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Edição 116/Novembro de 2009 02/12/2011

Selva de pedra

Perigos e riquezas de um labirinto de pedra em Madagáscar

por Neil Shea Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Stephen Alvarez

Madagáscar: sikafa-de-decken no meio da floresta de pedra

Stephen Alvarez

Uma cidade de torres de calcário no oeste de Madagáscar abriga o sikafa-de-decken

O lagarto move-se assustado na pedra fustigada pelos raios solares. Alguns passos rápidos. Em seguida, a imobilidade de uma criatura que se dá conta de estar sendo perseguida. Ao redor, agulhas e colunas denteadas erguem-se como as torres de uma catedral gótica, silenciosa e vazia. Desde as ravinas lá embaixo, um papagaio alça voo e lança um guincho agudo, rompendo o êxtase. O lagarto corre. Com um movimento rápido, Hery Rakotondravony estende o braço. Logo depois o jovem herpetólogo abre a mão.

"Acho que é uma espécie nova."

Estamos há poucos dias no Parque e Reserva Nacional Tsingy de Bemaraha, em Madagáscar, e essa é a segunda ou terceira ocasião em que ele diz a mesma coisa. Em uma ilha famosa pela biodiversidade (90% de suas espécies são endêmicas, proporção de nenhum outro lugar do planeta), os 1 550 quilômetros quadrados de área protegida constituem uma ilha dentro da ilha, espécie de biofortaleza agreste, inexplorada e quase impenetrável, devido à maciça formação de calcário - o tsingy - que atravessa o parque.

O grande bloco de rocha jurássica dissolveu-se irregularmente e tornou-se um labirinto de torres com bordas afiladas, cânions estreitos e cavernas úmidas que afastam humanos e fornecem refúgio para animais e plantas. Com freqüência, são catalogadas novas espécies isoladas no interior da floresta de pedra. Até animais de maior porte foram achados em épocas recentes, como um lêmure de pernas longas em 1990.

O biólogo Steven Goodman, que viveu e trabalhou em Madagáscar por duas décadas, descreve a região como um "refúgio no interior de um paraíso", um local em que ainda se pode praticar um tipo de biologia mais comum um século atrás - e onde uma caminhada pode colocar o pesquisador diante de criaturas jamais vistas. "Basta passar de um vale para outro para ver coisas diferentes", comenta Goodman. "As formações de tsingy em Madagáscar estão entre aqueles pontos do planeta que abrigam tesouros biológicos extraordinários."

Chegar lá é a parte difícil. Em março, quando acaba a estação das chuvas, pouco antes de as folhas começarem a cair e de o inverno secar os riachos, o fotógrafo Stephen Alvarez e eu atravessamos o parque, guiados por Rakotondravony. Essa é a sua quarta expedição pelo tsingy de Bemaraha - ele é um dos poucos cientistas que lá se aventuraram mais de uma vez.

Desembarcamos em Antananarivo, capital de Madagáscar, logo após o presidente ser derrubado por um golpe de Estado. Manifestações violentas ocorriam com intervalos de dias. O turismo, um dos pilares da economia local, quase se extinguiu. Saímos temerosos. Mas, avançando pelo interior, diminuem os sinais do golpe.

Levamos quase cinco dias para chegar ao tsingy. No terceiro, a estrada piora e vira um caminho de terra com sulcos profundos. Balsas nos transportam por rios avermelhados pelo solo lançado na corrente em consequência de desmatamentos erosivos mais acima. Os vilarejos se tornam menores, e os carros, escassos, ao mesmo tempo que a floresta se adensa.