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Edição 32/Dezembro de 2002 29/08/2011

Feitiço havaiano

Depois de perder a sua independência e a sua cultura, o povo havaiano está redescobrindo suas raízes quase perdidas

por Paul Theroux

Adriel Heisey

Visão aérea de uma das ilhas do Hawai'i

Adriel Heisey

Após anos décadas de domínio dos Estados Unidos, o pacífico reino do hawai'i começa a recuperar seu território e também a sua cultura 

O sol nascente na baía de Kealakekua, na ilha Hawai‘i, iluminou a Makali‘i, canoa havaiana de dois cascos ancorada na baía. O dia raiou no promontório de Ka‘awaloa, na orla do mar, onde o capitão Cook foi morto a golpes de clava e lâmina por havaianos irados, em 1779. O delgado monumento a Cook projeta uma longa sombra: marca o lugar onde forasteiros irromperam na história havaiana – para muitos havaianos, o mais sério ataque a uma cultura que vinha florescendo por mais de mil anos.

Em terra, acampado na baía de Kealakekua, eu fora acordado pouco antes da alvorada pelos 19 membros temporários da tripulação da Makali‘i. Eram alunos do ensino médio, representantes de todos os grupos étnicos do Hawai‘i, aprendendo valores havaianos e navegação em um cruzeiro de uma semana.

A Makali‘i era comandada por Clay “Kapena” (Capitão) Bertelmann, renomado navegador havaiano, veterano de travessias do Pacífico em canoas tradicionais. Levantado o acampamento, a jovem tripulação postou-se em filas na praia e saudou o dia com um cântico que começava com: “E ala e! (Acordar! Levantar!) / Ka l¯a I ka hikina (O sol nasce no leste) / I ka moana (Do oceano) / Ka moana hohonu (Das profundezas do oceano)”.

Já na década de 1820, não muito depois da chegada dos primeiros missionários da Nova Inglaterra, a supressão cultural foi formalizada com a proibição da hula, pois seus cantos e danças exaltavam deuses havaianos – entre eles Kane, o criador; Lono, o deus das colheitas; e Ku, o deus da guerra – considerados pagãos pelos evangelizadores cristãos. A hula era a alma da cultura havaiana, uma arte que recontava a história e os mitos da criação das ilhas. Mais tarde a língua havaiana também foi proibida.

Quando o Hawai‘i se tornou estado americano, em 1959, a cultura estava gravemente solapada. Muitos havaianos se revoltavam contra a exigência, já de longa data, de provar que tinham no mínimo 50% de sangue havaiano para terem direito à concessão de terras pelo governo, e isso levou à militância em favor da terra para todos os “kanaka maoli”(o “povo original”), independentemente da porcentagem que tivessem de sangue havaiano. No novo estado, a língua original continuou proibida nas escolas e o povo se viu desalentado e marginalizado pela alta criminalidade e pelas más condições de saúde.

Os havaianos nunca deixaram de afirmar suas raízes nos dois séculos desde o desembarque dos missionários, mas só nas duas últimas décadas começaram a receber mais atenção. Hoje o velho termo “parcialmente havaiano” tende a ser considerado pejorativo – e, do atual 1,2 milhão de habitantes das ilhas, quase 250 mil identificam-se como “havaianos nativos”, integralmente ou em combinação com outro grupo étnico.

O cântico havaiano, a autêntica voz do Pacífico, é um dos sons mais sedutores e inesquecíveis do mundo, um misto de prece e manifestação dramática. A tripulação da Makali‘i em seguida entoou “E Ho¯ Mai”, que pede a compreensão “das coisas e competências ocultas / Do que é havaiano”. Em seguida, cantaram, acompanhando com os pés, um louvor à sua canoa, “E Ala Makali‘i”.

Com essa récita, eles receberam a bênção do kupuna local, Gordon Kanakanui Leslie. Kupuna, um termo que designa um ancião ou ancestral, significa “que emergiu da fonte”, dono do conhecimento tradicional. “Aqui 10 mil pessoas saudaram Cook”, conta Gordon aos jovens. “O deus Lono veio deste lugar – mas ele primeiro foi homem e depois se tornou um deus. Esta baía é kealakekua – o ‘caminho dos deuses’. Tivemos de lutar para manter as construtoras fora deste vale. Queriam fazer um resort de luxo e campos de golfe.” Depois a tripulação despediu-se à moda havaiana, não dizendo “aloha”, mas compartilhando a ha¯, ou respiração. Enfileiraram-se e, um a um, fizeram o toque de nariz e testa com Gordon enquanto inspiravam – um ritual que parecia uma metáfora para manter viva a cultura havaiana.