Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

Edição 121/Abril de 2010 24/08/2011

Doce água

Vai existir água suficiente em um mundo cada vez mais populoso?   

por Barbara Kingsolver

Jim Brandenburg

Água: tempestade no lago Tofte, na região norte de Minnesota

Jim Brandenburg

Uma tempestade de verão reabastece o lago Tofte, na região norte de Minnesota

Toda manhã, quando minha filha e eu percorremos o caminho desde a nossa casa de fazenda até a parada do ônibus escolar, ficamos com os olhos bem atentos para alguma maravilha. Quase sempre que topamos com uma, ela reflete a magia da água, como uma teia de aranha com gotas de orvalho formando um colar de cristais translúcidos. Ou uma garça cor de chuva alçando voo desde a beira do riacho. Em uma manhã assombrosa, o caminho foi invadido pelas rãs. Dezenas delas pulavam na relva diante de nós, lançando-se em arcos saltitantes com suas barrigas brancas - mais parecia que havíamos sido surpreendidas por uma tempestade de anfíbios. Em outra ocasião, cruzamos com uma tartaruga-mordedora, com sua primitiva carapaça cor de oliva. Normalmente, ela é uma criatura que se restringe às lagoas, mas algum impulso obscuro levou esse espécime até o nosso caminho de cascalho, usando a semana chuvosa como passaporte para deixar a nossa fazenda e passear.

Outro motivo de encanto permanente para nós é o riachinho sem nome que corre através do vale. Antes de mudarmos para o sul da região de Appalachia, vivemos por muitos anos no Arizona, onde um córrego permanente como esse merece tornar-se reserva natural. No Arizona, o estado do Grand Canyon, lembramos que a água é capaz de transformar a superfície da terra, rasgando o deserto rochoso como se fosse um pêssego, em fendas com 1,5 mil metros de profundidade. Ali as cidades funcionam como estações espaciais, obrigadas a trazer de remotos rios e aquíferos cada gota de água doce. Tão forte é a propensão humana a considerar a água como um direito de nascença que ainda são comuns fontes públicas borbulhantes nas praças das cidades do Arizona, assim como fazendeiros empenhados em cultivar safras sedentas. Porém, a verdade se insinua em todas essas fantasias quando os moradores do deserto passam meses esperando pela chuva, vendo os cactos apertarem os cintos e as aves papa-léguas disputarem as preciosas gotas que pingam de uma torneira de jardim. Sem água não há vida. Ela é o caldo salgado de onde surgimos, o sistema circulatório do mundo, uma franja molecular na qual podemos sobreviver. Até dois terços de nossos corpos são constituídos de água, tal como nos mapas-múndi; nossos fluidos vitais são salgados, tal como a água dos oceanos. Tal pai, tal filho.

Mesmo enquanto damos como líquida e certa a presença da Mãe Água, nós, seres humanos, sabemos que, no fundo, é ela quem manda. Estabelecemos nossas civilizações nos litorais e junto aos grandes rios. Nosso maior temor é a ameaça de escassez - ou excesso - de água. Nos últimos tempos aumentamos a temperatura média do planeta em 0,74°C, um número que parece insignificante. Mas a água é a face visível do clima e, portanto, das mudanças climáticas. A alteração nos padrões de precipitação provoca inundações em algumas regiões e secas em outras, enquanto a natureza nos demonstra uma importante lição da física: a de que o ar quente contém mais moléculas de água que o ar frio.

Bem longe do recanto encharcado em que vivo, o vale do Bajo Piura é uma imensa área recoberta pelas mais secas areias que já pisei. Estendendo-se desde a costa noroeste do Peru até o sul do Equador, o deserto de Piura, com 36 mil quilômetros quadrados, abriga muitas formas de vida espinhosas e endêmicas. Essa ecorregião costuma ser classificada como seca e muito seca, e a borda sul do Bajo Piura seria considerada por qualquer pessoa como o lugar mais seco de todos. Entre janeiro e março, ali caem apenas 2,5 centímetros de chuva, dependendo dos caprichos de El Niño, segundo explicou o meu motorista enquanto seguíamos pelo esburacado leito do rio Piura. Durante horas atravessamos campos esturricados, arruinados por anos de irrigação, e passamos por vales escaldantes cujas condições são intoleráveis para qualquer coisa além de uma algarobeira de raízes profundas, a Prosopis pallida, a árvore mais adaptável a terrenos áridos. E também, surpreendentemente, algumas famílias dispersas do Homo sapiens.

Eles são refugiados econômicos, em busca de terras que não custam nada. Isso não implica que a sobrevivência no Bajo Piura não tenha outros custos, pois o frágil ecossistema também paga um preço à medida que as pessoas ampliam a desertificação ao transformarem em lenha o que resta de vegetação. O que me leva ali, como jornalista, é um inovador projeto de reflorestamento. Conservacionistas peruanos, em parceria com uma organização não governamental, a Heifer International, estão convencendo os moradores a criar cabras e bodes, pois eles se alimentam das vagens ricas em proteínas das algarobeiras e depois dispersam as sementes pelo deserto. À sombra de um precário abrigo, uma jovem mãe coloca sua panela amassada sobre um fogo alimentado por excrementos secos e mostra como deixava coalhar o leite de cabra para fazer queijo. Mas é difícil encontrar tempo para tirar o leite das cabras, pois ela, tal como as outras mulheres que conhece, todos os dias precisa caminhar oito horas para buscar água.

Os maridos dessas mulheres estão cavando um poço ali perto. Trabalham com colheres de pedreiro, uma forma de compensado para revestir de cimento a parede do poço, avançando centímetro por centímetro, e usam uma robusta manivela improvisada para descer um homem até o fundo e de lá retirar baldes de areia. Uma dezena de homens esperançosos, com chapéus de palha sujos, afasta-se para que eu possa examinar o trabalho, que até então havia resultado apenas em um monte de areia completamente desprovido de umidade. Espio no fundo daquele buraco escuro e então me viro e subo no topo do monte de areia para esconder lágrimas pouco profissionais. Para mim era difícil compreender esse tipo de perseverança.

Eles ainda estão lá, escavando a areia ressequida e sobrevivendo a duras penas, como um microcosmo da vida neste planeta. Não há saída. Quarenta por cento dos lares na África subsaariana estão situados a mais de meia hora de uma fonte de água, e essa distância só aumenta. Os fazendeiros australianos não podem mais acompanhar a mudança nos padrões de precipitação, pois ela se deslocou para o sul e as chuvas caem sobre o oceano. Todos estamos na mesma situação, e ela requer o máximo de nós.

 

Comente