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Edição 111/Junho de 2009 02/12/2011

Acabou a fartura

Aumento da população versus capacidade de produção no campo: uma crise de alimentos é iminente no mundo

por Joel K. Bourne, Jr. Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

John Stanmeyer

Egípcios buscam pão perto das pirâmides, em Gizé

John Stanmeyer

Inconformados com os preços dos alimentos, egípcios furiosos buscam pão subsidiado perto das pirâmides, em Gizé

É um dos atos mais naturais e simples, tanto quanto respirar ou caminhar ereto. Nós nos sentamos à mesa, pegamos um garfo e nos deliciamos com uma porção de comida saborosa, sem darmos atenção a todas as ramificações globais que se cruzam em nosso prato. Num jantar hoje, poderíamos comer carne da Argentina, acompanhada por vinho da África do Sul; o azeite vem da Sicília; a água mineral, da França; e o arroz, da Tailândia. A sociedade moderna nos poupou do fardo de cultivar, colher e preparar o pão de cada dia, em troca de apenas pagar por ele. Só quando os preços sobem é que nos damos conta disso. E as consequências de nossa falta de atenção são profundas.

No ano passado, o aumento no custo dos gêneros alimentícios foi um sinal de alerta ao planeta. Entre 2005 e meados de 2008, o preço do milho e do trigo triplicou, e o do arroz quintuplicou, desencadeando tumultos sociais e lançando na pobreza mais de 75 milhões de pessoas. Mas, ao contrário de outras ocasiões em que o aumento foi provocado por escassez temporária dos alimentos, dessa vez a carestia se deu em um ano de safra recorde de grãos. Agora, os preços elevados são o sintoma de um problema maior que afeta nossa rede mundial de produção de comida. Em resumo, durante grande parte da última década, o mundo consumiu mais do que foi capaz de produzir. Após anos de utilização de suas reservas, em 2007 os estoques reguladores ficaram reduzidos a apenas 61 dias de consumo global, o segundo nível mais baixo de que se tem notícia. "O aumento da produtividade agrícola é de apenas 1% a 2% ao ano", alertou, no auge da crise, Joachim von Braun, diretor-geral do Instituto Internacional de Pesquisas de Políticas Alimentares, em Washington, DC. "Isso é muito pouco para atender ao crescimento demográfico e ao aumento da demanda."

A subida nos preços é sinal de que a demanda está superando a oferta, ou seja, de que logo não vai haver comida para todo mundo. Essa inflação na agricultura prejudica com mais intensidade o grupo de 1 bilhão de pessoas mais pobres do planeta, pois elas gastam de 50% a 70% de sua renda só para comer. Mesmo após caírem com a implosão da economia mundial, os preços continuam perto de seus níveis máximos, assim como os problemas de estoques baixos, aumento demográfico e redução na taxa de crescimento da produção agrícola. E estima-se que as mudanças climáticas - com as épocas de cultivo mais quentes e a escassez de água cada vez maior - contribuam para reduzir as safras, fazendo surgir o espectro daquilo que cientistas estão chamando de "crise alimentar perene".

Então, qual é a solução para um mundo cada vez mais quente, populoso e faminto?

Essa é a questão que Von Braun e seus colegas do Grupo Consultivo sobre Pesquisa Agrícola Internacional estão em busca de responder. O grupo reúne centros de renome mundial cujos esforços ajudaram a mais do que dobrar o rendimento das safras de milho, arroz e trigo entre a década de 1950 e os anos 90. Todavia, com a população mundial avançando para os 9 bilhões de habitantes ainda neste século, será preciso repetir tal façanha, duplicando a atual produção de alimentos até 2030.

Em outras palavras, precisamos de nova revolução verde. E teremos de realizá-la em metade do tempo exigido pela anterior.

Desde que nossos antepessados abandonaram a caça e a coleta em favor do arado e do cultivo do solo há 12 mil anos, o aumento demográfico acompanha nossa capacidade de produzir alimentos. A cada avanço - domesticação de animais, métodos de irrigação, aumento no número de safras anuais - houve um salto correspondente na população humana. E, sempre que a oferta se estabilizou, o mesmo ocorreu com a quantidade de gente no planeta. No passado, autores árabes e chineses notaram tal vínculo entre a população e a produção de alimentos, mas foi só no fim do século 18 que um estudioso britânico explicou o mecanismo dessa relação.

O matemático Thomas Robert Malthus, que daria origem a expressões como "colapso malthusiano" ou "maldição malthusiana", era um clérigo de maneiras afáveis que, segundo seus críticos, não podia ter sido mais pessimista. A população humana, notou ele, cresce de maneira geométrica, dobrando a cada 25 anos se nada for feito, enquanto a produção agrícola aumenta de maneira aritmética - ou seja, bem mais devagar. Essa era, portanto, uma armadilha biológica da qual a humanidade não podia escapar.