Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

Edição 38/Junho de 2003 29/08/2011

Os intocáveis

A mais baixa das castas indianas desafia o preconceito

por Tom O'Neill

William Albert Allard

Os intocáveis na Índia

William Albert Allard

Os intocáveis:  estigmatizados como impuros desde o nascimento, um em cada seis indianos vive - e sofre - na base do sistema de castas hindu. Laxman Singh perdeu as pernas depois de ser espancado por aldeões de uma casta superior no Rajastão.

Os pecados de Girdharilal Maurya são muitos, garantem seus atacantes. Ele tem carma ruim. Por que nasceria intocável, como seus ancestrais, senão para pagar por suas vidas passadas?

Veja só: ele trabalha com couro, e a lei hindu diz que trabalhar com pele de animais torna-o impuro, alguém que se deve evitar e ultrajar.

E sua prosperidade não fica bem, é pecado. Quem esse pária pensa que é, comprando um pequeno terreno na periferia da aldeia? Ainda por cima, atreveu-se a pedir à polícia e a outras autoridades licença para usar o novo poço da aldeia. Recebeu o que os intocáveis merecem.

Uma noite, quando Maurya estava em uma cidade próxima, oito homens de uma casta superior, os rajputes, entraram em seu terreno. Quebraram as cercas, roubaram o trator, espancaram sua mulher e sua filha e queimaram a casa. A mensagem era clara: mantenha-se embaixo, onde é seu lugar.

Girdharilal Maurya pegou a família e fugiu da aldeia de Kharkada, no estado do Rajastão, oeste da Índia. Dois anos se passaram até que ele se sentisse em segurança para retornar – e isso só porque advogados de direitos humanos empenharam-se em seu caso. “Eu os vejo quase todo dia”, comenta Maurya sobre seus atacantes. “Andam por aí, livres.” Ele concordou em encontrar-se comigo – depois de escurecer – no quintal de terra de sua casa na aldeia. Maurya tem 52 anos, é alto e bem-apessoado, de cabelos brancos e rosto vincado pela preocupação. Na gélida noite de fevereiro, ele se enrola em um roupão de banho. A mulher move-se na penumbra, preparando o chá. Moram com os demais de sua casta no extremo sul da aldeia, onde o vento sopra para longe das famílias de castas superiores, que acreditam que não devem sentir o cheiro de intocáveis.

O processo na Justiça contra seus atacantes arrasta-se, explica Maurya, com voz tensa e contida. Tenta mostrar-se otimista: agora os intocáveis podem usar a bomba do poço, e um de seus filhos conseguiu avançar até a universidade – o primeiro de sua casta naquela aldeia. Mas, quando admite que ainda teme seus agressores, a voz de Maurya se altera – e a mulher aumenta o volume do rádio para disfarçar. “O governo recusa-se a lidar com problemas como esse do poço dizendo que, legalmente, o sistema de castas não existe.

Mas basta olhar em volta. Tratam melhor dos animais do que de nós. Isso não é natural.

Só estamos pedindo direitos humanos.” E fala ainda mais alto, clamando para a noite a sua volta: “Por que os deuses permitiram que eu nascesse num país como este?”

 

Comente