Edição 177/ Julho de 2010 13/09/2011

No meio do caminho tinha umas praias

Entre Fortaleza e Jeri, Flecheiras, Lagoinha e Icaraí brilham no Ceará com dunas, lagoas, calor, superpousadas e gente voando sobre as águas

por Leonardo Luz

Para muita gente, o litoral do Ceará resume-se à região de Fortaleza, à mítica Jericoacoara e à muvucada Canoa Quebrada. Mas é nos entretantos, como diriam os portugueses, que se esconde boa parte do melhor do estado. A 110 quilômetros de Fortaleza, na direção do "sol poente", como se diz lá, aparece Lagoinha, com o coqueiral fincado sobre a areia da praia em meia-lua, marcando o início de uma região que brilha ainda mais com Flecheiras, 30 quilômetros adiante, e, cruzando o Rio Mundaú e seguindo um pouco mais além, a surpreendente Icaraí de Amontada.

Flecheiras é um desses lugares a ser guardados. Ou, para soltar o coração, o cenário de um romance solar que se desenrola entre dunas e o mix de azul-turquesa e verde-esmeralda de um mar que se oferece sem pudor - abstraia os 4x4 que fazem da areia uma estrada. Com um povo acolhedor e praias que se estendem por 21 quilômetros, Flecheiras (ou, como algumas placas informam, Flexeiras) é um distrito de Trairi, lugar a que se chega por boa rodovia asfaltada, a CE-085, a famosa (no Ceará) Rodovia Estruturante, numa viagem de cerca de duas horas de carro desde Fortaleza. Flecheiras foi a praia escolhida para locação do programa global No Limite, aquele Big Brother com toques de sobrevivência na selva e Zeca Camargo como Pedro Bial, exibido em 2009.

Mas a verdade é que nesse pedaço do Ceará só passa perrengue quem estiver mesmo muito a fim disso. Nos hotéis locais, como o superconfortável Orixás Art ou os simpáticos Solar das Flecheiras e Catavento, é o hóspede quem dita os limites. E é ele também quem dita o horário em que vai pular da cama e a quantidade de água de coco a ser consumida para repor as calorias perdidas no trajeto piscina-praia-restaurante-praia-piscina.

É um mundo na verdade anti-No Limite que se abre nos quartos desses hotéis. Mesmo os menos ostensivos, como o Solar das Flecheiras (que já se chamou Solar das Velas e, mais recentemente, Nootka), onde as diárias de R$ 150 não assustam ninguém, os apartamentos são montados com TV de tela plana e ar-condicionado. São equipamentos que talvez tenham pouco uso, já que o mar, o vento e o bar com serviço de praia formam uma concorrência feroz. O conforto do Orixás Art, entretanto, é outra história. As suítes têm piscina própria, e muitas delas, dois dormitórios. O lugar pertence ao uruguaio Erich Steffen, só mais um dos estrangeiros a dominar os negócios por ali. Steffen, que se diz um dos pioneiros do Guarujá, nos anos 1970, buscava um lugar como o balneário paulista daquele tempo e encontrou Flecheiras. Seu hotel, inaugurado em 2003, tem orixás e várias figuras africanas pelos salões. Todos vêm do acervo particular do proprietário. É o único hotel cearense a fazer parte dos Roteiros de Charme - há outros 50 pelo Brasil, como a bonita pousada Estrela d’Água, em Trancoso (BA), e a Fazenda Capoava, em Itu (SP). A cozinha do Orixás é mais um trunfo. Com um cardápio que, já à entrada, tem de patinhas de caranguejo a crepe de camarão ou siri, é um lugar para passar bem. A guarnecer o capricho do chef, a simpatia dos garçons, que dão boas dicas do que comer dentre lagosta, peixe, camarão. Qualquer que seja o prato principal, finalize com um petit gâteau de goiabada com sorvete de nata. Tive o privilégio de ser o piloto de prova dessa maravilha. Abalou.

