Edição 195/ Janeiro de 2012 03/01/2012

É disso que a gente gosta

As dez melhores praias do Brasil no Prêmio VT 2011/2012: a linda, a versátil, a magnética, a cinco-estrelas. Com falésia, duna, coqueiro, água cristalina...

por Fernando Souza, Betina Neves e Renata Mastromauro

A TOP OF MIND

Porto de Galinhas

“Acabou de chegar, foi? Seja bem-vindo, isto aqui é o paraíso”, saudou-me o garçom Virgílio enquanto eu me acomodava na espreguiçadeira do resort Nannai, de fente para a Praia de Muro Alto. No alto da encosta, a fileira de colchonetes parecia um camarote vip com vista para o mar esmeraldino. Lá embaixo, uma linha de arrecifes represava a água em uma lagoa generosa, que espremia a faixa de areia dos hóspedes, mas os deleitava com água morna. Atrás de mim, a sinuosa piscina do hotel se perdia entre pontes, ilhas de coqueiros e bangalôs de inspiração taitiana. Virgílio voltou com meu pedido, um balde de Stellas geladas e uma porção de lulas à dorê, um pouco borrachudas para um paraíso. Melhor resort de praia do Prêmio VT 2011/2012, o Nannai é a grande grife hoteleira de um distrito repleto de hotelões de lazer, pousadas e até hospedagens rústicas. Eclética assim, Porto de Galinhas foi o destino de praia do Brasil mais lembrado pelos eleitores, o Top of Mind da categoria no Prêmio VT. Visitar Porto, hospedar-se em seus resorts e curtir suas atrações naturais é um dos principais roteiros de férias do brasileiro, um dos cinco mais vendidos pela CVC neste verão.

Com menos de 100 acomodações, o Nannai não é um resortão típico. Não rola som na piscina, nem gincana nem barulho. Poucas crianças. As diárias acima dos R$ 1 000, às vezes R$ 2 000, atraem um público que gosta de ser visto entre os seus, mas prefere uma vibe low profile à badalação. Há sempre um famosinho na piscina, no gazebo panorâmico, no bufê do jantar, mas ninguém liga. Quando eu estava lá, o jogador Diego Tardelli servia-se de picanha anonimamente. E há os bangalôs. Ah, os bangalôs... Na construção de 45 metros quadrados no estilo polinésio, a cama enfeitada com cordões de conchinhas e os móveis de rattan criam uma despretensiosa atmosfera de praia, apesar de luxos como o rádio-relógio com entrada para iTudo e a espaçosa banheira. Do lado de fora, ulalá!, a piscina privativa supera a de muitas pousadas e o extravagante gazebo com day bed é digno dos paradores de Punta del Este.

Deixar o Nannai para me hospedar nos outros resorts de Muro Alto, minha missão, parecia, a priori, a substituição do paraíso pelo purgatório. E essa foi a primeira impressão que tive ao entrar no Summerville: a recepção deslocada (a original passava por reformas), o restaurante datado, o público feliz demais. Em comum com os outros resorts, a piscina seguia infinita na direção da praia. Farto da programação piscina-bar-praia-bar, agendei uma hora de tênis e, graças à camaradagem do instrutor, escapei de um duplo 6/0. A recreação, aliás, parece ser o forte do Summer. Em diferentes horários e cantos do hotel, sempre encontrava as crianças entretidas pelos monitores. Certa vez, elas tentavam acordar uma Branca de Neve de tez muito morena, que uma garotinha desmascarou ao gritar “É a Tia Criiiiis!!!” Para a gurizada, o Summerville é o Nannai.

Quem passa a semana em Porto de Galinhas costuma fazer alguns dos tours vendidos pelas agências locais, além de dar uma volta no centrinho. O programa mais famoso, embrião de todo o turismo que se desenvolveu em Porto, é o passeio de jangada pelas piscinas naturais, bem na fente da vila central. A R$ 15 por pessoa, até seis turistas sobem na embarcação, navegam alguns minutos e chegam aos bolsões de água cristalina formados pelos arrecifes. O pisar e repisar sobre eles, morada de todo um ecossistema, continua condenado, mas nenhuma alternativa sustentável foi implantada para se explorar a atração, sempre lotada. Para atrair os sargentinhos, peixes listrados encontrados aos milhares por ali, os barqueiros ainda atiram ração na água, o que faz com que os peixes mordam até as verrugas dos visitantes. “Aqui eu faço a lei”, ralhava um jangadeiro. Um dia peixes e corais vão para o vinagre, mas os turistas adoram. Para muitos, o mergulho com máscara nas piscinas de Porto é o maior espetáculo marinho que já presenciaram na vida.

