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Índios caiapós lutam para defender seu modo de vida tradicional na Amazônia

Temerosos do impacto da usina hidrelétrica de Belo Monte, os líderes desse povo guerreiro voltam à luta

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL   |   Por: Chip Brown
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O avião monomotor Cessna avança devagar em meio à fumaça das queimadas ao redor da cidade de Tucumã. É tentador imaginar que estamos voltando no tempo, trocando os compromissos e os problemas do mundo moderno pela vida tribal em um dos últimos grandes redutos da cultura indígena. O clima é ameno nessa manhã de setembro, ainda na estação seca. Depois de meia hora voando para sul e oeste, observamos o sinuoso curso do barrento rio Branco – e de repente não há mais fogo na mata nem estradas, tampouco os pastos nítidos e irregulares, pontilhados com cabeças esbranquiçadas de gado. Agora não resta nada além da floresta sem trilhas e envolta na névoa.

[Veja retratos dos índios caiapós]

Abaixo de nós estão as terras dos índios caiapós, cinco regiões oficialmente demarcadas, que no total somam uma área de pouco mais de 100 mil quilômetros quadrados – o tamanho da Islândia. A reserva, que abriga um dos maiores trechos protegidos de floresta úmida no mundo, é controlada por 9 mil indígenas. A maioria não sabe ler nem escrever e ainda mantém um modo de vida quase só de subsistência, em 44 aldeias interligadas apenas por rios e trilhas invisíveis.

Nossa equipe está a caminho de uma das aldeias mais remotas, a de Kendjam, “pedra ereta” no idioma nativo, nome que faz referência ao morro de tom cinza-escuro que agora se eleva diante de nós, arqueando-se cerca de 250 metros acima da copa das árvores como uma baleia na superfície do mar. Pouco além desse monte, dá para ver a superfície cintilante e debruada do rio Iriri, o maior afluente do rio Xingu, importante tributário do Amazonas. Com uma guinada, o Cessna pousa em uma pista de terra rasgada na floresta entre o morro e o rio, taxiando diante de hortas pequenas e choças de palha, dispostas em círculo ao redor de uma praça arenosa.

Ao saltarmos do aparelho, uma dúzia de meninos, nus ou apenas de calções, aproximam-se, agachando-se à sombra das asas. As orelhas dos mais jovens estão atravessadas por pinos de madeira grossos como um lápis. Os caiapós furam o lóbulo das orelhas dos filhos a fim de ampliar simbolicamente a capacidade que tem o bebê de entender a língua e a dimensão social da vida. Quando querem chamar alguém de “estúpido”, dizem que fulano “não tem buraco na orelha”.

Os meninos, tímidos, observam enquanto descarregamos a bagagem. Há presentes para os nossos anfitriões: anzóis, fumo e 10 quilos de contas de boa qualidade feitas na República Tcheca. Barbara Zimmerman, a diretora do Projeto Caiapó – resultado da colaboração entre o Fundo de Conservação Internacional, do Canadá, e o Fundo de Defesa Ambiental, dos Estados Unidos –, nos apresenta ao líder da aldeia, Pukatire, um sujeito de meia-idade que usa óculos, calções e sandálias de borracha. “Akatemai”, cumprimenta, estendendo a mão, antes de falar um pouco de inglês, que lembra de uma viagem à América do Norte: “Hello! How are you?”

NG - BEPRÔ usa as contas e os brincos de algodão típicos da cerimônia em que os meninos recebem seu nome.

