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Edição 09/Janeiro de 2001 29/08/2011

O reino dos corais

A grande barreira de Corais na Austrália: um espetáculo da vida submersa na maior estrutura construída por organismos vivos

por Douglas H. Chadwick

David Doubilet

Grande Barreira de Corais da Austrália

David Doubilet

A Grande Barreira de Corais da Austrália

O feixe de luz da minha lanterna refletia o brilho prateado de dois grandes olhos de felino, e suas pupilas pareciam mais negras do que as trevas por onde deslizavam. Só havia um problema: gatos não rondam a 12 metros de profundidade no mar de Coral. Eram tubarões. Eu não sabia dizer de que tipo, mas alguns daqueles corpos indistintos pareciam ser bem maiores do que o meu. Para complicar, o ar de meu tanque de oxigênio acabou e tive de voltar à superfície longe do barco. Fui obrigado a atravessar, a nado, enormes ondas negras no rumo da distante luz da embarcação. A sensação era de estar preso num daqueles sonhos em que precisamos nos mover muito mais rápido do que conseguimos. Um pesadelo real.

Prometi que muito tempo se passaria antes de eu voltar a mergulhar na Grande Barreira da Austrália. Dias depois, porém, descobri que promessas desse tipo não devem ser feitas ali. Pois lá estava eu, mais uma vez, a 15 metros da superfície, encarando outros olhos de felino. Eram de um gracioso e sarapintado tubarão Hemiscyllium ocellatum, que nadava perto de dois belos peixes-leão com nadadeiras abertas como asas emplumadas. Acima deles, uma vistosa coluna de coral erguia-se retorcida até bem perto da superfície, iluminada apenas pelas lâmpadas do barco e pela luz da lua cheia.

A condição do mergulho era – mais uma vez – sublime. A luz suave enfatizava as formas de vida que crescem praticamente livres dos efeitos da gravidade. Flutuar junto delas, sem sentir o peso do corpo, me fez sentir como numa excursão a outro planeta – mas, mais uma vez, logo notei meu engano. A cena submarina era a própria essência do nosso planeta, que, afinal, deve seu consagrado tom de azul aos oceanos. Além do mais, uma única parede de coral contém um conjunto representativo da vida na Terra mais amplo do que um continente inteiro. Enfim, o fundo do mar só parece ser um outro mundo para aqueles que, como eu e você, nasceram acima da linha da maré.

Os recifes coralinos formam-se quando colônias de plantas e animais marinhos tropicais com esqueleto de calcário crescem sobrepostos às gerações anteriores. Eles compõem os ambientes naturais visualmente mais diversificados que um ser humano pode conhecer, e a Grande Barreira de Corais é o maior conjunto coralino do mundo. A vasta e rasa plataforma continental do nordeste da Austrália proporciona uma base perfeita para o crescimento desse complexo de corais, que avança até 260 quilômetros mar adentro e tem mais de 2 mil quilômetros de extensão. No total, a Grande Barreira ocupa uma área de 350 mil quilômetros quadrados – um território um pouco maior do que o estado do Maranhão.

Para explorar essa imensidão submarina, o fotógrafo David Doubilet e eu vagamos por 6,5 mil quilômetros a bordo de barcos de mergulho. Passamos tantas horas submersos que comecei a estranhar a terra firme. No dia em que descobri uma rêmora – um peixe acostumado a grudar nos tubarões e nas raias-jamantas – pegando carona em minha perna, comecei a pensar seriamente que talvez fosse hora de retomar a vida na superfície.

Embora o nome sugira uma faixa contínua, a Grande Barreira de Corais é, na verdade, uma comunidade de, no mínimo, 2,8 mil recifes diferentes. Apenas alguns são autênticos recifes em barreiras – quebra-mares que se elevam junto à orla da plataforma continental. Nos mares mais calmos que ficam além desse cordão, outros recifes aparecem na forma de círculos irregulares, conhecidos como plataformas coralinas. Estruturas menores, chamadas colunas coralinas, estão dispersas pelas áreas rasas.

Os recifes formam-se a partir das praias, mas são encontrados com maior freqüência ao redor das 618 ilhas australianas próximas ao continente. Essas ilhas altas foram montanhas durante a Era Glacial, antes que as geleiras derretessem e elevassem o nível do mar – são verdadeiras, portanto, as lendas aborígines que mencionam gerações antigas caminhando até essas ilhas. Existem ainda cerca de 300 ilhas baixas, as cays, formadas de sedimentos de recife sobre bancos de coral. Quando excrementos de aves marinhas aglutinam os grãos de areia e plantas compactam o solo, essas ilhas desertas tornam-se bosques, enquanto outras, assoladas por tempestades, voltam a se transformar em bancos de areia sem posição fixa.

O complexo de recifes e ilhas atua como um anteparo contra o mar revolto. Essa função ambiental estratégica permite a existência de leitos de vegetação marinha nas proximidades dos recifes e de florestas de mangues no litoral. Os mangues, por sua vez, capturam sedimentos, armazenam nutrientes e servem de viveiro para diversos habitantes dos recifes. Adicione aos mangues leitos marinhos entre recifes e outeiros submersos compostos de Halimeda, uma alga verde enrijecida pelo cálcio. Junte todos esses hábitats à água azul-celeste vinda do mar de Coral e à água cor de terra despejada do continente. Misture tudo a correntes, marés diárias e padrões climáticos sazonais: eis a receita do ecossistema da Grande Barreira de Corais.