Também clássico, um passeio de bugue leva até quatro ocupantes às praias mais conhecidas do distrito, começando por Muro Alto, ao norte. Lembra da lagoa do Nannai? Pois ela se estende por 3 quilômetros até a Praia do Cupe, na direção do centrinho. Exceto na gente dos resorts e pousadas, cada qual com seu serviço de praia, o movimento de banhistas é discreto. A partir do Cupe, o mar fica aberto e as ondas quebram mais fortes, mas é somente nas proximidades da vila de Porto de Galinhas que a densidade de turistas e ambulantes aumenta. E muito. Colados entre si, centenas de guarda-sóis criam uma frequência popular, muita gente em passeios de bate e volta. A seguir, porém, Porto vai da água ao vinho com a selvagem Maracaípe, um reduto de pousadas despojadas, barracas caiçaras, surfistas e kitesurfistas. Na ponta da praia, o Rio Maracaípe espelha a muralha de coqueiros de sua outra margem - vale agendar o pôr do sol. Mais afastada, Serrambi não entra no roteiro do bugue, mas pode ser conhecida de táxi, por R$ 100. O trecho mais agradável da praia, delimitado com molhes de pedras, fica em fente ao Serrambi Resort. O mar é lindo, a areia é fofa e não rola muvuca, já que quase ninguém vai pra lá, exceto os hóspedes.

No passeio que fiz à Praia dos Carneiros, hoje um dos tours mais procurados em Porto, conheci Patrício e Natalia Teixeira, casal paulistano de classe média que passava a lua de mel na região. “O sonho era Noronha, mas Porto foi o que a grana deu”, disseram-me. Passeio após passeio, estavam achando tudo maravilhoso. Quase tudo. “Pensei que o centrinho da vila fosse mais bonito”, contou Natalia. Ao se considerar o destino bombado no qual Porto se transformou, bem que seu centro comercial merecia uma revitalização. Na chegada à cidade, lojas de colchão, mercadinhos e uma igreja evangélica precedem o calçadão da vila, que alterna fachadas bem cuidadas e minishoppings com imóveis sem reboco e banners de mau gosto. Um cheiro desagradável sobe das valetas.

Era domingo, rodada final do Brasileirão de futebol, quando entrei no Enotel, o penúltimo resort de minha viagem. Jogos por começar, uma turba masculina formou-se no bar do lobby. Para surpresa geral, porém, o hotel mantinha seu telão desligado. Chope nas cabeças - o Enotel é all-inclusive -, Milton Nascimento nas caixas, começou a chiadeira. De repente, a imagem. Era muito clara, pedia um ajuste de contraste, mas, enfim, era a imagem. Pacaembu, dava pra ver. Mas Milton continuava. Dois hóspedes foram à recepção clamar pelo som do jogo. Voltaram, era problema da manutenção. Como ninguém aparecia, outros hóspedes foram à recepção, depois outros, até que foram todos do bar. Quase uma treta. Já era intervalo do jogo quando soubemos que o segundo tempo seria mudo mesmo: o som ambiente do hotel era o mesmo do bar. Cléber Machado no bar significaria Cléber Machado na piscina, nas quadras, no resort inteiro. Segundo tempo tenso, sai chope, entra uísque, vai Corinthians, e, finalmente, no telão, Vasco 1 x 1 Flamengo, jogo encerrado. Num ímpeto, joguei as Havaianas pro teto e saí em disparada, correndo por cima dos sofás e gritando “É CAMPEEEÃÃÃO, POOORRR#!!!” Futebol e atendimento à parte, o pão e circo do Enotel bem que funciona a contento. Não espere muito dos bufês que passam o dia nos bares, mas os das três refeições principais – fartos, variados e bem apresentados - surpreendem. Na piscina, o chope é self-service e os drinques chegam redondos. E, enquanto o Nannai não conclui seu spa (previsto para janeiro), o Enotel sobra no quesito, com piscinas de hidromassagem, de caminhada e de nado contra a correnteza, salas de massagem bacanas e até uma gruta com piscina térmica.

