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Edição 107/Fevereiro de 2009 25/09/2011

Darwins modernos

O pai da evolução ficaria encantado ao ver os avanços científicos inspirados por suas ideias

por Matt Ridley

Apenas duas semanas antes de falecer, Charles Darwin escreveu um breve ensaio sobre um molusco ínfimo, encontrado agarrado à perna de um besouro-d'água capturado em uma lagoa na região de Midlands, na Inglaterra. Foi o último texto que publicou. O homem que lhe enviou o besouro era um jovem sapateiro e naturalista amador chamado Walter Drawbridge Crick. O sapateiro acabou se casando e teve um filho, Harry, o qual por sua vez teria um filho, batizado de Francis.

Em 1953, Francis Crick, com o jovem biólogo americano James Watson, faria uma descoberta que levou à triunfante justificativa de quase tudo o que Darwin deduzira a respeito da evolução.

Tal comprovação não se baseava em fósseis nem em espécimes de criaturas vivas, tampouco na dissecção de seus órgãos. Ela foi possível graças a um livro. Watson e Crick descobriram que todo organismo carrega, no interior de suas células, um código químico que governa sua própria criação, um texto escrito em uma linguagem comum a todas as formas de vida: o código simples do DNA. "Todos os seres orgânicos que já viveram neste planeta descendem de alguma forma primordial", escreveu Darwin. Na verdade, na época ele estava especulando. Para entender a história da evolução - sua narrativa e seu mecanismo -, os darwinistas modernos já não mais precisam especular. Têm apenas de consultar a escritura genética.

Vamos considerar, por exemplo, os famosos tentilhões das ilhas Galápagos. Darwin podia ver que seu bico tinha diversos formatos - alguns eram largos e profundos; outros, alongados; outros ainda, pequenos e truncados. Ele supôs (um tanto atrasado) que, apesar das diferenças, todos os tentilhões eram aparentados. "Diante dessa graduação e diversidade estrutural em um grupo de aves pequeno e estritamente relacionado", escreveu em A Viagem do Beagle, "é possível imaginar que, a partir da escassez original de aves nesse arquipélago, uma única espécie acabou sendo modificada para distintas finalidades."

Isso também não passava de inspirada especulação. No entanto, ao analisar a estreita similaridade de seus códigos genéticos, hoje os cientistas podem confirmar que os tentilhões de Galápagos de fato descendem de uma única espécie ancestral (ave cujo parente vivo mais próximo é a cigarra-parda, de cores opacas).

O DNA não só comprova que a evolução existe de fato como também mostra, em nível mais fundamental, de que maneira ela reconfigura os seres vivos. Há pouco, Arhat Abzhanov, da Universidade Harvard, e Cliff Tabin, da Faculdade de Medicina Harvard, identificaram os genes específicos que regulam o formato daqueles bicos. Os genes são sequências de letras do DNA que, ao serem ativados pelas células, produzem determinada proteína. Abzhanov e Tabin descobriram que, quando a proteína BMP4 é ativada (os cientistas usam o termo "expressada") na mandíbula em crescimento de um embrião de tentilhão, ela torna o bico mais largo e profundo. Esse gene expressa-se de modo mais vigoroso no grande-tentilhão-de-solo (Geospiza magnirostris), que usa o bico mais robusto para abrir grandes sementes e nozes. Em outros tentilhões, um gene expressa a proteína calmodulina, e isso resulta em um bico longo e estreito. Esse gene é mais ativo no grande-tentilhão-de-cacto (G. conirostris), que usa o bico alongado para buscar sementes no interior de frutas cactáceas.

Em outro grupo de ilhas, ao largo da costa do Golfo, na Flórida, o camundongo Peromyscus polionotus possui um pelame mais claro que os similares do continente. Graças a essa característica, eles conseguem se esconder com maior facilidade na areia clara - coruja, falcão e garça acabam assim se alimentando de quantidade maior de camundongos menos camuflados, permitindo que os mais claros se reproduzam. Hopi Hoekstra e colegas da Universidade Harvard comprovaram que a diferença de coloração se deve à alteração de uma única letra em um único gene, modificação que provocou redução de pigmento na pele do roedor. Tal mutação vem ocorrendo desde que as ilhas se formaram, há menos de 6 mil anos. A grande ideia de Darwin é que a seleção natural se deve em grande parte à diversidade de características que se nota entre espécies aparentadas. Agora, no bico do tentilhão e na pele do camundongo, podemos acompanhar a seleção natural em funcionamento, moldando e modificando o DNA dos genes e o modo como se expressam, a fim de adaptar o organismo a suas circunstâncias específicas.