Martin Schoeller

BEPRÔ usa as contas e os brincos de algodão típicos da cerimônia em que os meninos recebem seu nome - Foto: Martin Schoeller

Embora Kendjam pareça estar fora do tempo, ela foi fundada apenas em 1998, quando Pukatire e os seus seguidores abandonaram a aldeia de Pukanu, mais acima no rio Iriri, após uma discussão em torno da derrubada de árvores. Esse fenômeno, denominado “fissionamento” pelos antropólogos, é uma forma costumeira entre os caiapós de solucionar desentendimentos ou, ainda, de reduzir a demanda sobre os recursos de uma área determinada. Hoje a nova aldeia conta com 187 moradores e, apesar da aparência tradicional, convive com novidades que teriam assombrado os antepassados de Pukatire: um gerador de eletricidade em um posto de enfermagem, um conjunto de painéis solares instalados em um terreno cercado por arame farpado, antenas para a captação de sinais de satélite. Algumas famílias têm aparelhos de TV nas choças e se divertem assistindo vídeos de suas próprias cerimônias, assim como telenovelas. Pukatire nos mostra ainda uma escola com duas salas de aula, erguida anos atrás pelo governo – um prédio de concreto, pintado de verde-abacate, com cobertura de telhas, janelas com persianas e um vaso sanitário alimentado por água de poço. É na varanda da escola que montamos nossas barracas.

O dia vai ficando cada vez mais quente, e a modorra toma conta da aldeia, rompida de vez em quando por brigas de cães e galos ensaiando o canto para a aurora do dia seguinte. O ngobe, a casa dos homens, está vazio. Na beira do kapôt, a praça central, as mulheres sentam-se à sombra de mangueiras e palmeiras, abrindo castanhas e preparando os peixes, embrulhados em folhas e assados em brasas. Algumas partem para os terrenos abertos na mata com queimadas, onde cultivam mandioca, banana e batata-doce. Um caçador sai da floresta, cantando alto, segundo o costume caiapó de anunciar a busca bem-sucedida dos cágados – as tartarugas de água doce que constituem um elemento vital na dieta da aldeia. No final da tarde, o calor amaina. Um grupo de jovens guerreiros se esfalfa num disputado jogo de futebol. Cerca de 20 mulheres com colares de contas coloridas em torno do pescoço e bebês nos quadris se reúnem no kapôt e começam a marchar juntas, entoando cantos. Meninos com estilingues atiram pedras em batuíras e andorinhas. Famílias inteiras esgueiram-se até o Iriri para os costumeiros banhos no crepúsculo – como há jacarés no rio, eles preferem não demorar muito na água, cada vez mais escura. A 8° ao sul da linha do Equador, o Sol, de tom laranja- avermelhado, se põe rapidamente. Os bugios berram acima do zumbido monótono das cigarras, e os cheiros da terra pairam no ar noturno.

Reconhecimento das terras caiapós

À PRIMEIRA VISTA, Kendjam parece uma espécie de paraíso. Talvez seja. Mas nem de longe isso significa que a história do povo caiapó seja um idílio bucólico, sem as perseguições e as enfermidades que devastaram quase todas as tribos indígenas nas Américas do Sul e do Norte. Em 1900, 11 anos após a proclamação da República do Brasil, a população caiapó contava cerca de 4 mil indivíduos. À medida que garimpeiros, madeireiros, seringueiros e lavradores infiltravam-se na floresta, organizações missionárias e agências públicas iniciaram programas de “pacificação” dos índios, atraindo-os com presentes como panos, caçarolas, facões e machados. Com frequência, esses contatos tiveram como efeito colateral a transmissão de sarampo e de outras doenças para gente que não tinha imunidade natural. No final da década de 1970, pouco depois da abertura da rodovia Transamazônica, os caiapós estavam reduzidos a não mais que 1,3 mil indivíduos. Na luta pela autonomia e pelo controle de suas terras, os caciques daquela época aprenderam português e foram capazes de obter o apoio de organizações conservacionistas e de celebridades, como o cantor Sting, que chegou a viajar com o chefe Ropni (mais conhecido como Raoni). Em 1988, os caiapós contribuíram para que os direitos dos índios fossem incluídos na nova Constituição e, afinal, conseguiram o reconhecimento jurídico do seu território. Em 1989, protestaram contra a construção da barragem de Kararaô, no rio Xingu, que levaria à inundação de parte dessas terras. O projeto original, que previa a construção de seis barragens na bacia fluvial, foi abandonado após manifestações nas quais ambientalistas se juntaram aos caiapós, culminando no evento que ficaria conhecido como Encontro de Altamira. “Na reunião de 1989, nessa cidade paraense, as lideranças caiapós realizaram uma brilhante tradução de sua tradição guerreira para o contexto do espetáculo midiático do século 20”, comenta o antropólogo Stephan Schwartzman, do Fundo de Defesa Ambiental. “Conseguiram mudar os termos da discussão.”

