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ESPECIAL PLANTADORES DE FLORESTAS 02/02/2012

Cap. VII - A defensora do pau-brasil

Ana Cristina Roldão, da FunBrasil, segue de perto os passos do pai, que dedicou 40 anos de sua vida ao plantio da árvore nacional

por Liana John

Dos cinco filhos de Roldão de Siqueira Fontes, apenas a caçula saiu ao pai. Ana Cristina herdou do professor a paixão pelo pau-brasil e a imensa paciência para contar, recontar e redesenhar a história da árvore nacional. Enquanto o pai viveu, ela o acompanhou. Ele à frente, ela à sombra, ambos semearam, plantaram e ensinaram a manter bosques carregados de simbolismo por todo o Brasil.

Durante os 40 anos dedicados a promover o conhecimento sobre o pau-brasil, o professor Roldão distribuiu cerca de 2 milhões e 700 mil mudas da espécie, conhecida pelos cientistas como Caesalpinia echinata. Desde 1996 – quando ele se foi – Ana Cristina toca sozinha a Fundação Nacional do Pau-Brasil (FunBrasil), em Glória do Goitá, Pernambuco. Com a esperança confessa de um dia despertar o interesse dos netos gêmeos, Ana Beatriz e João Victor, hoje com 4 anos, e transformá-los também em plantadores de florestas.

Nascida Ana Cristina de Siqueira Lima, ela acabou adotando o nome “artístico” pelo qual a mídia sempre a tratou, numa referência ao pai: Ana Cristina Roldão. Aprendeu a cuidar de roças e criações no Colégio Agrícola de São Bento, onde ele lecionava. “Sou capa gado formada, como fala o povo daqui”, comenta, numa alusão ao seu conhecimento prático, pé no chão. E ainda se vira com a papelada da FunBrasil, que ajudou o pai a criar em 1988.

Aos 59 anos, com a filha única criada e casada, morando em Recife, Ana Cristina divide-se entre o cuidado cotidiano com a irrigação das mudas de árvores nativas; a coordenação dos convênios estabelecidos com prefeituras e empresas para reflorestamentos e o acompanhamento dos visitantes, tanto nas trilhas interpretativas do bosque que rodeia a sede da fundação, como por entre os objetos e as fotos do Museu do Pau-Brasil, ali vizinho.

Capaz de se multiplicar sem perder o fio da meada, Ana Cristina só lamenta a falta de recursos para fazer mais: mais mudas, mais campanhas educativas, mais plantios. Em sua gestão à frente da fundação, ela diversificou, passando a trabalhar com outras 42 espécies de árvores nativas, além do pau-brasil, como os ipês roxo e amarelo, a sucupira, o cajueiro, o angico, o angelim e o jatobá. Em alguns plantios, acrescenta mudas produzidas em outros viveiros para chegar mais perto da diversidade original das matas.

Vale lembrar que, no Nordeste, a Mata Atlântica original já ocupava uma faixa bem mais estreita junto ao litoral, se comparada ao domínio da floresta na região Sudeste. E o desmatamento também foi mais prolongado – desde o século XVI – e intenso, sobretudo para exportação de madeiras – como o pau-brasil – e para abertura de engenhos e cultivo de cana-de-açúcar. Por isso, restam hoje apenas fragmentos pequenos e pulverizados no mapa, quase todos em propriedades rurais ou em áreas públicas e não protegidos em unidades de conservação.

Assim, toda e qualquer mudinha que cresça e “vingue”, como se diz por lá, é uma vitória. Justifica a atenção redobrada e o apelido atribuído por Ana Cristina às suas plantas: “Chamamos de filhotas, não só as de pau-brasil, mas todas as mudinhas. São as filhas que nós plantamos com cuidado e dedicação. E esse amor que a gente coloca, a gente tem a pretensão de que permeie para quem pegar nelas. Que eles as tratem bem, como nós as tratamos”, explica. “Espero, em Deus e na força da natureza, que mais pessoas se sensibilizem e trabalhem na restauração e no retorno das grandes árvores, porque são elas que dão equilíbrio ao Planeta”.

No princípio, o trabalho de divulgação realizado por Roldão de Siqueira Fontes tinha motivos históricos. Como professor de História e Geografia do Brasil no antigo Colégio Agrícola de São Bento, ele se indignava com o desconhecimento da população a respeito da árvore que deu nome ao país.

O colégio técnico pertencia à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), localizada no bairro Dois Irmãos, em Recife. Nos jardins de acesso ao prédio, existiam algumas árvores de pau-brasil, pelas quais o professor passava diariamente. No início dos anos 1970, ao descobrir que a espécie estava ameaçada de extinção, ele começou a coletar as sementes e formar mudas em latinhas e outros recipientes disponíveis, para distribuir aos alunos e seus familiares.

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