O momento mais inspirador que presenciei nos resorts de Porto aconteceu no Beach Class. No rasinho da praia, a recreação infantil promovia a pesca do siri. Para montar a isca, a molecada amarrava na linha uma pedra de arenito sobre a qual os monitores prendiam um pedacinho de frango cru. Fiz amizade com o pequenino Lucas, de 7 anos. “Primeira vez num resort?”, perguntei-lhe. “Que que é resort?”, devolveu-me. Never mind. Lá pelas tantas na pescaria, ele chamou a monitora. “Tem que ser siri ou pode ser caranguejo?” Antes que ela respondesse, uma coleguinha atravessou: “Caranguejo e siri são a mesma coisa...” Idade sábia essa em que sol, água, piscina e férias, caranguejo e siri, camelo e dromedário são a mesma coisa. O paraíso, como diria Virgílio.

A PITORESCA

Carneiros

A nova queridinha de Pernambuco é um programão a partir de Porto de Galinhas. De lá, um passeio de ônibus e barco (81/3552-1960; R$ 50) leva à barra do Rio Formoso, de fente para as piscinas naturais da região. Formoso adentro, as margens de areia enfileiram palhoças, bares e a igrejinha de São Benedito, do século 18. Em meio a coqueirais e ao verde gritante das águas, difícil saber o que é mar, o que é rio.

A MAGNÉTICA

Jericoacoara

Era a hora. Todos largaram o que faziam e atravessaram as ruelas de areia até a enorme duna à minha esquerda. Com as palavras do bugueiro Ricardo Delgado, um ex-engenheiro de São Paulo, na cabeça, eu também comecei a subi-la. “Jeri tem um ímã que não deixa ninguém partir e que faz quem vem uma vez sempre voltar”, havia dito. Lá de cima, a paisagem local – dunas brancas e mar azul (com lagoas de água da chuva ao longe) – ficou esplendorosa. Todos contemplávamos o sol. Para os que moravam a vida toda ali ou tinham chegado naquele dia, o encantamento devia ser o mesmo. Ao longe, uma ou outra pipa colorida reluzia com a luz que caía gradualmente. Por mais previsível que essa afirmação soe, foi diante do sol poente que comecei a entender o astral de Jericoacoara, o tal ímã que leva cerca de 600 mil visitantes por ano a essa vila de pouco menos de 2 mil habitantes.

É fato que Jeri já não é mais a vila de pescadores de outrora. Nativos como seu Zé Patinha reclamam até de um excesso de modernidade, o que significa ter cama e luz elétrica e usar dinheiro. “Antes só vinham mochileiros, que ficavam nas nossas casas em troca de um par de sapatos ou um saco de açúcar.” Pois bem, os mochileiros ainda estão lá, agora em albergues e pousadas, mas junto com eles muito mais gente descobriu essa pontinha do Ceará a 300 quilômetros de Fortaleza.

Hoje é inviável usar como moeda sapatos para pagar as pousadas, as refeições em restaurantes bonitinhos ou os produtos das lojinhas (muitas com produtos de designers). Mesmo assim, Jeri ainda tem muito de seu espírito primitivo. Nas ruas de areia fofa, que fazem do chinelo o calçado oficial, carros de turistas não transitam, TV a cabo não é commodity, a internet é leeeeeenta como a vida local e não há bancos ou caixas eletrônicos. E tudo cercado por uma beleza inescapável, quase intocada, e muito, muito vento.

É o vento, aliás, que leva muita gente até lá. Principalmente desde a fundação do Club Ventos (88/3669-2288, www.clubventos.com), em 1998, pioneiro no Brasil em prover todo o auxílio – e equipamento – para praticantes de windsurfe, kitesurfe e outros “surfes” do ar. Jeri é um “pico” mundial desses esportes. “De julho a janeiro, o vento é garantido”, conta Fábio Nobre, dono do clube. Os ventos também prolongam a alta temporada na vila, já que há sempre gringos por ali com suas velas e pipas.

