Ilha do medo
Não há mamíferos nem fontes de água potável na Queimada Grande. Quem sobrevive nessa ilha paulista são milhares de cobras e aranhas venenosas. E a evolução se encarrega do resto
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Jararaca-ilhoa (Bothropoides insularis) adaptada a caçar pássaros na ilha Queimada Grande, em São Paulo
João Marcos Rosa
Na falta de mamíferos, a jararaca-ilhoa teve de adaptar-se à vida nas árvores para poder caçar pássaros, mortos por um veneno cinco vezes mais poderoso que o da jararaca do continente
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Existem cerca de 2 mil Jararacas-ilhoa (Bothropoides insularis) na ilha Queimada Grande, São Paulo
João Marcos Rosa
São mais de 2 mil cobras na ilha. Para os cientistas, o fato de toda a população da Bothropoides insularis na natureza estar concentrada nesse pequeno território torna a espécie vulnerável
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Jovem cobra na ilha de Queimada Grande, em São Paulo
João Marcos Rosa
Durante a juventude, as serpentes vivem no chão, onde também habitam os animais que lhes servem de alimento, entre eles lacraias, lesmas e rãs. Na falta de fontes de água potável na ilha, todos os bichos dependem de repositórios naturais, como as bromélias
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Ilha Queimada Grande, em São Paulo
João Marcos Rosa
A Queimada Grande tem 1,2 quilômetro de extensão e é coberta por mata nativa e capinzais
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Pesquisadores na ilha Queimada Grande, em São Paulo
João Marcos Rosa
Os pesquisadores estão entre as poucas pessoas autorizadas a desembarcar na ilha e acampar
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Biólogo explorana uma caverna na parte sul da ilha Queimada Grande, em São Paulo
João Marcos Rosa
O biólogo Breno Damasceno impressiona-se com a grandiosidade de uma caverna na parte sul da ilha. Cientistas descobriram ali água doce, mas análises detectaram níveis de nitrato – decorrente de fezes de aves na superfície da ilha – bem maiores que os recomendavéis para consumo humano
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Jararaca-ilhoa dá o bote no gancho de coleta do biólogo na ilha Queimada Grande, São Paulo
João Marcos Rosa
Uma cobra jovem se lança para um bote ao sentir a proximidade do gancho de coleta do biólogo. A picada da jararaca-ilhoa pode matar uma pessoa em poucas horas
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Jararacas-ilhoa entrelaçadas na ilha Queimada Grande, São Paulo
João Marcos Rosa
A criação de jararacas-ilhoas em cativeiro é uma solução para estudar os animais e criar uma reserva genética – 71 vivem fora do hábitat hoje, como os exemplares do Instituto Vital Brazil, no Rio de Janeiro. Os descendentes, como este filhote, podem um dia ser introduzidos na ilha e aumentar a população da espécie na natureza
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Ilha do medo - hábitos semiarborícola da cobra em Queimada Grande, São Paulo
João Marcos Rosa
Os hábitos semiarborícolas foram adquiridos quando a espécie ficou isolada do continente, 10 mil anos atrás
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Jararaca-ilhoa encontrada durante a noite na ilha Queimada Grande, em São Paulo
João Marcos Rosa
Breno Damasceno encontra uma jovem jararaca-ilhoa durante a noite, a poucos metros do acampamento, o que, em tese, seria impossível, pois os animais são diurnos e não gostam de locais com incidência de vento, como era o caso
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Desembarque na ilha Queimada Grande, litoral sul de São Paulo
João Marcos Rosa
Na ausência de praias, o desembarque é sempre tenso, com algum membro mais hábil da expedição tendo de amarrar uma corda para servir de apoio aos outros
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Partindo da ilha Queimada Grande, no litoral sul de São Paulo
João Marcos Rosa
Adeus, Queimada Grande: a equipe de NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL não escondeu a alegria de partir do cenário de sua reportagem no litoral sul de São Paulo.
“Olha uma ali!” Enrodilhada em galhos que parecem prestes a se quebrar com o peso, ela não se mexe nem mesmo com a nossa aproximação. Demoro para ver, em meio à folhagem, o que meus parceiros de expedição – o biólogo Breno Damasceno e o fotógrafo João Marcos Rosa – percebem logo. A serpente amarela com manchas marrons, quase invisível atrás das folhas, é a jararaca-ilhoa, o perigoso animal que ocupa o degrau mais alto da cadeia alimentar na ilha da Queimada Grande, um rochedo de granito forrado de Mata Atlântica, 33 quilômetros distante da costa da cidade de Itanhaém, no litoral sul de São Paulo. Sou tomado de um sentimento misto de empolgação e medo.
