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Edição 125/Agosto de 2010 02/12/2011

Em águas secretas  

O estudo das cavernas submersas das Bahamas pode lançar luz até sobre a vida em outros planetas

por Andrew Todhunter Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Penetramos no Stargate, ou Portal Estelar, nome curioso do buraco azul, vasculhando o vazio com nossas luzes de mergulho. A 15 metros da superfície surge uma névoa esbranquiçada, a camada de sulfeto de hidrogênio, um gás tóxico criado por colônias de bactérias e material orgânico em decomposição. Os mergulhadores, ao penetrar nesse gás, experimentam coceiras, formigamento ou tontura. Alguns sentem cheiro de ovo podre quando o gás é metabolizado nos pulmões. Sou tomado por uma onda de náusea durante a descida. Olho para o meu guia, Brian Kakuk, experiente mergulhador de cavernas. Ele parece imperturbado. Minha cabeça começa a latejar.

As grandes cavidades submersas situadas ao largo dos continentes, chamadas de buracos azuis oceânicos, são extensões do mar e estão sujeitas às mesmas fortes marés que regem as águas em volta, além de abrigar muitas das mesmas espécies. Os buracos azuis terrestres, porém, são diferentes de qualquer outro ambiente na Terra, em parte graças a sua geologia e à composição química de suas águas. Nessas cavernas, tais como o Portal Estelar na ilha Andros, o reduzido fluxo das marés resulta em uma estratificação das camadas químicas na massa líquida. Uma lâmina fina de água doce - suprida pela chuva - jaz acima de uma densa camada de água salgada. A lâmina doce age como tampa, isolando a água salgada do oxigênio atmosférico e impedindo as bactérias de provocar a decomposição da matéria orgânica. As bactérias logo abaixo da água doce sobrevivem transformando sulfato (um dos sais comuns na água) em energia e gerando como subproduto o sulfeto de hidrogênio. Conhecido como gás de esgoto ou de pântano, esse sulfeto, em altas doses, pode causar delírios e morte.

Verdadeiros laboratórios vivos, os buracos azuis terrestres são o equivalente científico da tumba de Tutankhamon: um reduto de informações valiosas sobre o passado. Da perspectiva de um mergulhador, pode-se compará-los ao Everest ou ao K2, por exigir treinamento especializado, equipamento e experiência. Os mergulhadores de cavernas trabalham sob tremenda pressão do tempo. Se algo dá errado e eles não conseguem voltar à superfície antes que acabe o ar de seus cilindros, estão perdidos.

Em 2009, uma equipe de exploradores e estudiosos passou dois meses investigando esses ambientes em Andros, Abaco e cinco outras ilhas das Bahamas. Financiada pela National Geographic Society, em colaboração com o Museu Nacional das Bahamas, a Expedição aos Buracos Azuis das Bahamas foi encabeçada por Keith Tinker e concebida por Keny Broad, antropólogo e espeleólogo ligado à Universidade de Miami.

Bahamas: mergulhador passa por cuidado em caverna marinha

Wes C. Skiles

Sob a liderança de Broad, com Brian Kakuk na área de segurança e Wes Skiles a cargo das filmagens e fotos, a equipe realizou cerca de 150 mergulhos em 25 buracos azuis. Eles coletaram dados que prometem aprofundar nosso conhecimento de áreas que vão de geologia e química das águas a biologia, paleontologia, arqueologia e astrobiologia - o estudo da vida no universo.

Diante da atual taxa de elevação no nível do mar (talvez 1 metro ao longo do próximo século), muitas cavernas terrestres serão inundadas de água salgada em questão de décadas, desintegrando sua delicada química e destruindo as condições que as tornam tão valiosas para a ciência. Além disso, os buracos azuis são muitas vezes usados como depósito de lixo. A invisibilidade do mundo subterrâneo coloca-o à margem na lista das prioridades conservacionistas.

Por instinto, associamos a vida ao oxigênio, mas seres viventes existiram na Terra durante mais de 1 bilhão de anos sob absoluta falta desse gás. Ironicamente, o revolucionário oxigênio veio ao mundo por causa do surgimento de bactérias que o descartavam como dejeto. A astrobióloga Jenn Macalady estuda a composição química da água nos buracos azuis das Bahamas para entender as condições bem similares às dos mais antigos ambientes desprovidos de oxigênio que deram sustentação às formas de vida.

Jenn tem especial interesse no período que vai de 4 bilhões de anos atrás - quando a vida surgiu pela primeira vez na Terra - até mais ou menos há 2,5 bilhões de anos. Ao investigar as bactérias que prosperam nas águas anóxicas (sem oxigênio) dos buracos azuis, ela levanta hipóteses sobre o que pode existir nos ambientes com água líquida, mas carentes de oxigênio, em planetas e luas distantes. "O universo é composto dos mesmos elementos", afirma Jenn, "e os planetas habitáveis partilham características semelhantes, tais como temperaturas condizentes com a vida e presença de água." Muitos astrobiólogos acreditam que tais condições podem ocorrer em bolsões de água líquida sob a superfície de Marte ou em um mar debaixo da crosta congelada de Europa, uma das luas de Júpiter.