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A história da National Geographic 02/12/2011

O coração da aventura

(1988 - presente)

por Mark Jenkins/Priit Vesilind Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

“Todo mundo é explorador. Como é que alguém pode passar a vida inteira olhando para uma porta sem abri-la?” - Robert Ballard

 

Apesar da experiência acumulada em mais de 100 anos organizando expedições, da facilidade dos dias de hoje para viajar, do celular, do notebook, do GPS e de outros apetrechos tecnológicos, o coração da aventura pura ainda bate forte na NGS.

Os exploradores atuais precisam ir cada vez mais longe para encontrar lugares intocados, como a Terra da Rainha Maud, na Antártica, com seus picos nunca antes escalados, que Jon Krakauer descreveu como “uma enorme aura de terra incógnita”. Nos mares, precisam descer a profundezas ainda maiores para avistar algo inusitado, como as chaminés subaquáticas termais que o fotógrafo Emory Kristof comparou a “olhar para o espaço e enxergar galáxias”. Mas, com ousadia, os exploradores conseguem provar que, no nosso mundo tão conhecido e mapeado, ainda há descobertas a serem feitas. Ian Baker e Ken Storm, por exemplo, lideraram uma expedição pelo rio Tsangpo, no Tibet, e encontraram uma estonteante cachoeira de 30 metros de altura no cânion mais profundo do mundo. A maior parte dos geógrafos tinha descartado os rumores sobre sua existência. “Mas ele está lá e é maior do que poderíamos imaginar”, declarou Baker.

Talvez Bertrand Piccard – que pilotou o Breitling Orbiter 3, em 1999, ao lado de Brian Jones, na primeira volta ao mundo em balão de ar quente sem paradas – tenha conseguido descrever o espírito da aventura contemporânea em seu texto para a revista. “Os seres humanos buscam controlar a natureza, mas, mesmo quando se dá a volta ao mundo em um balão usando a tecnologia mais moderna disponível, é preciso entrar em harmonia com a natureza e seguir o ritmo do vento”.

Os exploradores atuais precisam, além de estar em equilíbrio com o meio ambiente, trabalhar cada vez mais a seu favor. Na comemoração do centenário da NGS, Gilbert M. Grosvenor reconheceu essa necessidade quando afirmou que a instituição iniciara seu primeiro século “com a determinação de compreender melhor o mundo”, e que iria inaugurar o segundo incentivando “maior defesa ao planeta”.

Atualmente, uma nova geração de exploradores promove a aventura na NGS. Os residentes da instituição passam boa parte do ano em campo. Só assim podem revelar ao mundo coisas absolutamente fantásticas. Um vislumbre de penas vermelhas saindo do gelo levou o arqueólogo Johan Reinhard, no alto dos Andes peruanos, até os restos mortais de uma moça inca, apelidada de “Donzela do Gelo”. O estudo dessa múmia, com mais de 500 anos de idade, proporcionou descobertas inestimáveis a respeito dos antigos sacrifícios praticados pelos incas.

O “Vale das Múmias de Ouro” é uma das descobertas mais importantes feitas no Egito nas últimas décadas. O egípcio Zahi Hawass, diretor de escavações das pirâmides de Gizé, levou os telespectadores da National Geographic a um passeio por essas escavações de mais de 200 múmias greco-ro- manas. Hawass disse: “A gente nunca sabe que segredos a areia pode esconder”. Mas o paleontologista Paul Sereno sabe, porque achou, nas areias do Saara, vestígios de dois dos maiores carnívoros que já caminharam sobre a Terra. O Carcharodontosaurus saharicus era maior que o Tyrannosaurus rex. E o crocodilo Sarcosuchus imperator – o “SuperCroc” – tinha o comprimento de um ônibus e pesava 10 toneladas.

Entre os exploradores residentes estão ainda Meave Leakey, que descobriu no Quênia o fóssil de um gênero de hominídeo inteiramente novo, o Kenyanthropus platyops, e abalou as noções anteriores a respeito da evolução humana. Bob Ballard, além de localizar os destroços de navios da Segunda Guerra Mundial (como o York-town, o Bismark e o PT-109, de John F. Kennedy), também descobriu evidências de uma enchente cataclísmica no mar Negro. Wade Davis, etnobotanista e estudioso de culturas nativas, viveu entre povos tribais e se dedica arduamente à conservação de seus hábitos tradicionais. E a oceanógrafa Sylvia Earle, que empreendeu o programa Mares Sustentáveis – cinco anos de exploração nos santuários marinhos nacionais dos EUA.