A população dos caiapós cresce com rapidez. De espingardas de caça a páginas no Facebook, eles demonstram uma engenhosa capacidade de adotar tecnologias e práticas da sociedade capitalista ao redor sem, contudo, comprometer a sua cultura. Com a ajuda do notável antropólogo e especialista em cultura caiapó Terence Turner, da Universidade Cornell, começaram a usar câmeras de vídeo para registrar cerimônias e danças e gravar os contatos com funcionários públicos e autoridades. Para o desalento de alguns conservacionistas, vários chefes de aldeias estabeleceram parcerias com empresas mineradoras de ouro na década de 1980 e, na década seguinte, venderam concessões para a retirada de mogno da floresta – alianças das quais os caiapós viriam a se arrepender e que quase já não existem mais.

Acima de tudo, os caiapós aprenderam a se organizar e evitar o relacionamento por vezes conflitivo entre eles próprios a fim de atuarem todos em função de propósitos comuns. Em consequência disso, talvez constituam hoje a mais poderosa e rica das 240 etnias indígenas que restam no Brasil. As cerimônias, os sistemas de parentesco, a língua gê, o conhecimento da floresta e a concepção caiapó da continuidade entre os seres humanos e o mundo natural continuam todos intactos. E, talvez o mais crucial, eles preservaram suas terras. “Os caiapós não estão entrando no século 21 como um povo derrotado. Não estão se degradando”, diz Barbara Zimmerman. “Eles não perderam o senso de quem são.”

Pelo menos por enquanto. Uma coisa é transmitir as habilidades e os rituais da cultura tradicional. Outra é incutir a convicção de que saber preparar o veneno na ponta das flechas (com ervas e peçonha de serpente mescladas a cera de abelha), empilhar as tartarugas ou atordoar os peixes com a falta de oxigênio provocada pelo cipó-timbó pode ser algo valioso para uma geração fascinada por iPhones e pela facilidade dos alimentos comprados em supermercados. O interesse pelas vestes tradicionais, objetos com contas e práticas ancestrais continua forte em Kendjam, mas não é generalizado. Mesmo se fosse, as ameaças do mundo externo são assustadoras.

“O governo brasileiro está tentando aprovar leis segundo as quais os povos indígenas não precisariam ser consultados quando os seus rios tiverem de ser usados na geração de eletricidade, quando houver minérios a extrair de suas terras ou mesmo quando os limites dessas terras tiverem de ser refeitos”, comenta Adriano “Pingo” Jerozolimski, diretor de uma organização sem fins lucrativos que representa 22 aldeias caiapós. Em junho passado, na aldeia de Kokraimoro, 400 líderes caiapós declararam sua oposição a uma avalanche de decretos, dispositivos legais, projetos de lei e propostas de emendas constitucionais que iriam restringir a capacidade deles de controlar as terras em que vivem e impedi-los, assim como outros grupos indígenas, de ampliar o seu território. Tais medidas são vistas por muitos como parte de uma iniciativa para permitir que os interesses de mineradoras, madeireiras e fazendeiros se sobreponham aos direitos dos indígenas, hoje garantidos pela Constituição. Entre as diversas facetas desse confronto político, talvez a mais dilacerante no momento seja o esforço para bloquear um projeto que os caiapós consideravam ter frustrado mais de duas décadas atrás. O projeto da barragem de Kararaô ressurgiu, agora com outro nome: Belo Monte.

