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Edição 127/Outubro de 2010 01/09/2011

Desolação no pântano

A mancha de petróleo sujou um dos deltas fluviais mais ricos do mundo

por Bruce Barcott

No ponto em que o mar encontra a terra no delta do rio Mississippi, a expressão “linha da costa” não é de muita serventia. Não há ali nenhuma linha, mas apenas os traços interrompidos das ilhas de barreira, uma dezena de praias estreitas e, mais adiante, um sistema poroso de baías abertas, canais, pântanos salgados ou salobros e charcos de água doce estendendo-se terra adentro por distâncias de 40 a 160 quilômetros.

Essa é a região das terras úmidas da Louisiana - 32 mil quilômetros quadrados de um dos ecossistemas mais produtivos da América do Norte. As tainhas são tão abundantes que literalmente saltam para os barcos dos pescadores. Um terço da produção americana de ostras e camarões vem das águas ao largo dessa costa, dos hábitats do estuário Barataria-Terrebonne, área ao sul e a oeste de Nova Orleans. Sem esses pântanos, limitados a oeste pelo rio Atchafalaya e a leste pelo rio Mississippi, tampouco há juncais ou vegetação para as aves migratórias e nidificadoras.

A terra, a fauna e as pessoas estão todas interligadas nessas terras úmidas”, comenta Gay Gomez, escritor e naturalista que cresceu no litoral da Louisiana. Um mês depois de começar a jorrar do poço, o óleo já estava lá. Ele não chegou em uma maré única e espessa, mas em fiapos dispersos que passaram pelas ilhas e seguiram boiando para o norte em correntes impelidas pela quente brisa sulina. O óleo ia mudando de forma de um lugar para o outro. Em uma baía, salpicou a água de toletes e coágulos pardacentos. Noutra, aglutinou-se em tapetes flutuantes do tamanho de piscinas pequenas. Às vezes era tão fino quanto o brilho de um arco-íris; em outras, tão espesso quanto melaço.

E, onde quer que encostasse, ali ficava. Em Devils Point, uma faixa de pântano de água salgada com 1 quilômetro de comprimento na baía Timbalier, o óleo aderiu ao capim e à folhagem do manguezal. Na baía Redfish, próximo à foz do Mississippi, ele pretejou a parte inferior dos caniços-de-água que se elevam a 3 metros de altura. Na ilha Queen Bess, na baía Barataria, uma das colônias de aves mais produtivas da América do Norte, espessas manchas levadas pelas marés avançaram até as praias e impregnaram as penas dos pelicanos-pardos. Quilômetros de barreiras flutuantes de contenção e absorção de pouco serviam para bloquear o avanço do óleo.

Na costa da Louisiana há séculos os moradores dependem dos alimentos produzidos na região. Qualquer restaurante de beira de estrada serve os tradicionais shrimp po’boys, sanduíches suculentos de pão francês com os típicos camarões fritos da baía Barataria. As crianças usam pescoço de galinha como isca para capturar siris-azuis. Aos domingos, amigos e parentes reúnem-se em torno de imensas panelas, onde são cozidos os lagostins e os siris locais.

Por isso, nos dias seguintes ao início do vazamento de óleo, um frenesi tomou conta da região. Mitch Jurisich e seu irmão mais novo, Frank, cultivam ostras em uma área de 5,7 mil hectares, no vilarejo de Empire. Em 4 de junho, os viveiros dos Jurisich estavam entre os últimos ainda abertos na baía Barataria. O óleo mantinha-se a uma distância de 10 quilômetros dali. “Pelo modo como está soprando, o vento vai continuar empurrando o óleo para a costa”, previu Mitch. Com o poço da BP lançando ao mar dezenas de milhares de barris de petróleo por dia, não havia como saber por quanto tempo - dias, meses ou anos - a área ficaria fechada.

Assim que chego aos viveiros de ostra, Jurisich lança ao mar dois coletores metálicos. “Aí vem elas!”, grita à medida que as correntes içam os coletores e o conteúdo deles é despejado em um tabuleiro onde as ostras serão selecionadas.

Como a maioria dos moradores locais, Jurisich odeia o petróleo, mas não o setor responsável por seu vazamento. “Os cultivadores de ostras e as companhias petrolíferas vêm trabalhando juntos no mesmo local há mais de meio século. Então, por que acabar com a exploração de gás e petróleo por causa desse vazamento?”, indaga. “Não, eu não gostaria disso. Apenas a maricultura não é capaz de sustentar a economia do estado.” Ele fita a extensão de água. “Isto é apenas um obstáculo temporário no caminho.” Havia um travo em sua voz, um tom de otimismo forçado. Como se o fato de pronunciar as palavras ajudasse a torná-las realidade.