Flecheiras é um dos pontos do litoral cearense em que o vento faz a curva - e muitos outros movimentos -, o que atrai esportistas. Velejadores, gente do windsurfe e do kite batem cartão ali, especialmente europeus em suas férias de agosto. A multinacional dos esportes náuticos Planet Windsurfing tem uma sucursal cearense lá, no Solar das Flecheiras, e dali saem os instrutores que vão ao mar para aperfeiçoar aqueles que já são do ramo e iniciar os calouros. É preciso ter paciência, já que o domínio do equipamento só é alcançado depois de muito treino em solo firme. E é preciso praticar mesmo, pois, uma vez na água, a velocidade impressiona. Não estranhe, portanto, se, de sua espreguiçadeira, você vir um kitesurfista praticamente flutuar, com a pequena prancha presa aos pés, sobre o mar.

Se os ventos e seus acrobatas não valerem o couvert artístico, caminhe ou contrate um bugueiro para conhecer as praias vizinhas. Mundaú e Guajiru, esta última locação de uma tranquila vila de pescadores, são a extensão natural de Flecheiras, sem divisões visíveis. De bugue, o figura João Batista pode te levar à Praia de Guajiru. No caminho, você passa por um condomínio que foi inaugurado recentemente e mudou um pouco a cara da região, com suas casas de cerca de R$ 300 000. Alguns famosos têm seu quinhão ali, como o ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet. Em Guajiru, há também bons pousos, como o charmoso hotel Rede Beach Resort e Spa e seus apartamentos espaçosos com direito a cama com dossel e rede na varanda. Rodados mais 10 quilômetros, o Rio Trairi diz presente e, na maré cheia, sua foz de cerca de 50 metros de extensão força quem quiser atravessá-lo a subir numa jangada ou testar o braço. De acordo com o movimento da maré, professores de kite dão aulas ali. A parada para fotos é obrigatória e dá vontade de vestir todo aquele estranho aparato e sair voando sobre as ondas. A essa altura você já deve estar acostumado aos 4x4. Os parados ali são de meninos de Fortaleza, em bate e volta à região para praticar suas aulas.

Para o leste, o caminho também vale muito. Até chegar a Lagoinha, quilômetros de praia e dunas pintadas pelo verde da vegetação rasteira dominam a paisagem. No Mirante da Lagoinha, uma vista es-pe-ta-cu-lar do mar que bate numa falésia de tom avermelhado com aqueles coqueiros cravados nela é a recompensa. Se puder, procure evitar a praia nos fins de semana, quando Fortaleza chega em peso. As barracas grandes, algumas com redários pé na areia, costumam lotar, o que é o álibi perfeito para sair um pouco do saracoteio e ir ao restaurante de pescados FullXico, de um cozinheiro genuinamente cearense que faz questão de que você relate suas impressões sobre a comida, o ambiente e o atendimento nas páginas finais do cardápio. Como não há espaço para tanta opinião, o livro é sempre renovado. Ele vem em cadernos em brochura com capa dura de personagens e bichinhos que sua filhinha vai adorar.

De bugue, o retorno a Flecheiras é rápido pela chamada Trilha do Pôr do Sol. A parada no ponto mais alto da região, a Pedra das Índias, dá o toque histórico que faltava. Era dali que as índias avistavam os companheiros da tribo pitiguara pescando nas lagoas com flechas - donde o nome Flecheiras. Às vezes as índias avistavam inimigos, e aí era um tupã nos acuda. A Pedra tem uma linda vista panorâmica do lugar, dá vontade de ir ficando. Mas lembre-se de que um pôr do sol o espera em Flecheiras. Não é aquela comoção nacional do entardecer em cima da duna de Jericoacoara, mas é tão dourado quanto.