NG - PUKATIRE, o líder da aldeia de Kendjam, pinta o corpo com tinta feita de frutos, castanhas e carvão.

Martin Schoeller

PUKATIRE, o líder da aldeia de Kendjam, pinta o corpo com tinta feita de frutos, castanhas e carvão - Foto: Martin Schoeller

EM NOSSO SEGUNDO DIA na aldeia de Kendjam, vamos até o rio Iriri acompanhados de dois exímios caçadores caiapós: Okêt, 25 anos, pai de três meninas e quatro meninos, e Meikâre, 38, com dois meninos e cinco meninas. (Nas aldeias, a divisão de trabalho segue a tradição: os homens caçam e pescam e as mulheres cozinham, plantam e colhem frutos e castanhas.) Meikâre usa braçadeiras de contas verdes e amarelas e uma comprida pena azul presa a uma faixa na cabeça. Saímos em dois botes de alumínio motorizados, aptos para navegar por águas rasas na estação seca. Em alguns pontos, o rio está negro e parado, como um espelho à meia-noite.

Ao chegarmos a um trecho mais largo, com jeito de baía, Okêt segue para uma área aberta na margem oeste do Iriri e desliga o motor. Saltamos e trepamos com dificuldade pelo barranco. Okêt e Meikâre deslizam para dentro da mata: o primeiro levando uma espingarda e o outro com arco e flechas no ombro. Depois de cinco minutos de me esquivar, esgueirar e retorcer em meio a uma confusão de fetos espinhosos e troncos caídos, parando a todo instante para me desvencilhar de cipós e convencer as minhas glândulas adrenais de que não há nenhuma surucucu peçonhenta escondida nos montinhos de folhas, já não tenho a menor ideia de onde ficam o leste e o oeste, nem mesmo a direção em que está o rio. Tampouco sei como voltar sozinho ao barco.

Começamos a seguir um débil rastro de caça. Meikâre aponta para o excremento de um caititu, um porco selvagem pequeno, e depois, afastando-se um pouco da trilha, para uma área pisoteada na qual o animal havia dormido. Era algo tão óbvio para Meikâre como seria para mim achar a seção de carne congelada no mercado perto de casa. Ele e Okêt saem correndo. Quinze minutos depois, soa um disparo, seguido por outros dois.

Quando os alcanço, o caititu jaz morto sobre um leito de folhas. Meikâre improvisa uma corda com fibras de um tronco e amarra os pés do porco. Em seguida retira outro pedaço de casca de árvore, no formato de cinto, prendendo-o nas pernas dianteiras e traseiras do caititu. Com isso, pode colocar o animal nos ombros, fazendo a carga de 14 quilos parecer tão leve e natural quanto um xale de caxemira.

Os caiapós que haviam ficado na aldeia passam o tempo ocupados em pescar. Primeiro bloqueiam os orifícios de fuga de um ninho de grilos-toupeiras em um banco de areia e depois cavam até capturar um punhado desses insetos, usados como isca na pesca de perigosas piranhas, que, por sua vez, são cortadas sobre um remo de mogno – seus nacos de carne são boas iscas para atrair tucunarés e piabanhas. Em uma fogueira à beira do rio, eles assam os peixes em espetos de galhos recém-cortados.

No meio da tarde, voltamos a Kendjam, navegando contra a correnteza do rio. Meikâre reclina-se na proa, as costas apoiadas no remo de mogno, os pés erguidos, as mãos sob a cabeça, fitando a água hipnótica como alguém que estivesse retornando de trem ao subúrbio após trabalhar o dia todo no centro da cidade.

