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Edição 59/Fevereiro de 2005 02/12/2011

Bem vindo a Bollywood

Bollywood: a maior indústria de cinema do mundo fica na Índia e resgata a pureza de sonhos e ideais perdidos em Hollywood

por Suketu Mehta Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

William Albert Allard

Atriz em cenário em Mumbai, na Índia, para filme de Bollywood

William Albert Allard

Rimii, uma atriz iniciante, exercita seu poder de sedução em um cenário de cinema em Mumbai

Shah Rukh Khan é Deus.A mulher vestindo um sári vermelho tem absoluta certeza disso. Quando o astro de cinema e seu séquito chegam à entrada de um hotel cinco estrelas em Chandigarth, capital do estado indiano de Punjab, uma horda de jovens avança, aos berros, para Shah Rukh, assim que ele desce do carro. De classe média, mãe de duas crianças e com 30 e poucos anos, a mulher de sári vermelho começa a pular, histérica, à beira de um ataque de choro. “Shah Rukh! Shah Rukh!”, vocifera ela, com toda a força de seus pulmões. Enquanto os guarda-costas abrem caminho por entre a multidão, a caneta de Shah Rukh voa sobre os pedaços de papel que lhe colocam à frente. Nunca vi ninguém distribuir autógrafos com tanta rapidez.

Mas a mulher enlouquecida, Shanno Singh, não está interessada em autógrafo. Ela quer mesmo é tocar o astro. “Para nós, Shah Rukh é o próprio Deus, que Se encarnou aqui na Terra”, diz ela, com o filho agarrado ao braço e um tanto envergonhado. Ela brigou com o marido e arrastou o filho até ali, diante do hotel em que Deus iria se hospedar, para resolver uma dúvida crucial: “Seria Ele de fato como todo mundo?”

Shanno Singh provavelmente nunca conseguirá tocar Shah Rukh Khan. Em vez disso, vai continuar a adorá-lo nos mesmos templos freqüentados por milhões de outros devotos: as salas de cinema. A indústria cinematográfica da Índia – conhecida como Bollywood porque muitos de seus filmes são rodados em Mumbai, antes chamada de Bombaim – é a maior do mundo, produzindo mais filmes e atraindo um público maior que o de Hollywood. Em 2003, enquanto nos Estados Unidos foram produzidos 600 filmes, os indianos rodaram 1,1 mil, um terço dos quais em hindi, a língua oficial da Índia. E os filmes indianos atraem um público global estimado em 3,6 bilhões de pessoas por ano, 1 bilhão a mais do que o cinema americano.

Bollywood tornou-se um símbolo da Índia, como o chá Darjeeling ou o Taj Mahal. Seus filmes são populares no Oriente Médio, na Ásia Central, na África, na América Latina – e agora nos EUA e na Europa, com os imigrantes originários de países que adoram as produções de Bollywood constituindo a maior parte dos espectadores e proporcionando mais de 60% de seus rendimentos fora da Índia. Com a recente onda em torno de filmes inspirados em Bollywood, como Casamento à Indiana, e a indicação de Lagaan a um Oscar em 2001, até Hollywood está começando a prestar atenção em sua rival.

Mesmo assim, para a maioria dos ocidentais, tais filmes parecem excessivamente ingênuos e melodramáticos. Quase todos, obras fantasiosas com três horas de duração, nas quais a ação é interrompida por intermináveis canções e números de dança protagonizados pelos atores. E as histórias são inverossímeis, repletas de coincidências e expectativas pouco realistas. Além disso, os atores mudam de roupa (de sári a minissaia, de terno a túnica) e de cenário (das praias de Goa às montanhas da Suíça) inúmeras vezes durante uma única canção. O público, porém, parece não se importar com nada disso. Os fãs de Bollywood querem é entrar em um reino mágico, onde nada é impossível, onde o verdadeiro amor sai vitorioso e onde as circunstâncias são superadas pelos sentimentos.

Eu mesma cresci vendo os filmes de Bollywood: primeiro, como criança em Bombaim e, depois, como adolescente em Nova York. Lembro-me de outros imigrantes, nossos vizinhos em um prédio de Jackson Heights, sintonizando o canal 47 para assistir a um programa de cinema, em hindi, chamado Visão da Ásia. Os indianos cantarolavam juntos todas as músicas. O mesmo se dava com os russos, os uzbeques, os paquistaneses e os gregos. O que tornava esses filmes tão fascinante para gente tão variada?

Para descobrir isso, acompanhei toda a produção de um filme de Bollywood, o Veer-Zaara, lançado em setembro do ano passado. No filme, uma jovem paquistanesa chamada Zaara (representada por Preity Zinta, megaestrela de Bollywood) viaja para a Índia, onde se apaixona por Veer, um piloto da Força Aérea indiana (papel de Shah Rukh Khan). Infelizmente, seu pai já a havia prometido em casamento a um homem por quem ela não sente nada. Essa é uma clássica história de amor indiana, recheada de reviravoltas improváveis. A própria produção do filme revela outra história típica do cinema local – a do esforço de um diretor, um dos muitos em Bollywood cujas raízes remontam à partição da Índia e do Paquistão, visando superar as diferenças entre o país onde vive e aquele em que nasceu.

Uma locação cinematográfica nos arredores de Mumbai

Já passa da meia-noite em uma abafada madrugada de junho. Um homem com avançada calvície grita ordens por um alto-falante de mão. A câmera foca dançarinos, que rodopiam em torno de uma enorme fogueira, diante de um templo, decorado com lantejoulas e luzinhas brancas. Pouco a pouco, tem início uma canção…