A paisagem preservada deve muito ao fato de Jeri ter virado Área de Proteção Ambiental (APA) ainda em 1984. Em 2002, tornou-se parque nacional, o que restringe novas construções no entorno da vila. Os moradores fazem sua parte. Foram eles que pediram fiação subterrânea quando a eletricidade chegou, em fins dos anos 1990. São eles também que pedem que o acesso aos 25 quilômetros de areia, sem estrada definida, continue. O governo do Ceará agora investe na construção de um aeroporto em Cruz, a 64 quilômetros. Mas, pelo que vi, ninguém em Jeri tem pressa. “É bom que seja difícil chegar, aí não vem coisa ruim”, diz seu Zé Patinha.

Uma compensação às dificuldades de acesso são as pousadas locais. Jeri ganhou, em 2010, o hotel Chili Beach (Rua da Matriz, 88/3669-2278, www.chilibeach.com; diárias desde R$ 840; Cc: A, D, M, V), o melhor da vila para o GUIA BRASIL. Ele tem piscina com borda infinita e vista para o mar da Malhada. Também dorme bem quem fica na Pousada Jeribá (Rua do Ibama, 88/3669 - 2206, www.jeriba.com.br; diárias desde R$ 330; Cc: D, M, V), de frente para o mar, com suas passarelas de madeira e seus jardins caprichados. Na pé-na-areia Casa de Areia (Rua Oceano Atlântico, 88/3669-2160, www.casadeareia.com; diárias desde R$ 250; Cc: M, V), o chão de areia é parte da decoração das salas de estar e de café.

De boa na lagoa

O campo magnético de Jeri também faz com que você se sinta um velho habitué da vila já no segundo dia. Reconhece rostos nas ruas, entende as marés, sabe a que hora sai a torta de banana de dona Angelita. Enquanto o sol brilha no céu, dá para lagartear nas espreguiçadeiras da Praia de Jeri, ao som da MPB (Caetano estava comigo quando ouvi Alegria, Alegria (“Caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento”) que toca nos bares e restaurantes da praia. Se quiser ainda mais tranquilidade, vá até a Malhada. Lá é preciso esticar a canga na areia, e o único som que se ouve é o do vento. Na maré baixa, a Malhada também é caminho para a Pedra Furada, o grande postal de Jeri. O trajeto de no máximo uma hora tem como cenário o visual arrebatador do Morro do Serrote. No caminho, pare para um banho no Buraco da Princesa, um poço de água cristalina com 1,70 metro de profundidade. A Pedra Furada, esculpida pelo mar e pelo vento, também pode ser visitada a cavalo, por cima do Serrote, com a vista de um dos pontos mais altos da região.

Melhores ainda são as lagoas Azul e do Paraíso, destinos de um dos passeios de bugue mais comuns de Jeri. Elas são partes de uma mesma lagoa, dividida nos meses mais secos. A água mantém sempre aquele tom verde-caribe. Lá é só deixar o dia rolar nas redes colocadas dentro d’água e nas mesinhas das barracas que servem futos do mar fescos. Um dos melhores locais para isso é o restaurante da Pousada do Paulo (88/3669-1181, www.pousadadopaulo.com.br; Cc: M, V), na Lagoa do Paraíso, que tem deques de madeira sobre a areia, caipirinhas caprichadas e um bolinho de peixe delicioso. O dono, Paulo Zocchia, é mais um dos fisgados pelo ímã de Jeri. O italiano chegou há 22 anos, “quando só havia quatro pousadas e dois restaurantes, que fechavam às 8 da noite”, e ficou de vez. Sua mulher, Fernanda, que é de Barretos (SP), acabou trazendo também as duas irmãs e os sobrinhos, e hoje cada um tem sua pousada. “Eu me acostumei com o Jeri way of life. Não troco por nenhum outro lugar do mundo”, diz.

Em outro passeio de bugue, desta vez rumo à Tatajuba, a oeste de Jeri, enchi os olhos com a paisagem. As dunas imponentes que engolem tudo, as lagoas que se formam entre elas na época das chuvas, o mangue, os jegues solitários, os carcarás. Com Chicabana (uma banda quero-ser-Chiclete-com-Banana) bombando no rádio do bugue, cheguei a uma casinha no meio do areial. Quem dá plantão ali é dona Delmira, cujo ofício é contar aos turistas, sempre com as mesmas palavras, como as dunas envolveram a velha Tatajuba, soterrada há quatro décadas. Depois a parada foi na Lagoa da Torta, que não é exatamente uma Lagoa do Paraíso, mas tem as mesmas redes de descanso dentro d’água e um restaurante com cardápio “vivo”. À mesa são levados peixes, lagostas e camarões recém-pescados para serem escolhidos.

