Audácia. Desafio. Liberdade.
No Yosemite, uma nova geração de superescaladores se recusa a aceitar limites
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Casa no ar, em Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
Jorgeson (à esquerda) e Caldwell podem viver por até duas semanas suspensos em um portaledge quando estão trabalhando em uma rota. Comodidades em sua casa no céu: cafeteira francesa e iPhones carregados com bateria solar.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Descanso em Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
jimmy Chin
O sol forte leva Tommy Caldwell, (à esquerda) e Kevin Jorgeson a fazer uma pausa na subida de uma nova rota em El Capitan.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Alcove Swing - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
No El Capitan, a corda de mais de 60 metros de comprimento conhecida como Alcove Swing [balanço da alocova] atrai escaladores e seus amigos em busca de uma nova forma de diversão impulsionada pela adrenalina - às vezes usando um skate na rampa para uma emoção a mais.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Profissionais de Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
"Mesmo quem está no auge da força pode não estar pronto para esses movimentos", diz Kevin Jorgeson, agarrado pela ponta dos dedos a apoios quase invisíveis em El Cap. Como muitos profissionais, ele treina duro.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Som das cataratas de Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
Kate Rutherford não consegue escutar nada quando está escalando tão perto do rugido das cataratas de Yosemite. Ela também não encontra muito em que se segurar. A água alisa a pedra "como vidro". Com fita nas mãos, ela precisa enfiá-as repetidamente em fissuras para conseguir subir. A vista espetacular compensa o desconforto. A rota de escalada de chama Freestone [pedra livre], Rutherford diz, porque "é um trajeto delicioso".
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Salto do Half Dome Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
Apesar de ser ilegal saltar do Half Dome, o base jumping é um esporte em alta no Yosemite. Os escaladores dizem que descer ao vale de paraquedas é mais rápido (e divertido) do que voltar a pé pelo outro lado da montanha.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Escalando Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
Mikey Schaefer
Sem cordas, Dan Potter escala a Glacier Point, no mais radical parque nacional dos Estados Unidos.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Andando na corda, em Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
"É como flutuar no espaço", diz Dean Potter, andando em uma corda sobre as cataratas do Yosemite. Rajadas de vento e névoa dificultam o equilíbrio na corda de 2,5 centímetros de espessura, instalada a 792 metros de altura sobre o vale, mas um cinto de segurança o protege.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Thank God Ledge - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
Este pedaço de granito de 12 metros em Half Dome [meio domo], chamado de Thank God Ledge [protuberância graças a Deus], é a única maneira de ir além do Visor, um telhado enorme que se avulta por cima da rota Regular Northwest Face [face noroeste regular]. A maior parte das pessoas se arrasta, diz Alex Honnold, mas ele prefere caminhar, de cabeça erguida, porque é mais "bacana". Os 30 segundos que leva para chegar ao outro lado não exige nenhuma habilidade técnica de escalada, mas até mesmo Honnold reconhece que é fantástico olhar para 550 metros de ar.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Ziguezague no Half Dome - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
Alex Honnold dá conta do terceiro ziguezague do Half Dome [meio domo] sem corda. Ele só tem mais um trecho difícil nos últimos três para chegar ao topo.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Escaladora de Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
"Estamos tramando e sonhando", diz a veterana escaladora de pedras de Yosemite Kate Rutherford (de vermelho), que passa muito tempo com os amigos na campina El Capitan, examinando guias para encontrar desafios futuros. Com binóculo na mão, Libby Sauter vigia amigos em El Cap enquanto o mau tempo vai se aproximando.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Campo 4 - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
Lá embaixo, no vale, escaladores convivem no lendário Campo 4, que inclui o alojamento dos funcionários de resgate.
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Treinamento antes de Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
É necessário treinar para adquirir força nos dedos e uma montanha de determinação para se agarrar aos apoios minúsculos ao longo desta extensão praticamente lisa de El Cap. Apesar de Kevin Jorgeson ter passado três anos escalando partes do trajeto, ele ficou impressionado com esta foto: "Não tem quase nada de mim tocando o paredão".
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Half Dome - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
Apesar do evidente risco, este ponto na rota regular da face noroeste do Half Dome permite uma benvinda pausa a Alex Honnold, que aos 23 anos virou superstar quando escalou a famosa via sem corda.
-
Edição 135 – Quartos com vista - Ponte do Brooklyn - Fotos Câmara escura de Abelardo Morell
Abelardo Morell
Uma vista da ponte do Brooklyn adquire textura áspera quando Morell projeta a imagem sobre o telhado recoberto de piche. Para explorar atmosferas e texturas, ele transformou em câmara escura uma tenda sem piso. A luz que entra por uma abertura similar a um periscópio compõe uma imagem no solo, proporcionando o que Morell chama de "aparência antiquada".
