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Edição 27/Julho de 2002 02/12/2011

As ilhas perdidas das Filipinas

As ilhas das Filipinas, no Sudeste Asiático, guardam uma infinidade de espécies endêmicas

por Priit J. Vesilind Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Tim Laman

Figos florescem na mata de Sierra madre, nas Filipinas

Tim Laman

Uma profusão de figos amadurece na floresta tropical de Sierra Madre, na região norte de Luzon.

Olho de lagarto, asa de morcego - um caldeirão de fauna e flora borbulha nas Filipinas, uma das áreas de maior biodiversidade no mundo. Os cientistas ainda estão catalogando espécies, como este lagarto-encouraçado de 1 metro descoberto no ano passado na ilha de Panay. A devastação dos hábitats, contudo, ameaça eliminar 70% dos mais de 500 gêneros de vertebrados terrestres endêmicos no país.

Sol e chuva se mesclaram enquanto a tempestade passava sobre o rio Puyoy-Puyoy, inundando a floresta de uma luminosidade dourada. As folhas de uma árvore de mangue-vermelho sacudiam e reluziam em meio à borrasca, revelando o galho onde se abrigava uma jibóia. Com 3 metros de musculatura enrolada, pronta para o bote, ela apenas ergueu a cabeça quando por ali deslizamos em nossa canoa.

O Puyoy-Puyoy atravessa um manguezal na costa oeste de Palawan, a província mais ocidental do arquipélago das Filipinas. O rio desemboca no mar do Sul da China pelo Parque Nacional do Rio Subterrâneo Puerto Princesa, onde um outro rio corre por 8 quilômetros navegáveis no interior de uma caverna repleta de morcegos e dramáticas formações de arenito. Com uma área de 3,9 mil hectares, o parque abriga 11 ecossistemas diferentes, desde floresta nos cumes montanhosos até o mar de águas azuis para além dos recifes. E nele vive uma multidão de animais endêmicos ameaçados, entre os quais o glorioso faisão-de-palawan, a raposa-voadora, o texigo-javanês e o panda-vermelho.

Para chegar ao coração dessa área selvagem, o fotógrafo Tim Laman e eu seguimos de carro para o norte a partir de Puerto Princesa, a mormacenta capital de Palawan, por uma estrada que logo virou uma precária trilha entre os campos de arroz e os palmeirais. Nuvens escuras nos ameaçavam quando nos aproximamos de Sabang, um entreposto fronteiriço, formado apenas por um armazém e alguns bares de karaokê com piso de chão batido. Um búfalo rebocou nosso equipamento por 1 quilômetro até os chalés de uma pousada à beira-mar. Ali passei uma noite infernal, suando em bicas sob o mosquiteiro enquanto a chuva açoitava o teto de sapé, até que um galo nos despertasse para uma alvorada de tons pastel.

Tive de esfregar os olhos para me convencer de que estava acordado. À nossa volta tudo era paradisíaco, da praia de areia branca e do mar brilhante e imóvel até a floresta luxuriante que se debruçava sobre a linha da costa, para não falar das vozes e guitarras suaves das crianças que, na cozinha, cantavam para nós. Lá fora já se movimentava a fauna do turno do dia. Peixes exploravam as lagunas formadas pela maré, movendo-se com suas curtas nadadeiras dianteiras. Libélulas e andorinhas zuniam pelo céu. Martins-pescadores esvoaçavam com alarido na úmida e quente floresta de baixa altitude.

A vida e a morte alternam-se em ritmo acelerado nas Filipinas, um dos 25 principais hotspots do planeta, um local onde coexistem incontáveis espécies de plantas e animais, onde uma porcentagem excepcionalmente alta delas é endêmica e onde muitas estão ameaçadas de extinção. Esse arquipélago tropical com mais de 7 mil ilhas dispersas entre a China e a Indonésia costuma ser considerado o hotspot em situação mais crítica. É inevitável o desaparecimento de muitas espécies.

Alguns biólogos acham que a biodiversidade das Filipinas já passou do ponto em que poderia ser salva, mas outros não perderam a esperança. Perry Ong, um jovem animado, é o administrador da Conservation International Philippines em Manila, uma filial da organização de defesa ambiental baseada em Washington, D.C. “Ainda nos resta uma chance, uma janela de dez anos, talvez 15, para promover a recuperação do ambiente”, avalia ele.

Com seus esforços, os conservacionistas filipinos conseguiram transformar quase 4 mil quilômetros quadrados em áreas protegidas, mas muitas delas são pequenas demais para assegurar a sobrevivência das espécies. Ong e outros consideram que Palawan, por estar mais distante dos centros populacionais, só agora começa a sofrer as conseqüências da pobreza, da migração, do desmatamento e da industrialização que tanto prejudicaram as outras ilhas. Abrigando 40% dos manguezais e 30% dos recifes, ela poderia servir de laboratório para o esforço de preservação. “Consideramos Palawan como o último hábitat intocado”, diz Redempto Anda, diretor da Conservation International Philippines em Puerto Princesa. Em Palawan, assim como em outras ilhas, a situação ainda não é totalmente crítica graças à colaboração cada vez mais freqüente entre órgãos governamentais, ONGs e instituições acadêmicas.