Flecheiras também não é Canoa Quebrada, mas, guardadas as proporções, a noite ferve na pracinha principal. Camiseta, bermuda e chinelos servem de traje a rigor, mesmo sendo o jantar num lugar de nome tão pomposo quanto o Il Pevero - Laboratório Gastronômico. O chef e proprietário, o italiano Umberto Salussoglia, garante que suas criações aguçam os cinco sentidos numa tacada só. Com toques de cozinha mediterrânea aqui, italiana ali, ele põe para circular coisas como ravióli de queijo de cabra e trufas. A noite fica sempre mais agitada em julho e agosto, com a chegada dos europeus. Agosto é também o mês em que tradicionalmente acontece o Festival das Algas, que neste ano vai para sua sexta edição. O gaúcho Ivanor Lincina, o popular Nonô, do Nonô Restaurante e Pizzaria, é um adepto de primeira hora do evento, que ajuda a movimentar a pequena economia local. Nonô usa o ingrediente em suas pizzas, como as de atum e margherita. E, talvez para afirmar sua fé na iguaria, resolveu colocá-la até na de chocolate, misturando o sabor da alga ao caldo de maracujá que joga sobre a massa. O entusiasmo pela alga só não é menor do que aquele que Nonô tem por Flecheiras, para onde foi meio por acaso em agosto de 2003, em férias, para voltar "de mala e cuia" apenas três meses depois. Já se sente nativo. "Tenho terreno para construir uma casa e paguei minha vaga no cemitério defronte à praia", diz. Parece conversa de minuano, mas essa história do cemitério não é metáfora. "Quero ser enterrado de pé para continuar olhando este mar nas horas em que a maré baixar", diz.

Para o leste, o caminho também vale muito. Até chegar a Lagoinha, quilômetros de praia e dunas pintadas pelo verde da vegetação rasteira dominam a paisagem. No Mirante da Lagoinha, uma vista es-pe-ta-cu-lar do mar que bate numa falésia de tom avermelhado com aqueles coqueiros cravados nela é a recompensa. Se puder, procure evitar a praia nos fins de semana, quando Fortaleza chega em peso. As barracas grandes, algumas com redários pé na areia, costumam lotar, o que é o álibi perfeito para sair um pouco do saracoteio e ir ao restaurante de pescados FullXico, de um cozinheiro genuinamente cearense que faz questão de que você relate suas impressões sobre a comida, o ambiente e o atendimento nas páginas finais do cardápio. Como não há espaço para tanta opinião, o livro é sempre renovado. Ele vem em cadernos em brochura com capa dura de personagens e bichinhos que sua filhinha vai adorar.

De bugue, o retorno a Flecheiras é rápido pela chamada Trilha do Pôr do Sol. A parada no ponto mais alto da região, a Pedra das Índias, dá o toque histórico que faltava. Era dali que as índias avistavam os companheiros da tribo pitiguara pescando nas lagoas com flechas - donde o nome Flecheiras. Às vezes as índias avistavam inimigos, e aí era um tupã nos acuda. A Pedra tem uma linda vista panorâmica do lugar, dá vontade de ir ficando. Mas lembre-se de que um pôr do sol o espera em Flecheiras. Não é aquela comoção nacional do entardecer em cima da duna de Jericoacoara, mas é tão dourado quanto.

Flecheiras também não é Canoa Quebrada, mas, guardadas as proporções, a noite ferve na pracinha principal. Camiseta, bermuda e chinelos servem de traje a rigor, mesmo sendo o jantar num lugar de nome tão pomposo quanto o Il Pevero - Laboratório Gastronômico. O chef e proprietário, o italiano Umberto Salussoglia, garante que suas criações aguçam os cinco sentidos numa tacada só. Com toques de cozinha mediterrânea aqui, italiana ali, ele põe para circular coisas como ravióli de queijo de cabra e trufas. A noite fica sempre mais agitada em julho e agosto, com a chegada dos europeus. Agosto é também o mês em que tradicionalmente acontece o Festival das Algas, que neste ano vai para sua sexta edição. O gaúcho Ivanor Lincina, o popular Nonô, do Nonô Restaurante e Pizzaria, é um adepto de primeira hora do evento, que ajuda a movimentar a pequena economia local. Nonô usa o ingrediente em suas pizzas, como as de atum e margherita. E, talvez para afirmar sua fé na iguaria, resolveu colocá-la até na de chocolate, misturando o sabor da alga ao caldo de maracujá que joga sobre a massa. O entusiasmo pela alga só não é menor do que aquele que Nonô tem por Flecheiras, para onde foi meio por acaso em agosto de 2003, em férias, para voltar "de mala e cuia" apenas três meses depois. Já se sente nativo. "Tenho terreno para construir uma casa e paguei minha vaga no cemitério defronte à praia", diz. Parece conversa de minuano, mas essa história do cemitério não é metáfora. "Quero ser enterrado de pé para continuar olhando este mar nas horas em que a maré baixar", diz.