzir pelas vitrines do bairro de Palermo, onde o deus Cool fez sua morada no continente. Passear, tomar um café e fazer compras nessa região, não necessariamente nessa ordem, é um programa delicioso. Com isso, você vai se surpreender se, ao fim da viagem, notar que não entrou em um único shopping sequer (apesar de o Unicenter, lá para as bandas da bonita San Isidro, merecer uma visita). Nas próximas linhas, você vai conhecer os endereços mais bacanas de Palermo, os grandes outlets da Avenida Córdoba e região, além do que vale visitar na Calle Florida, tão querida dos brasileiros. Além disso, as melhores lojas em diversas especialidades em outras regiões da cidade para passar o cartão de crédito sem culpa. Entonces, dame dos, por favor?

PALERMO É O BAIRRO DAS COMPRAS

A loja La Merceria, no bairro de Palermo em Buenos Aires, Argentina

<p> Marcelo Spatafora</p>

A loja La Merceria, em Palermo - Foto: Marcelo Spatafora

Palermo é o melhor bairro para fazer compras na capital argentina – é provavelmente também o melhor para viver, mas isso é outra história. Tudo que está ali tem muita qualidade e estilo, não só as lojas como os restaurantes e os hotéis de charme. Palermo é delimitado pelas avenidas Juan B. Justo, Coronel Niceto Vega, Raúl Scalabrini Ortiz e Santa Fe e tem subdivisões (Palermo Soho, Palermo Hollywood, Palermo Chico). É uma região grande, com quarteirões simétricos, e por isso é bom ter “foco” na hora das compras. As melhores lojas estão em torno da Plaza Serrano (oficialmente Plazoleta Cortázar) e das calles Honduras, El Salvador e Gurruchaga. Tradicionalmente vitrines de designers descolados, as lojas dos estilistas ganharam nos últimos anos marcas gigantes como vizinhas. Hoje, com o calçamento recém-reformado, Palermo é um lugar obrigatório mesmo para quem não é shopaholic.

O SHOPPING

O melhor shopping de Buenos Aires, o Unicenter (Avenida Paraná, 3745, 54-11/4733-1166, www.unicenter.com.ar; 10h/22h), não está na capital federal, mas a algumas quadras de uma atração turística que vale conhecer, a cidade de San Isidro, a 25 quilômetros do Obelisco ou 40 minutos de carro (ou AR$ 70 de táxi). Todo fim de semana, as 300 lojas do shopping, que têm grifes famosas, como Polo Ralph Lauren, Christian Lacroix, Christian Dior, Tommy Hilfiger, Zara, Cacharel, Tiffany, Swarovski e Daniel Hechter, ficam cheias. Existem outras revendas dessas marcas por Buenos Aires, mas só no Unicenter você vai encontrá-las juntas – o que faz boa diferença. O lugar também abriga a Falabella, loja de departamentos chilena que lembra, pela sua completude, a americana Macy’s. Três outras unidades da Falabella, menores, estão na Calle Florida. É bom que os maridos, namorados, irmãos e outros que talvez não aguentem a rotina intensa de compras saibam que o Unicenter tem 14 salas de cinema e bons restaurantes de cardápio internacional. O estacionamento também é mega, para 6 500 carros. A empresária goianiense Luciana de Souza adorou. “Agora, por causa deste shopping, vou começar a vir a Buenos Aires a cada dois meses”, disse ela à VT.

AS RUAS

As lojas bacanas da Calle Florida, uma das preferidas dos brasileiros, e o paraíso dos outlets da Avenida Córdobae das calles Francisco de Aguirre e Gurruchaga, em Villa Crespo