NG - Dois índios degustam um tucunaré que acabaram de pescar

Martin Schoeller

Dois índios degustam um tucunaré que acabaram de pescar - Foto: Martin Schoeller

Nessa noite, o chefe Pukatire vem ao nosso acampamento com uma lanterna. “As únicas coisas que precisamos da cultura branca são as sandálias de borracha, as lanternas e os óculos”, comenta ele. Fico me perguntando se haviam lhe contado sobre a habilidade que pouco antes eu revelara ao me enfronhar na floresta, pois ele comenta que tinha um novo nome para mim: “Rop-krore”, o termo que os caiapós usam para referir-se à onça-pintada. Era evidente que ele estava de bom humor – e ninguém teria adivinhado que dois de seus filhos haviam morrido de malária pouco após a fundação de Kendjam.

De acordo com os registros da aldeia, Pukatire nasceu em 1953, e ali também constam os nomes de sua mulher, da filha única do casal (hoje com 38 anos) e dos três netos. Ele próprio conta que nasceu junto ao então povoado de Novo Progresso – hoje um município –, a oeste de Kendjam, antes mesmo do contato com o mundo externo. Quando a aldeia de Pukatire foi atacada por caiapós da aldeia de Baú, a sua mãe e a sua irmã bebê foram mortas. Pukatire e o irmão foram levados e criados em Baú. Pukatire devia ter 6 ou 7 anos, segundo ele, e só quando estava com 12 ou 13 anos reencontrou o pai. “Ficamos muito contentes. E choramos”, diz.

Pukatire aprendeu um pouco de português com os missionários e acabou sendo recrutado, entre outros, para ajudar na iniciativa de pacificação empreendida pelo Serviço de Proteção ao Índio, órgão precursor da Fundação Nacional do Índio (Funai), que hoje cuida dos interesses dos povos aborígines do Brasil. “Antes do contato com os brancos, estávamos nos matando a porretadas e todo mundo vivia apavorado”, conta ele. “Não há dúvida de que hoje as coisas estão bem melhores. Ninguém mais fica arrebentando a cabeça do outro com bordunas.”

Choque de culturas

No entanto, da boca de Pukatire também ouço um lamento comum: “O que me preocupa mesmo são os jovens que imitam os brancos, cortando o cabelo e usando brinquinhos idiotas como os dos garotos da cidade. Nenhum deles sabe mais como fazer veneno para as flechas. Em Brasília, sempre dizem aos caiapós que eles vão acabar perdendo a sua cultura e que não adianta resistir. As lideranças precisam ser mais incisivas e dizer aos jovens: ‘Vocês não podem usar coisas dos brancos, que os brancos fiquem com a cultura deles, e nós com a nossa’. Se começarmos a imitar demais os brancos, eles não vão mais ter medo da gente e logo estarão aqui, tomando tudo o que temos. Porém, enquanto preservarmos as nossas tradições, vamos continuar sendo diferentes e, enquanto formos diferentes, eles vão ter um pouco de medo da gente”.

Está ficando tarde. Pukatire levanta e nos deseja boa-noite. O dia seguinte vai ser importante. O chefe caiapó Mekaron-Ti e o grande Raoni, que décadas atrás viajou pelo mundo em defesa da floresta, virão a Kendjam para retomar a luta contra a barragem no rio Xingu.

A ameaçda da usina hidrelétrica de Belo Monte

APÓS QUATRO DÉCADAS de projetos que remontam ao período da ditadura militar – estudos, protestos, revisões de planos, sentenças judiciais, contestações, bloqueios, apelos internacionais, um filme dirigido pelo americano James Cameron, de Avatar, e processos judiciais –, por fim as obras da usina hidrelétrica de Belo Monte tiveram início em 2011, ao custo previsto de 14 bilhões de dólares. O complexo de canais, reservatórios, diques e duas barragens está localizado 500 quilômetros ao norte de Kendjam, no Xingu, bem no local em que o rio faz uma gigantesca curva, conhecida como Volta Grande. O projeto, que terá a capacidade máxima de geração de 11 233 megawatts e cujo início de funcionamento está previsto para 2015, divide o país. Seus defensores o consideram uma maneira de produzir energia necessária para o desenvolvimento, enquanto ambientalistas o condenam como um desastre social, ambiental e financeiro.

