DEZEMBRO DE 2011/ EDIÇÃO 194 18/01/2012

Destino de desejo

Fortaleza é a cidade que o votante no Prêmio VT mais quer conhecer no Brasil. As razões? Jangadas, caranguejo, megabarracas, claro, mas também restaurantes estrelados, hotéis de charme, a reurbanização da orla

por Mirela Mazzola Fonte: VIAGEM E TURISMO

A pergunta foi feita por um baiano e é sobre uma baiana, mas vai aqui com certa licença poética: “O que é que Fortaleza tem?” A capital do Ceará brilhou no Prêmio VT 2011/2012. Entre todas as cidades do Brasil, foi consagrada como aquela que o leitor mais gostaria de conhecer – o destino aspiracional, o destino de desejo número 1 do país. Mar, jangadas, dunas, vento, caranguejo, megabarracas, rendeiras, resorts e o Beach Park ali pertinho são mesmo uma combinação e tanto. E agora Fortaleza ainda parece querer ocupar um espaço no qual nunca havia sido uma... fortaleza: o da gastronomia.

É difícil imaginar alguém se decidir pela capital cearense exclusivamente em função de um determinado chef ou restaurante, mas é bom saber que a cidade vai ganhando suas grandes mesas. No GUIA BRASIL 2012, são quatro os restaurantes estrelados e diversos que mereceram deferência. Caso do novíssimo português Sobreiro, cujo chef – cearense – trabalhou por 12 anos no reverenciado Antiquarius, do Rio, e serve alguns dos mesmos pratos clássicos de lá, como um bacalhau à lagareira acima de qualquer suspeita e até um carioquíssimo filé à Oswaldo Aranha.

Há algo no ar, melhor dizendo, na água, que vem atraindo chefs para a capital cearense. O mineiro Lúcio Figueiredo bem que ficou tentado a abrir seu restaurante no Sudeste, mas acabou por içar velas na Varjota, o bairro gourmet de Fortaleza. Em seu estrelado Vojnilô, só o fresco, o peixe fresco, interessa. “Pensei mesmo em ir a São Paulo, mas não conseguiria trabalhar com matéria prima de qualidade. Aqui em Fortaleza tem abundância de peixe e futos do mar.” Vojnilô, a propósito, é uma maneira de dizer o nome Vicente em macedônio. Trata-se de uma homenagem de Lúcio a seu mentor, o dono do notável restaurante Guaramare, no Espírito Santo. No caso do espanhol Agustin Herrero, foi sua paixão por uma cearense (e depois pela boa vida junto à areia) que contou. Mesmo de uma família dona de restaurantes em Barcelona, foi em Fortaleza que ele abriu o contemporâneo L’Ô, estrelado neste ano pelo GUIA e onde é possível comer de pescada com banana-da-terra a carré de cordeiro ao molho de zaatar. “Nesta cidade encontro praticamente tudo de que preciso. Basta ir ao Mercado de São Sebastião, em Mucuripe, ou a algumas delicatessens. Tem até um azeite de Sevilha que um espanhol me traz”, diz.

Fortaleza é desejada, como mostrou o Prêmio VT, mas também consumida. Recebe mais gente a cada verão. De 830 mil na temporada de 2010 passou a 915 mil em 2011, segundo dados da secretaria estadual de Turismo. É o terceiro destino de praia mais popular da CVC, a maior operadora do Brasil, logo atrás da imbatível Porto Seguro e da surpreendente Maceió. Muita gente usa a cidade como base para bate e voltas a leste e a oeste, o que é mais uma maneirade multiplicar seus encantos. Há em Aquiraz e Cumbuco, só para citar duas cidades vizinhas, atrações do porte de um Beach Park, o melhor parque aquático do Brasil, e resorts de ponta, como o Vila Galé e o Dom Pedro Laguna.

A cidade também é protagonista da Copa de 2014 e da Copa das Confederações, um ano antes. O estádio Castelão recebe seis jogos em 2014, um deles do Brasil, e por isso Fortaleza está ganhando projetos de melhoria urbanística. O trecho da Avenida Beira-Mar que vai de Mucuripe até a Praia do Meireles deverá passar por revitalização a partir de janeiro, com alargamento da via, construção de estacionamentos e ciclovia e instalação de trilhos para a operação de um bonde elétrico. A orla de Fortaleza está longe de ser a mais bonita do Brasil, pouquíssima afeita a variaçõesde paisagem, recortes ou elevações, e as praias, com exceção da do Futuro, são impróprias. Mesmo assim, Mucuripe, Meireles e Iracema têm um borogodó - e um pôr do sol - só delas. No canto direito de Mucuripe, o Mercado de Peixe compõe com as jangadas no mar manso um cenário tão reconfortante quanto familiar. Bom que se diga que os jangadeiros não vão mais ao Rio, como em 1952, na epopeia de dois meses que virou o filme inacabado É Tudo Verdade, de Orson Welles, mas continuam trazendo do Atlântico muito peixe e futos do mar. Debaixo da sombra das árvores e dos espigões da Beira-Mar, os pescadores se reúnem para jogar conversa fora em meio a gaiolas de madeira usadas na pesca da lagosta. E lagosta é com eles: o Ceará é o principal produtor brasileiro. Então, já que tocamos no assunto, se quiser uma receita regional e sofisticada, toque para o restaurante Cantinho do Faustino, onde a lagosta é flambada com vinho de caju azedo e servida com arroz de castanha.