Florida

Velha conhecida dos brasileiros, a Calle Florida é um calçadão gostoso de caminhar, apesar de exigir algum cuidado, pois pode surgir um ou outro batedor de carteira. Comece pela face norte, nas cercanias da Plaza San Martin. Quase na esquina com a Marcelo T. de Alvear está a Casa Lopez, especializada em artigos de couro. Logo em frente, a loja da Brooksfield (Florida, 971), de moda masculina, que vende os mesmos produtos encontrados no Brasil, mas com preços inferiores. Ainda nessa quadra fica a Prüne (nº 963), um dos melhores lugares da cidade para comprar botas e jaquetas de couro. Logo ao lado, faça uma paradinha para o expresso no famoso Florida Garden (nº 899), e depois aparecem duas grifes internacionais: a Lacoste (nº 849) e a Christian Dior (nº 832). Na esquina com a Córdoba, finalmente, está o shopping Galerías Pacífico, que ocupa uma quadra inteira. Inspirado nas Galeries Lafayette, de Paris, o lugar reúne 150 lojas – vale conhecer a Cheeky, de roupas para crianças, a Como Quieres Que Te Quiera, de moda jovem, e a Jackie Smith, que vende bolsas de couro. A Falabella (nº 665) é a maior loja de departamentos da Argentina. São três unidades na Florida, essa, com eletrônicos e roupas. Outra parada obrigatória é a espanhola Zara (nº 651), em que os preços são mais baixos que no Brasil. Impossível não comprar nada na Isadora (nº 610), cujos brincos, pulseiras, colares, bolsas e outros acessórios são muito descolados. A Caro Cuore (nº 376) é o lugar preferido de muitas argentinas para comprar calcinhas, sutiãs e camisolas. Mas, se o assunto for tênis e roupas esportivas, aqui também está uma das lojas da grife Puma (nº 243). Encerre na Ligier (nº 165), onde estão à venda vinhos de diversas bodegas argentinas.

AS LOJAS

Artigos de couro

Pode reparar: cada esquina de Buenos Aires tem uma loja de artigos de couro. Mas, para não levar lebre por vaca, vá direto à Cardon (Avenida Alvear, 1847, 54- 11/4804-8424, www.cardon.com.ar; 2ª/sáb 9h/20h30, dom 11h/18h), na Recoleta, onde jaquetas, sapatos e acessórios têm design moderno e vestem e calçam adultos e crianças. A maioria das peças é de couro de vaca, mas também há produtos feitos de couro de ovelha, capivara, búfalo e veado.

Para crianças

Atenção, pais de meninas: Buenos Aires é a única cidade sul-americana a ostentar uma Barbie Store (Avenida Raúl Scalabrini Ortiz, 3170, 0810-4444-227243, www.barbiestores.com; 2ª/sáb 10h/20h30, dom 13h/20h). Na verdade, são duas, a de Palermo e a do shopping Unicenter. Além de várias bonecas, casas, trailers, roupas e acessórios, há uma lanchonete que serve docinhos, como o cupcake rosa, e um salão de cabeleireiro, onde mães e filhas podem fazer manicure, maquiagens e penteados. Vale o surrado clichê: absolutamente imperdível.

Decoração

Em plena Plaza Francia (também conhecida como Plaza Recoleta), dentro do Buenos Aires Design, há uma escada rolante que leva a uma loja meio surreal, a Morph (Avenida Pueyrredón, 2501, 54-11/4806-3226, www.morph.com.ar; 2ª/6ª 10h/21h, sáb/dom 12h/21h; tem filiais nos shoppings Alto Palermo e Galerías Pacífico). Dá vontade de morar nela, em meio a tantos copos coloridos, luminárias criativas (em formato de balão, estrela, lamparina) e objetos para casa. Aos poucos, você percebe as brincadeiras visuais contidas em cada objeto. Um pequeno pinguim de plástico funciona como porta-óculos; o miniaspirador de pó é, de fato, um cabo USB. Móveis, sofás, tapetes e muitos outros produtos de decoração estão à venda. Nem todos, é verdade, com direito a truques de ilusionismo.