Um programa legal em Jeri é alugar um quadriciclo (R$ 100 a hora). Um guia vai com o turista, mas em outro veículo. Fomos comer em Mangue Seco, uma vila próxima, onde o cardápio vivo é levado mais a sério: caranguejo, que, como se sabe, é sempre cozido vivo.

Seguindo a doce rotina da vila, no fim do dia há sempre o encontro marcado com a Duna do Pôr do Sol. Da vila não são mais que cinco minutos de caminhada. Mesmo que você esteja cansado, indisposto, contrariado, acaba sempre lá em cima. Na descida, uma capoeira animada na praia anuncia que a noite começa. Ao som dos berimbaus, os moradores começam a montar suas barraquinhas. A caipirinha é uma barbada: R$ 2,50. Se for de vodca, custa R$ 5.

Esse também é o momento de procurar um lugar para jantar, o que hoje em Jeri se faz muito bem em restaurantes que incrementaram (e como) o peixe e o camarão de cada dia. O chef José Apolinário de Souza confirma. Nativo, trocou Jeri por São Paulo, onde cozinhou no Fasano, no Leopolldo e no Hotel Meliá. Voltou em 2003 e desde 2010 cuida da cozinha da Pousada Jeribá. “Não arredo pé mais daqui”, diz. “A gastronomia de Jeri hoje é mais sofisticada, com ingredientes diferenciados.” Jeri já tem um restaurante estrelado no GUIA BRASIL, o Pimenta Verde (Rua São Francisco, 88/3669-2202; Cc: A, D, M, V), onde pedi um delicioso camarão com manga, leite de coco e curry, acompanhado de batatas crocantes. O curry funcionou bem para contrastar o gosto doce da manga. Para outras boas receitas, há o Tamarindo (Travessa Ismael, 88/9937-9057; Cc: A, D, M, V), com carnes e futos do mar, o Leonardo da Vinci (Rua Principal, 40, 88/3669-2222; Cc: D, M, V), com massas e risotos, e o Na Casa Dela (Rua Principal, 20, 88/9907-5511), de deliciosa comida nordestina. Depois, a dinâmica local sugere tirar um cochilo, porque, assim como em Caraíva e Itaúnas, o forró é que dita a noite. O dress code é o mesmo do dia: camiseta, saia, chinelo. Às 23h30, os tipos começam a chegar ao Bar do Chico. Como Gordon Pain, windsurfista canadense que vai a Jeri há oito anos, Lauro Alzogaray, uruguaio que viaja o Brasil com seu violão, Monica de Rezende, fisioterapeuta paulista em férias. Ficaram ali, bebendo “roskas” de maracujá e seriguela. O esquenta seguiu até o Forró da Dona Amélia começar. Em outros dias dá também para curtir reggae no Mamma Afica e samba no Planeta Jeri.

Não fosse o forró a coisa democrática e adorável que é, ele também poderia ser encarado como outro esquenta, mais longo, até a abertura da Padaria Santo Antônio (Rua São Francisco), que funciona das 2 às 6 horas – da madrugada. Seus pães com queijo coalho (ou os de banana e coco) são tão tradicionais quanto maravilhosos. Ao me despedir dos amigos do Bar do Chico, contemplei as estrelas amontoadas e esperei o sol nascer. Com a hora de voltar chegando, o coração apertou. Mais tarde, a duna novamente chamou, e não tive dúvida de que o ímã de Jeri é real e que mais cedo ou mais tarde me fará voltar.