A Queimada Grande, afinal, não é nada hospitaleira com seus visitantes, das pequenas aves migratórias aos raros seres humanos que ousam pisar em seus 43 hectares (o equivalente a 40 campos de futebol). Como não há praias, o embarque e o desembarque são sempre complicados, quando não impossíveis. Não há fontes de água potável ou alojamento esperando pelos visitantes. As trilhas são íngremes e faz muito calor; a chuva, não raro, vem com tempestades de vento cortante. Há aranhas venenosas e, claro, cobras, milhares delas – no chão, nas pedras, na relva, nas árvores, por toda parte.
Mesmo assim, pisar pela primeira vez na rocha escorregadia que serve de porto é um alívio para quem passou a noite balançando em uma lancha ancorada – com as devidas consequências gástricas inerentes a marinheiros de primeira viagem, como era o meu caso. O percurso desde o continente levara apenas duas horas, mas era madrugada quando chegamos, e desembarcar sem a luz do sol estava fora de cogitação. Por isso, permanecemos chacoalhando até as 6 da manhã – só então pudemos deixar o barco que voltaria ao continente para esperar o dia do nosso resgate. Eu estava debilitado e confuso quando ele começou a se distanciar da ilha, com as pessoas a bordo acenando. Não havia tempo, porém, para refletir sobre aquele momento insólito, muito menos para descansar. Uma chuva se anunciava no horizonte e precisávamos armar acampamento o quanto antes. A barraca seria o máximo de conforto que eu teria nos próximos dias. Sono tranquilo, banho, banheiro e boas refeições eram privilégios que tinham ficado na costa.
Formada há 55 milhões de anos, em um desdobramento das origens da serra do Mar, a ilha da Queimada Grande foi ligada ao continente em diferentes períodos do passado. Entre 10 mil e 12 mil anos atrás, quando terminou a última glaciação da Terra, a área acabou cercada pelo mar, em decorrência da elevação no nível dos oceanos. A população de serpentes, que provavelmente eram da mesma espécie do continente – Bothropoides jararaca –, ficou ilhada. Sem pequenos mamíferos para caçar, as cobras precisaram se adaptar à vida em cima das árvores, pois a principal comida disponível eram as aves, de passagem pela ilha em suas migrações.
A mudança de padrão alimentar forçou alterações no comportamento. Enquanto o parente continental preserva hábitos terrestres na vida adulta, a ilhoa aprendeu a prender-se no alto das árvores pela cauda, a qual forma um laço em volta dos galhos e a sustenta pendurada – apenas os indivíduos jovens ficam o tempo todo no chão, pois se alimentam de lacraias, lesmas e sapos.
Outra diferenciação significativa está na potência de seu veneno. Pioneiro nas pesquisas sobre a cobra – descreveu a espécie em 1921 –, Afrânio do Amaral, um dos primeiros diretores do Instituto Butantan, em São Paulo, aplicou em pombos o veneno da jararaca-ilhoa e da continental. Concluiu que, para matar a ave com a peçonha da Bothropoides insularis, era suficiente uma dose cinco vezes menor que a dose letal do veneno da Bothropoides jararaca. “Ele é mais potente para aves, mas não para mamíferos”, explica Otávio Marques, do Butantan. Se a peçonha não matasse a presa em poucos segundos, ela poderia morrer distante, impossibilitando o predador de comê-la. Assim, para garantir a refeição, a cobra pica o pássaro e não o solta mais, começando a engoli-lo logo em seguida.
O que mata suas vítimas na natureza, porém, pode salvar vidas humanas. Ao estudar o veneno da jararaca comum, pesquisadores brasileiros descobriram, em 1948, o vasodilatador bradicinina, que tem ação anti-hipertensiva e que mais tarde deu origem ao medicamento Captopril. Em 2001, foi patenteado outro anti-hipertensivo baseado nas mesmas toxinas, o Evasin. Embora essas substâncias, do ponto de vista bioquímico, sejam parecidas nas duas espécies – tanto que o soro antiofídico é o mesmo –, acredita-se que as poucas enzimas diferentes da peçonha da jararaca-ilhoa possam dar origem a novos fármacos.
Para os ambientalistas, esse é um dos motivos da retirada ilegal de cobras da Queimada Grande. “Por ser uma espécie endêmica e pelas propriedades ainda inexploradas do veneno, ela tornou-se um alvo cobiçado da biopirataria”, afirma Raulff Lima, coordenador executivo da Renctas, ONG de combate ao tráfico de animais. “As serpentes, de um modo geral, são muito resistentes. Elas podem ficar dias sem comer, o que facilita seu envio a outros países”, afirma.