Vinho

A loja com o melhor estoque de vinhos em Buenos Aires é a Winery (Avenida Juana Manso, esquina com a Avenida Macacha Guemes, 54-11/5290-6276, www.winery.com.ar; 2ª/sáb 9h/21h; tem outros nove endereços na cidade). De rótulos top de linha, como Luigi Bosca Icono, Cobos Malbec e Catena Zapata Malbec, até garrafas com bom custo/benefício, exemplo do Clos de Los Siete e do Reserva del Fin del Mundo, prepare-se para gastar alguns bons minutos – e muitos pesos argentinos – por aqui. Na Winery, encontram-se garrafas de mais de 100 vinícolas argentinas, de todas as regiões do país, dos consagrados malbec de Mendoza aos pinot noir da Patagônia. E, para quem gosta de brancos, a casa também tem rótulos das caves de Salta, no norte do país, onde é cultivada a uva espanhola torrontés. A mais nova unidade da rede, com menos de seis meses, em San Telmo, investe no wellness: local para fumar (e comprar) charutos, TV de LCD para ver futebol e até tabuleiros de xadrez. O administrador Thiago Maia, de São Paulo, habitué da Winery, não se limitou, em março, a comprar vinhos no local, e aproveitou os bons preços para levar garrafas de champanhe. ‘‘Vou servi-las no meu casamento.” A loja tem também diversos destilados e vinhos europeus.

O Alfajor

Duas bolachas macias recheadas com doce de leite e cobertas de chocolate derretido. A receita é despretensiosa, mas resulta no doce mais famoso da Argentina. Os alfajores são um símbolo do país, tão associados à gastronomia local quanto o vinho malbec e o bife de tira. A vantagem: dá para trazer muitos na mala. A versão aqui descrita é a clássica, mas existem também alfajores de bolacha de maisena, raspas de coco, chocolate branco e merengue. As marcas mais famosas são a Havanna, também presente no Brasil, mas bem mais cara, e a Cachafaz. Para encontrar os melhores preços, compre o suvenir em supermercados (custa AR$ 2). Se esquecer e deixar para adquirir no aeroporto, vai pagar preço de... aeroporto.

A vendedora

Atrás de uma pequena porta da movimentada Avenida Córdoba, fica La Guarda (no 433, 54-11/4312-6982, www.vinotecalaguarda.com.ar; 2ª/6ª 9h30/20h, sáb 10h/19h), uma das inúmeras bodegas de Buenos Aires. Quem entra um pouco desconfiado, achando que se trata de um lugar como outro qualquer, logo se surpreende com a boa qualidade do estoque e com a dedicação de Marisol Suarez, de 31 anos, uma das sócias. Fluente em inglês e esforçada em portunhol, ela apresenta as principais vinícolas argentinas e dá muitas dicas de compra. Marisol começou cedo no ramo, aos 15 anos. Hoje, muitas taças depois, ela fica feliz ao divulgar as vinícolas pequenas, o terroir argentino. São garrafas dessas bodegas-butique, como Don Marino e Ricardo Santos, que ela se esforça em vender. Sua uva predileta é a malbec e, entre os rótulos eleitos, fica com o Yacochuya (“intenso, para ocasiões especiais”) e Susana Balbo (“mais sutil, ótimo para o dia a dia”). Se quiser seguir suas indicações, você vai gastar cerca de AR$ 200 e AR$ 130, respectivamente.

A livraria El Ateneo

Era uma vez um teatro que virou cinema, um cinema que virou livraria e uma livraria que virou atração turística. A história da decana livraria El Ateneo (Avenida Santa Fe, 1860, 54-11/4813-6052; www.tematika.com.ar; 2ª/5ª 9h/22h; 6a/sáb 9h/0h, dom 12h/22h) encontra o belíssimo Teatro Grand Splendid apenas no ano 2000, mas muito glamour passou pelo mais bonito endereço da Avenida Santa Fe antes disso. O teatro foi construído em 1919 pelo austríaco Max Glücksmann. Depois de receber espetáculos de tango, o lugar passou a funcionar como cinema em 1926, e assim se manteve por longos 70 anos. A decadência adveio, e, em 2000, a rede de livrarias Yenni comprou o Grand Splendid. Desde então, o lugar das poltronas foi ocupado por milhares de livros, CDs e DVDs. E o palco – onde até Carlos Gardel se apresentou – virou um café, com piano ao vivo. A livraria tem ainda um auditório para 130 pessoas. Ao todo, são cinco andares: o térreo, três galerias (como as de um teatro de ópera) e um subsolo, onde fica a seção infantil. Mas mesmo quem não deseja comprar deve entrar aqui. Nem que seja para admirar o afresco da cúpula, pintado pelo artista italiano Nazareno Orlandi, ou contar para os amigos que esteve na maior e mais linda livraria da Argentina. A matriz, fundada em 1912, fica na Calle Florida, 340.

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