Acabou a fartura
Aumento da população versus capacidade de produção no campo: uma crise de alimentos é iminente no mundo
John Stanmeyer
John Stanmeyer
Inconformados com os preços dos alimentos, egípcios furiosos buscam pão subsidiado perto das pirâmides, em Gizé
É um dos atos mais naturais e simples, tanto quanto respirar ou caminhar ereto. Nós nos sentamos à mesa, pegamos um garfo e nos deliciamos com uma porção de comida saborosa, sem darmos atenção a todas as ramificações globais que se cruzam em nosso prato. Num jantar hoje, poderíamos comer carne da Argentina, acompanhada por vinho da África do Sul; o azeite vem da Sicília; a água mineral, da França; e o arroz, da Tailândia. A sociedade moderna nos poupou do fardo de cultivar, colher e preparar o pão de cada dia, em troca de apenas pagar por ele. Só quando os preços sobem é que nos damos conta disso. E as consequências de nossa falta de atenção são profundas.
No ano passado, o aumento no custo dos gêneros alimentícios foi um sinal de alerta ao planeta. Entre 2005 e meados de 2008, o preço do milho e do trigo triplicou, e o do arroz quintuplicou, desencadeando tumultos sociais e lançando na pobreza mais de 75 milhões de pessoas. Mas, ao contrário de outras ocasiões em que o aumento foi provocado por escassez temporária dos alimentos, dessa vez a carestia se deu em um ano de safra recorde de grãos. Agora, os preços elevados são o sintoma de um problema maior que afeta nossa rede mundial de produção de comida. Em resumo, durante grande parte da última década, o mundo consumiu mais do que foi capaz de produzir. Após anos de utilização de suas reservas, em 2007 os estoques reguladores ficaram reduzidos a apenas 61 dias de consumo global, o segundo nível mais baixo de que se tem notícia. "O aumento da produtividade agrícola é de apenas 1% a 2% ao ano", alertou, no auge da crise, Joachim von Braun, diretor-geral do Instituto Internacional de Pesquisas de Políticas Alimentares, em Washington, DC. "Isso é muito pouco para atender ao crescimento demográfico e ao aumento da demanda."
A subida nos preços é sinal de que a demanda está superando a oferta, ou seja, de que logo não vai haver comida para todo mundo. Essa inflação na agricultura prejudica com mais intensidade o grupo de 1 bilhão de pessoas mais pobres do planeta, pois elas gastam de 50% a 70% de sua renda só para comer. Mesmo após caírem com a implosão da economia mundial, os preços continuam perto de seus níveis máximos, assim como os problemas de estoques baixos, aumento demográfico e redução na taxa de crescimento da produção agrícola. E estima-se que as mudanças climáticas - com as épocas de cultivo mais quentes e a escassez de água cada vez maior - contribuam para reduzir as safras, fazendo surgir o espectro daquilo que cientistas estão chamando de "crise alimentar perene".
Então, qual é a solução para um mundo cada vez mais quente, populoso e faminto?
Essa é a questão que Von Braun e seus colegas do Grupo Consultivo sobre Pesquisa Agrícola Internacional estão em busca de responder. O grupo reúne centros de renome mundial cujos esforços ajudaram a mais do que dobrar o rendimento das safras de milho, arroz e trigo entre a década de 1950 e os anos 90. Todavia, com a população mundial avançando para os 9 bilhões de habitantes ainda neste século, será preciso repetir tal façanha, duplicando a atual produção de alimentos até 2030.
Em outras palavras, precisamos de nova revolução verde. E teremos de realizá-la em metade do tempo exigido pela anterior.
Desde que nossos antepessados abandonaram a caça e a coleta em favor do arado e do cultivo do solo há 12 mil anos, o aumento demográfico acompanha nossa capacidade de produzir alimentos. A cada avanço - domesticação de animais, métodos de irrigação, aumento no número de safras anuais - houve um salto correspondente na população humana. E, sempre que a oferta se estabilizou, o mesmo ocorreu com a quantidade de gente no planeta. No passado, autores árabes e chineses notaram tal vínculo entre a população e a produção de alimentos, mas foi só no fim do século 18 que um estudioso britânico explicou o mecanismo dessa relação.
O matemático Thomas Robert Malthus, que daria origem a expressões como "colapso malthusiano" ou "maldição malthusiana", era um clérigo de maneiras afáveis que, segundo seus críticos, não podia ter sido mais pessimista. A população humana, notou ele, cresce de maneira geométrica, dobrando a cada 25 anos se nada for feito, enquanto a produção agrícola aumenta de maneira aritmética - ou seja, bem mais devagar. Essa era, portanto, uma armadilha biológica da qual a humanidade não podia escapar.
