Herói sem precedentes
Por que um humilde apicultor da Nova Zelândia era o homem certo para estar no topo do Everest
Michael Klesius
Michael Klesius
Edmund Hillary descansa após a descida do acampamento IV, a 6462 metros de altitude
Poucos dias depois de escalar o monte Everest com Tenzing Norgay, Ed Hillary recebeu a notícia de que a rainha Elizabeth II pretendia nomeá-lo sir Edmund. Ficou pasmo. “Achei complicado”, relembra ele. “Eu não me julgava o tipo ideal de pessoa para ter um título.” Para começar, ele não conseguia imaginar-se andando com suas velhas roupas de trabalho por sua cidade natal, Papakura, na Nova Zelândia, como um cavaleiro comandante da Ordem do Império Britânico. “Meu Deus”, ele lembra ter pensado, “vou ter de comprar um macacão novo!”
Ali estava um novo tipo de herói, um apicultor alto e esguio dos confins do império. Sendo um dos dois “kiwis” (apelido dos neozelandeses) da expedição de 1953 – seu colega George Lowe era o outro –, talvez lhe faltasse o traquejo social de seus oito companheiros de escalada ingleses. Mas isso era compensado por sua força e tenacidade. Tendo aprendido a escalar nos Alpes do Sul neozelandeses, no inverno (fora da época de apicultura), Hillary mostrava a mesma ousadia na neve que qualquer outro membro da equipe. E ele e Tenzing chegaram ao topo.
O irmão mais novo de Hillary, Rex, seu parceiro na apicultura, foi a seu encontro em Londres para a cerimônia na qual Hillary, Tenzing e o coronel John Hunt, o líder da expedição, seriam condecorados. Seguiu-se uma festa ao ar livre no Palácio de Buckingham debaixo de chuva, com os 7,5 mil convidados em vestidos de verão e fraques se apinhando sob os guarda-chuvas.
“O pessoal do palácio nos conduziu para uma sala”, recorda Rex. “Provavelmente eram lordes, ladies e sei lá o que mais. E então a rainha entrou. Ela era muito jovem e bonita naquela época.” Ed ajoelhou-se em um tamborete, Elizabeth tocou de leve seus ombros com uma pequena espada e proclamou: “Levante-se, sir Edmund”. Durante as semanas que passou na Grã-Bretanha brindando com champanhe, Hillary foi apresentado à sua primeira ressaca.
Animado pelo calor da fama, ele fez uma escala em Sydney no caminho de volta a Auckland para cortejar sua futura esposa, Louise Rose, que estava estudando no Conservatório de Música de Sydney. “Mas eu não tinha o mínimo jeito com as mulheres”, admite ele. “Ficava apavorado só de pensar em pedir a mão dela. Por sorte, minha futura sogra era uma mulher muito decidida e não hesitou em falar com Louise por mim.” E assim o conquistador do Everest ficou num canto enquanto a mãe de Louise transmitia a proposta à filha por telefone, de sua casa, em Auckland.
Nos anos seguintes Hillary chefiou expedições de estreantes na escalada de vários picos do Himalaia, incluindo o Baruntse (7 168 metros), o Chago (6 893 metros) e o Pethangtse (6 738 metros), dirigiu tratores agrícolas adaptados no pólo Sul, auxiliando um grupo de cientistas britânicos a cruzar a Antártica, saiu em busca do mítico Yéti no Nepal e escreveu livros sobre suas aventuras. Desistindo da apicultura, assinou um contrato para ser consultor de camping da Sears em 1963, testando novos modelos de barraca durante as férias com Louise e seus três filhos, Peter, Sarah e a caçula, Belinda.
Mas uma catástrofe aconteceu em 1975: o pequeno avião que levava Louise e Belinda caiu e se incendiou depois da decolagem em Katmandu. As duas estavam indo ao encontro de sir Edmund na aldeia de Phaphlu, onde ele e Rex estavam construindo um hospital com sherpas e voluntários da área. “Ed ficou arrasado”, conta Rex. Ele precisou de muitos anos para recuperar-se, mas encontrou algum consolo no trabalho braçal que fazia em seus projetos de ajuda na região do Everest.
Esses projetos nasceram da afeição de Hillary por esse povo montanhês. “Ed é o tipo de pessoa que, se lhe pedem para fazer alguma coisa e ele não vê motivo para não fazer, vai em frente e faz”, comenta Jim Wilson, um velho amigo da Nova Zelândia. Para auxiliar a financiar esse programa privado de ajuda, Hillary e vários amigos criaram o Himalayan Trust, um fundo que existe até hoje.