Grandes mudanças também vêm ocorrendo na liderança da NGS. Quando Gilbert M. Grosvenor se aposentou, em 1996, foi o fim de uma era. A família que administrara o crescimento e o desenvolvimento da NGS desde sua fundação passou o bastão da liderança. Apesar de Grosvenor continuar na ativa até hoje, como diretor-chefe, seus sucessores – Reg Murphy e, desde 1998, John M. Fahey Jr. – agora teriam de dar forma a uma nova e ousada NGS.

A revista, sob a liderança dos editores Bill Garrett (1980–1990), Bill Graves (1990– 1994), Bill Allen (1995–2005) e Chris Johns (a partir de 2005), foi redesenhada e transformada na publicação das mais relevantes para os leitores da atualidade. Artigos a respeito da saúde global, do lado negro do comércio de diamantes ou das armas de destruição em massa agora aparecem ao lado de reportagens sobre descobertas arqueológicas e maravilhas científicas.

Apesar de sempre ter sido disponibilizada em inglês para o mundo todo, NATIONAL GEOGRAPHIC hoje é verdadeiramente internacional. Tudo começou em 1995, quando a NGS lançou uma edição em japonês. Pouco tempo depois, edições em espanhol começaram a circular na Espanha e na América Latina. Logo, a revista passou a ser publicada em uma dúzia de idiomas locais por parceiros licenciados. O impacto é surpreendente. Hoje, um em cada quatro leitores saboreia a revista em uma língua que não a inglesa.

O crescimento das edições em idiomas locais espelha a difusão do canal de televisão por assinatura da NGS. Lançado no Reino Unido, na Escandinávia e na Austrália, em 1997, o National Geographic Channel em 2003 já era o canal de televisão a cabo com maior crescimento no mundo, chegando a mais de 160 milhões de residências em 154 países e 26 línguas. Quando estreou nos Estados Unidos, em janeiro de 2001, foi o segundo lançamento de sucesso mais rápido de canal a cabo na história do país, alcançando mais de 40 milhões de residências em apenas dois anos.

O canal NatGeo é a extensão natural das diversas iniciativas televisivas da NGS, que com o passar dos anos já receberam mais de 100 Emmys e 800 outros prêmios. A tradição dos especiais continua na rede de televisão pública americana, a PBS, com programas que vão de Por Dentro do FBI até A Geografia da África, passando por Visita a Meca. O National Geographic Explorer – recentemente rebatizado de Ultimate Explorer – faz muito sucesso na TV a cabo dos EUA, mostrando correspondentes carismáticos que buscam empreender aventuras em campo ou desvendar questões de globalização cultural. Equipes televisivas da NGS também cobrem fatos importantes, como os conflitos no Afeganistão e no Iraque.

A NGS também passou a produzir filmes para o cinema. Mistérios do Egito e Lewis Clark quebraram recordes nos Estados Unidos. Forças da Natureza e Leões do Kalahari foram pioneiros ao levar a história natural à tela grande. Há alguns anos, a NGS fez parceria com Hollywood para produzir K-19: The Widowmaker, drama sobre a Guerra Fria a bordo de um submarino, com Harrison Ford.

Em 1996, a National Geographic Society passou a atingir amplo público internacional por meio da internet. Quando o site nationalgeographic.com entrou no ar, atraiu milhões de visitantes instantaneamente. Cheio de páginas interativas, inclusive a famosa MapMachine, o site complementa os artigos da revista e os programas de TV. De vez em quando, traz participações – em tempo real – de correspondentes que podem estar em uma selva, cobrindo uma guerra ou ao lado de Bob Ballard no convés de seu navio de pesquisa.

A revista Traveler continua a atrair os leitores a locais exóticos com edições especiais muito elogia- das, trazendo artigos escritos por pessoas célebres a respeito de seus lugares preferidos. A revista Adventure foi lançada em 1999 para conduzir os leitores mais ousados ainda mais longe. Seu estilo inovador cheio de energia e personalidade levou o prêmio National Magazine Award, em 2002. National Geographic Explorer e NG for Kids comprovaram seu sucesso com as crianças, e novas empreitadas, como a Adventure Press e Adventure Classics estão levando as iniciativas de publicação de livros da NGS a novas direções. E a NGS continua sendo uma produtora de mapas para o mundo: seus atlas vencedores de prêmios são considerados ótimas obras de referência.

Para quem quer ver o mundo em primeira mão, a National Geographic Expeditions organiza viagens por todo o mundo. Tendo como guias exploradores experientes e outros especialistas, os participantes seguem os passos dos soldados nas praias da Normandia, descobrem vilarejos remotos em Papua-Nova Guiné e fazem caminhadas pela paisagem vulcânica e escarpada da Islândia. No Réveillon de 2000, o explorador polar Will Steger liderou uma viagem à Antártica, na qual os viajantes da NGS receberam o novo milênio bebendo champanhe esfriada em gelo de 20 mil anos, rodeados por milhares de pinguins vestidos “com toda formalidade em seus smokings naturais”.