A CHARMOSA

Praia da Pipa

Minha chegada à Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, não foi das mais auspiciosas. Chovia gatos e cachorros, como dizem os ingleses. Eu poderia inclusive ser acusada de ter parte no negócio, já que vinha de Natal e lá também a água não deu trégua. Era uma tarde de quinta perfeitamente comum, o que significa em Pipa, chuva incluída, uma tarde muito charmosa. Na Avenida principal, as vitrines coloridas colocaram um adjetivo na minha cabeça: graça. Parei logo para o almoço em um dos muitos endereços dali, o Espaço Gatos de Rua (Avenida Baía dos Golfinhos, 50, 84/3246-2575; Cc: A, D, M, V), restaurante e loja de artesanato. Os detalhes, como os lustres de contas coloridas, resumem bem a atmosfera de Pipa, de bom gosto desencanado. Diferentemente de outros lugares que cresceram de forma desordenada, Pipa preservou o jeitinho de vila, com suas ladeiras e seus becos charmosos.

Pipa é ao pé da letra uma única praia, hoje mais famosa que o próprio município que a compreende, Tibau do Sul. E Tibau tem lindas praias – de Cacimbinhas a Sibaúma -, das quais a do Madeiro e a do Amor são as mais bonitas. Dois rios desembocam nesse litoral, e as falésias são dignas de Canoa Quebrada. Há ainda áreas preservadas de Mata Atlântica e dunas de areia branquinha. Para curtir esse trecho, de cerca de 20 quilômetros, ainda não inventaram nada melhor que o passeio de bugue. Há percursos de três a oito horas (de R$ 220 a R$ 450 para até quatro pessoas). A hospedagem também é compatível com o cenário. Na avenida principal, a entrada discreta quase esconde a enorme área de preservação e o sossego da Toca da Coruja (Avenida Baía dos Golfinhos, 464, 84/3246-2226, www.tocadacoruja.com.br; diárias desde R$ 580; Cc: A, D, M, V), quinta melhor pousada de praia do Brasil no Prêmio VT. As acomodações têm cama king-size e iluminação cuidadosa. No Sombra e Água Fresca (Praia do Amor, 84/3246-2258, www.sombraeaguafresca.com.br; diárias desde R$ 430; Cc: A, D, M, V), o it é a vista para a praia mais famosa da vila, a do Amor. O Floresta Spa, com sete piscinas e sala de massagens, vem na diária. Com um orçamento mais realista, considere a simples e familiar pousada Riva’s (Rua das Araras, 89, 84/3246-2111, www.pousadarivas.com.br; diárias desde R$ 179; Cc: D, H, M, V), que tem uma gostosa piscina. Para curtir o agito da vila, esqueça do carro: o trânsito na temporada lembra Botafogo em dia normal. Coloque o chinelo e caminhe – o encanto é garantido.

Não é difícil encontrar por lá alguns “encantados”. Caso do holandês Gabriel Fleijsman, chef que serviu no Pink Fleet, o navio de cruzeiros de Eike Batista. Ele tem em Pipa seu próprio restaurante, o X (Rua da Gameleira, 36, 84/9643-9322), de comida variada. A casa é batizada com a letra preferida do ex-patrão “para dar sorte”. No Cruzeiro do Pescador (Rua dos Concris, 1, 84/3246- 2026), futos do mar fesquinhos vão à mesa em ambiente romântico à luz de velas e ao som de jazz. E no Pacífico (Rua dos Bem-Te-Vis, 19, 84/9982-8981), o melhor da vila, as mesinhas na calçada convidam para um bom vinho. Em Pipa, moradores e turistas, brasileiros e gringos, se misturam sem afetação e formam uma praia de estilo próprio e clima apaixonante. Mesmo com chuva.

A ECOLÓGICA

Praia do Forte

No que um dia foi uma vila de pescadores pertinho de Salvador, tartarugas recém nascidas saem correndo para cumprir seu destino no marzão em frente. Elas são protegidas pela base do Projeto Tamar (71/3676-1045; R$ 15). Baleias-jubarte também fequentam a região, assim como centenas, milhares de pessoas hospedadas naquela costa. Se não der para cacifar os resortões Iberostar ou Tivoli, vá de Sobrado da Vila (www.sobradodavila.com.br; diárias desde R$ 399).

