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Edição 135/Junho de 2011 02/12/2011

Audácia. Desafio. Liberdade.   

No Yosemite, uma nova geração de superescaladores se recusa a aceitar limites

por Mark Jenkins Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Em uma luminosa manhã de um sábado de setembro, um jovem está grudado na face do Half Dome, um paredão de granito de 650 metros a prumo no coração do vale do Yosemite. Sozinho, tão distante do chão, talvez só as águias reparem nele.

Agarrado pela ponta dos dedos a uma fenda estreita como uma moeda, Eminem bombando no iPod, Alex Honnold está tentando algo que ninguém jamais ousou: escalar sem corda a via Regular da face noroeste do Half Dome. A 30 metros do topo, algo potencialmente desastroso lhe acontece: sua confiança sofre um leve abalo.

Por duas horas e 45 minutos, Honnold manteve o foco, executando com perfeição centenas de movimentos atléticos, um após outro, sem hesitar. No esporte de escalada no estilo livre solo, em que se sobe munido apenas de um saco de magnésio e sapatilhas especiais - sem corda, sem equipamento, nada que mantenha o escalador na parede a não ser convicção e habilidade -, a dúvida é um perigo. Se a ponta dos dedos de Honnold não conseguir segurá-lo, ou até se apenas acreditar que não conseguirá, ele despencará para a morte. Agora, com a magia desfeita pela fadiga mental e pela lâmina polida como vidro que o espera, Honnold fica paralisado. "Meu pé não vai se sustentar nisso", pensa ele, fitando uma saliência escorregadiça na rocha. "Pronto, me ferrei."

Dois dias antes, quando ascendera a essa mesma via com a ajuda de uma corda, Honnold não se sentira assim. A subida correra tão bem que ele teve certeza de que seria capaz de fazê-la em livre solo, apesar da lendária dificuldade na rota. Na primeira vez em que o Half Dome foi escalado, em 1957, o californiano Royal Robbins e seu grupo levaram cinco dias. Para chegar ao topo, 1 475 metros acima do fundo do vale, fincaram na rocha cerca de 100 pitons, finas cunhas de aço, nos quais prenderam cordas para a subida - um estilo conhecido como escalada artificial. Uma geração depois, em 1976, Art Higbee e Jim Erickson, do Colorado, escalaram o Half Dome quase totalmente no estilo livre: usaram apenas as mãos e os pés entalados nas fendas, e cordas só para amparar em caso de queda. Levaram 34 horas. Se Honnold escalar o Half Dome no estilo livre solo, a parada vai ficar bem mais alta.

Agora, agarrado ao granito, ele hesita: com suavidade, passa magnésio em uma mão, depois na outra, ajusta os pés com toda atenção em apoios quase invisíveis. E então, de repente, volta a mover-se, avança uma perna, esfrega a sapatilha na saliência escorregadia. O pé adere. Leva a mão a outro apoio, crispa os dedos na minúscula fissura. Dali a alguns minutos está no topo.

Escalada no Yosemite, nos Estados Unidos

Mikey Schaefer

"Reanimei-me porque não havia outra saída", me conta Honnold mais tarde, com uma risada de menino. "Avancei, confiei naquele apoio terrível, e me libertei da prisãozinha em que eu estivera em silêncio por cinco minutos."

A notícia de sua escalada improvável do Half Dome em duas horas e 50 minutos no estilo livre solo corre o mundo em um átimo. Pasma os escaladores, alvoroça os blogueiros. Assim, nesse cálido dia de outono de 2008, o rapaz vindo de um bairro rico da cidade californiana de Sacramento, com seu jeito de nerd, que ainda gosta de jogar palavras cruzadas com a mãe, estabelece um recorde na elite das elites dos escaladores.

Esta é a magia do Yosemite: forjar heróis. Não importa de onde venham, dos Alpes ou dos Andes, todos os escaladores que se prezam anseiam por uma peregrinação ao "vale" para medir forças com seus gigantes: El Capitan, uma tremeluzente proa de rocha tão imensa que faz os enormes pinheiros de 30 metros de altura em sua base parecerem miniaturas; Cathedral Rocks, uma fortaleza escura, eternamente nas sombras; e Half Dome, uma maçã de granito partida ao meio, com sua altiva face noroeste provocando os mais arrojados alpinistas do planeta. Escalar no Yosemite é um rito de passagem.