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Edição 78/Setembro de 2006 26/08/2011

Duelo selvagem

Uma dança fatal une leões e búfalos no delta do rio Okavango, em Botsuana

por Dereck Joubert

Beverly Joubert

Búfalos protegem companheiro caído de leoa

Beverly Joubert

Uma leoa recua diante de uma muralha de chifres aguçados quando a manada decide resgatar um touro ferido

Os leões preferem caçar à noite ou pelo menos nas horas mais frescas da aurora e do crepúsculo. Mas na planície de Duba, quando o calor do meio-dia atinge 50ºC, os leões estão só começando a agir.

Esse é um dos vários traços incomuns de um bando de leões que se relacionam com uma manada de búfalos africanos Syncerus caffer numa ilha no delta do rio Okavango. As nove leoas do bando Tsaro (nome local das tamareiras-do-senegal, sob as quais os animais costumam descansar) não tiram os olhos da manada, e atacam sem a menor preocupação de seguir o comportamento furtivo de sua espécie. A cada mês, os leões matam cerca de 22 membros da manada de mais de mil búfalos. Manchada com o sangue de uma refeição, esta leoa faz uma pausa para certificar-se de que não sofrerá um contra-ataque. Os búfalos são presas passivas, mas, surpreendentemente, a manada de Duba aprendeu a unir-se contra os leões. Eles reagiram à agressão em mais de três quartos dos ataques que observamos ao longo de dois anos, às vezes ferindo de maneira letal as leoas.

Os búfalos são capazes de sair da ilha, em especial durante a estação seca, quando os rios ficam rasos e podem ser atravessados. Mas preferem ficar por ali, adotando a seguinte estratégia: é melhor lidar com o inimigo a que se está acostumado.

O bando de leões começa a caçar com aparente indiferença, buscando as vítimas mais fáceis à medida que o pânico toma conta da manada. Em seguida arremetem com vigor, e a manada foge. Às vezes parece que os leões têm domínio da situação, derrubando e matando um búfalo em apenas cinco minutos. Outras vezes, porém, o confronto se prolonga por até sete horas – uma complexa dança em que os felinos buscam os pontos fracos dos búfalos, que reagem com patadas e golpes de chifres. Os leões atuam em equipe, atentos ao menor erro de suas presas.

É preciso força fenomenal para arremeter pela água. As leoas do bando Tsaro adquirem músculos de halterofilista em sua perseguição aos búfalos, suas únicas presas, através de áreas pantanosas. Em geral os leões não apreciam a água, mas em Duba eles se adaptaram. Dois outros bandos, cada qual com um estilo de caça, dividem o território, de 200 quilômetros quadrados, que se reduz pela metade na época das chuvas. Mas não mantêm laços tão fortes com a manada como as leoas Tsaro, que dormem sob a vista dos búfalos sem causar alarme.

Com rugidos que deixam clara sua relutância em cruzar um rio repleto de crocodilos, um bando, conhecido na região como “da Despensa”, exibe suas cicatrizes. Antes tão numerosos quanto o bando Tsaro, eles dominavam a porção leste de Duba. Uma leoa abateu um búfalo depois de se agarrar ao seu pescoço por quase uma hora, mesmo sendo atacada e atingida por outro touro. Um após outro, os animais deste bando foram mortos pelos búfalos; só restam dois. Para as ousadas leoas de Duba, cada encontro com a manada pode ser o último.