A VERSÁTIL

Bombinhas

Bombinhas não tem resorts badalados, restaurantes estrelados nem paradores com sofazões brancos na areia. Todas as fichas estão nas águas tranquilas de suas praias centrais, no litoral super-recortado, no mergulho (ou buceo, quando o local era exclusivo dos argentinos), no jeito de colônia de férias das antigas. Bombinhas é a Baldinho Beach, de águas calmas cheia de crianças (e seus pais). Mas é também uma península, com 19 praias muito diferentes. Quatro ilhas, por exemplo, é de tombo, fequentada por surfistas; Ponta Grande, bem mais ao sul, exige uma longa caminhada que passa por várias outras praias. Mariscal tem pousadas charmosas, na medida para os casais. Por toda a região, há ainda certa preocupação ecológica. Pousadas como a Dom Capudi (47/3369-2984, diárias desde R$ 324) armazenam água de chuva e fazem compostagem de lixo, entre outras ações. Por fim, Bombinhas ainda tem um dos melhores pontos para mergulho no país, a Ilha do Arvoredo, com visibilidade que chega a 15 metros de profundidade.

A BADALADA

Jurerê

Quando ainda não é verão, os casarões sem muro e com belos gramados costumam ter pouco ou nenhum movimento. E na Avenida dos Búzios, a principal dessa praia de Floripa, Mercedes só os micro-ônibus. Mas, como em um passe de mágica, tudo muda quando começa a temporada. Os paradores e suas chaises já não vencem de tanta gente com flûtes de champanhe e óculos escuros de grife. Na Búzios, Mercedes, Ferraris e Astons Martins competem pela atração do passante – normalmente outro proprietário de um carro de valor de IPVA pornográfico. Mas a Jurerê que interessa está na areia, cerca de 4 quilômetros de faixa extensa, com direito a outras prainhas escondidas no canto leste (a área de Canajurê). Está também na água, um gentil e, nesta época, morno Atlântico. E, se a sua for mesmo ferveção, o clima nos paradores de dia varam pela noite nos beach clubs, como o Parador 12 (48/3284 8156) e o Café de la Musique (48/3282-1325). Para comer mais barato, estique à vizinha Praia do Forte, no canto esquerdo de Jurerê.

A MAGNÍFICA

Sancho

Não é para qualquer um. Para chegar à Baía do Sancho, a mais bela praia de Fernando de Noronha (e do Brasil, segundo os leitores da VT), você precisa, como numa conquista, saber se aproximar. Pode ser de barco, de onde dá para mergulhar e atingir a branquíssima faixa de areia. Mas pode ser por terra se você encarar os mais de 30 degraus de ferro cravados na fenda de uma pedra. Superada essa fase, a bela será toda sua.

A CINCO-ESTRELAS

Espelho

Se alguém lhe disser que a Praia do Espelho fica em Porto Seguro, creia, é verdade, ainda que nada possa ser mais anti-Passarela do Álcool. Entre Trancoso e Caraíva, tem falésias de onde se veem o verde dos coquerais, a faixa de areia branca e o espelho cristalino que é o mar ali. É por isso uma das raras praias cinco-estrelas do GUIA BRASIL. No verão, endinheirados chegam de helicóptero, mas releve em pousadas de megacharme, como a Bendito Seja (73/3668-5031; diárias desde R$ 865).

A CRISTALINA

Maragogi

Aqui Alagoas já é quase Pernambuco e a chamada Costa dos Corais está no seu melhor. A 140 quilômetros de Maceió, Maragogi guarda as Galés, como são chamadas ali as extensas piscinas naturais formadas pelo arrecife 6 quilômetros mar afora. Mesmo tão longe, o lugar chega a juntar 600 turistas sem muito esforço. Para fugir da muvuca, opte pelas piscinas de Taocas, Barra Grande e Barreira de Peroba. As praias de Maragogi são tudo aquilo mesmo que você ouviu: areia fina e coqueiros a perder de vista. Deixe a principal, onde está a maior parte dos hotéis e restaurantes, e conheça Burgalhau, a quatro quilômetros, ou Japaratinga, um pouco mais distante. A Praia de São Bento também vale a visita: se não tanto pelo visual, pelos deliciosos sequilhos (bolo de goma) produzidos por locais. Maragogi tem também resortões com jeito de Porto de Galinhas, como o all-inclusive Salinas do Maragogi (82/3296-3000, www.salinas.com.br; diárias desde R$ 980) e o Miramar (82/3296-3200, www.miramarmaragogiresort.com; diárias desde R$ 880), com a melhor piscina da cidade.