-
Edição 135 – Audácia. Desafio. Liberdade - Pendurado em Yosemite - Fotos Aventura no Yosemite
Jimmy Chin
Pendurado pela mão cheia de magnésio para melhor aderência, Cedar Wright ignora a dor e transpõe o teto do Gravity Ceiling, uma rota na Higher Cathedral Rock. "Estava dando tudo e mais alguma coisa", diz ele, "mas ainda acho que foi tranquilo."
Vídeo: Andando na corda bamba
Vídeo: Fotografando os escaladores
deserto encantado
Os incas no topo do mundo
Em uma luminosa manhã de um sábado de setembro, um jovem está grudado na face do Half Dome, um paredão de granito de 650 metros a prumo no coração do vale do Yosemite. Sozinho, tão distante do chão, talvez só as águias reparem nele.
Agarrado pela ponta dos dedos a uma fenda estreita como uma moeda, Eminem bombando no iPod, Alex Honnold está tentando algo que ninguém jamais ousou: escalar sem corda a via Regular da face noroeste do Half Dome. A 30 metros do topo, algo potencialmente desastroso lhe acontece: sua confiança sofre um leve abalo.
Por duas horas e 45 minutos, Honnold manteve o foco, executando com perfeição centenas de movimentos atléticos, um após outro, sem hesitar. No esporte de escalada no estilo livre solo, em que se sobe munido apenas de um saco de magnésio e sapatilhas especiais - sem corda, sem equipamento, nada que mantenha o escalador na parede a não ser convicção e habilidade -, a dúvida é um perigo. Se a ponta dos dedos de Honnold não conseguir segurá-lo, ou até se apenas acreditar que não conseguirá, ele despencará para a morte. Agora, com a magia desfeita pela fadiga mental e pela lâmina polida como vidro que o espera, Honnold fica paralisado. "Meu pé não vai se sustentar nisso", pensa ele, fitando uma saliência escorregadiça na rocha. "Pronto, me ferrei."
Dois dias antes, quando ascendera a essa mesma via com a ajuda de uma corda, Honnold não se sentira assim. A subida correra tão bem que ele teve certeza de que seria capaz de fazê-la em livre solo, apesar da lendária dificuldade na rota. Na primeira vez em que o Half Dome foi escalado, em 1957, o californiano Royal Robbins e seu grupo levaram cinco dias. Para chegar ao topo, 1 475 metros acima do fundo do vale, fincaram na rocha cerca de 100 pitons, finas cunhas de aço, nos quais prenderam cordas para a subida - um estilo conhecido como escalada artificial. Uma geração depois, em 1976, Art Higbee e Jim Erickson, do Colorado, escalaram o Half Dome quase totalmente no estilo livre: usaram apenas as mãos e os pés entalados nas fendas, e cordas só para amparar em caso de queda. Levaram 34 horas. Se Honnold escalar o Half Dome no estilo livre solo, a parada vai ficar bem mais alta.
Agora, agarrado ao granito, ele hesita: com suavidade, passa magnésio em uma mão, depois na outra, ajusta os pés com toda atenção em apoios quase invisíveis. E então, de repente, volta a mover-se, avança uma perna, esfrega a sapatilha na saliência escorregadia. O pé adere. Leva a mão a outro apoio, crispa os dedos na minúscula fissura. Dali a alguns minutos está no topo.
Mikey Schaefer
"Reanimei-me porque não havia outra saída", me conta Honnold mais tarde, com uma risada de menino. "Avancei, confiei naquele apoio terrível, e me libertei da prisãozinha em que eu estivera em silêncio por cinco minutos."
A notícia de sua escalada improvável do Half Dome em duas horas e 50 minutos no estilo livre solo corre o mundo em um átimo. Pasma os escaladores, alvoroça os blogueiros. Assim, nesse cálido dia de outono de 2008, o rapaz vindo de um bairro rico da cidade californiana de Sacramento, com seu jeito de nerd, que ainda gosta de jogar palavras cruzadas com a mãe, estabelece um recorde na elite das elites dos escaladores.
Esta é a magia do Yosemite: forjar heróis. Não importa de onde venham, dos Alpes ou dos Andes, todos os escaladores que se prezam anseiam por uma peregrinação ao "vale" para medir forças com seus gigantes: El Capitan, uma tremeluzente proa de rocha tão imensa que faz os enormes pinheiros de 30 metros de altura em sua base parecerem miniaturas; Cathedral Rocks, uma fortaleza escura, eternamente nas sombras; e Half Dome, uma maçã de granito partida ao meio, com sua altiva face noroeste provocando os mais arrojados alpinistas do planeta. Escalar no Yosemite é um rito de passagem.