No fim da década de 1990, o biólogo Michael Fay deu início a uma das expedições mais ambiciosas já patrocinadas pela NGS. Durante 15 meses, Fay atravessou mais de 3,2 mil quilômetros pelas selvas intocadas da África central – a pé, usando sandálias, seguindo uma linha reta através da floresta aparentemente impenetrável. Lutando contra sanguessugas, escorpiões, parasitas e chuva incessante, mergulhando em pântanos, se desviando de víboras e do mortal vírus ebola, encontrando animais que jamais tinham visto um ser humano, Fay reuniu quantidade de infor- mações sem prece- dente a respeito dessa região selvagem, precária e ameaçada. Por meio de cobertura televisiva, informações transmitidas pela internet com regularida- de e três reportagens, a odisséia de Fay transfixou a imaginação de milhões de pessoas. Michael Nichols, veterano fotógrafo da revista, capturou em imagens fantásticas o encanto primordial daquele “abismo verde” e ajudou a convencer o governo do Gabão a transformar em reserva 10% de seu território nacional – florestas que de outra maneira cairiam nas mãos de empresas madeireiras – e a criar 13 parques nacionais.

O feito de Fay ecoou. Aquela “defesa do planeta” traduzia o novo compromisso da NGS. Enquanto a revista avaliava o novo milênio com edições especiais sobre a superpopulação e a biodiversidade, John Fahey, presidente da NGS, reiterava que “a preservação é componente fundamental de nossa missão para o século 21”. Assustado com a devastação da vida selvagem que presenciara na África, Fahey resolveu que a NGS deveria agir de modo mais eficiente para encarar tais problemas. O resultado foi o National Geographic Conservation Trust (“Fundo de Preservação National Geographic”), estabelecido para financiar projetos do mundo todo que contribuam para a preservação e o uso sustentável de recursos biológicos e culturais.

A primeira pessoa a receber um financiamento do fundo foi Nalini Nadkarni, que, durante três décadas, trabalhou para despertar a consciência sobre a importância da diversidade biológica na cobertura das florestas tropicais. Nalini apareceu em Floresta Tropical: Heróis da Fronteira Elevada, especial da NGS para a televisão, em que foi mostrada abrindo caminho pela vegetação densa para descobrir “mundos dentro de outros mundos”. Bolsas subsequentes contribuíram para a preservação dos orangotangos e dos cães selvagens da África e também promoveram realizações inovadoras para que povos nativos pudessem proteger seus recursos locais ameaçados.

Outra necessidade que continua latente é o aprimoramento da educação geográfica. Apesar de milhares de alunos de escolas nos Estados Unidos participarem da Olimpíada de Geografia Internacional, e do concurso National Geography Bee, além de outras iniciativas educacionais da NGS, uma pesquisa recente concluiu que os jovens americanos continuam com pouquíssimo conhecimento geográfico. Por isso, John Fahey resolveu criar um grupo internacional de políticos, líderes empresariais e representantes da mídia para desenvolver estratégias para lutar contra a apatia geográfica. “Trata-se de uma crise cultural”, declarou. “E vamos nos esforçar ao máximo para reverter essa tendência alarmante.”

Há mais de um século, as iniciativas da NGS fornecem publicações e programas para milhões de pessoas no mundo. Também já financiou mais de 7,5 mil projetos de pesquisa científica. Os valores da NGS continuam conduzindo a instituição a todo vapor século 21 afora, e seus líderes nunca deixam de prestar atenção ao lema que inspirou seus funda- dores naquela noite no Cosmos Club, em 1888 – “O crescimento e a difusão do conhecimento geográfico”.

O ex-presidente americano Jimmy Carter, vencedor do prêmio Nobel da Paz, declarou que a NGS fez mais que qualquer outra organização conhecida por ele para “unir as pessoas de nações distintas e para que possamos conhecer e compreender uns aos outros”. O mundo pode já estar todo mapeado, seus polos podem ter sido conquistados e suas montanhas podem ter sido escaladas, mas a necessidade de compreendê-lo – seus povos e suas nações, seus animais e suas plantas, seus mares mais profundos, seu núcleo ardente e seu lugar entre as galáxias – é hoje mais fundamental que nunca. Este é o atual trabalho da NGS, uma organização internacional que compreende perspectiva planetária e missão global. Tratar a Terra com carinho e olhar para as estrelas com ar de sonho nos olhos são, e vão continuar sendo, vitais para a NGS.