Em 2005, o Congresso aprovou a retomada do projeto com a justificativa de que a energia ali gerada seria essencial para a segurança energética do país, que passava por um crescimento acelerado. Os caiapós e outros povos indígenas afetados pelo complexo hidrelétrico reuniram-se em Altamira em 2008. Um engenheiro da Eletrobrás, a empresa de energia estatal, foi atacado e sofreu um “corte profundo e sangrento no ombro”, segundo notícias da época. Alegando a deficiência dos estudos de impacto ambiental e a falta de consulta aos povos indígenas da região, o Ministério Público Federal abriu uma série de processos judiciais para interromper o projeto, gerando confrontos no próprio âmbito do governo. Tais processos acabaram chegando ao Supremo Tribunal Federal, mas as sentenças definitivas foram adiadas, e com isso a construção de Belo Monte recebeu autorização para seguir adiante.

Mesmo um complexo formado por apenas duas barragens terá um impacto enorme na bacia do rio Xingu, devido à abertura de estradas e ao afluxo de estimados 100 mil trabalhadores e migrantes. As barragens vão inundar uma área de 600 quilômetros quadrados. De acordo com as previsões oficiais, 20 mil pessoas serão deslocadas – as estimativas independentes sugerem uma quantidade até duas vezes maior de afetados. O gás metano gerado pela vegetação inundada será equivalente às emissões de gases do efeito estufa por usinas termelétricas a carvão. E o desvio de cerca de 80% da água ao longo de um trecho de 100 quilômetros do Xingu vai ressecar áreas que dependem de inundações periódicas e abrigam espécies ameaçadas de extinção.

“Mas o crucial é o que vem a seguir”, afirma o antropólogo Stephan Schwartzman. “Oficialmente, apenas o projeto de Belo Monte vai ser levado adiante. Mas a proposta original previa cinco outras barragens e há dúvidas se, mais tarde, o governo vai dizer: olha, precisamos construir também as outras barragens.”

NG - ROPNI, ou Raoni, um líder conhecido no mundo todo, é um dos poucos que ainda usam o tembetá no lábio.

Martin Schoeller

ROPNI, ou Raoni, um líder conhecido no mundo todo, é um dos poucos que ainda usam o tembetá no lábio - Foto: Martin Schoeller

NA MANHÃ DA CHEGADA dos grandes chefes a Kendjam, mulheres caiapós, com os seios descobertos, mas vestindo calcinhas escuras e colares de contas coloridas, fazem o que parece ser um ensaio geral, cantando e marchando ao redor do kapôt. Por volta de 4 da tarde, o ruído de avião atrai uma multidão até a pista de pouso.

Raoni e Mekaron-Ti saltam da aeronave acompanhados de um terceiro chefe, Yte-i, de uma aldeia do sul. Raoni é um dos cinco líderes caiapós que ainda usam o tembetá, um adorno no lábio – uma rodela de mogno, do tamanho de uma rosquinha, e que alarga o lábio inferior. Traz uma borduna, com o formato de espada medieval. Assim que desce do aparelho, uma mulher se aproxima, agarra-lhe a mão e rompe em soluços. Raoni parece não se abalar mas, a seguir, começa também a chorar. Esse pranto angustiado não se deve a nenhuma catástrofe recente: é um tipo de ritual de luto por amigos mútuos falecidos.

Nessa noite, na casa dos homens, Raoni dirige-se aos moradores, saltando as oitavas com a entonação deslizante da fala caiapó. Ele soca o ar com os punhos e bate no solo com a borduna: “Não gosto de ver os caiapós imitando os brancos. Não gosto dos garimpeiros. Não gosto dos madeireiros. Não gosto nada dessa represa!”

Um dos objetivos de sua vinda a Kendjam é saber se os chefes das aldeias na região leste das terras estão recebendo dinheiro da Eletrobras. Caixas com motores de popa novos, de 25 HP, estão empilhadas na varanda da sede da Associação da Floresta Protegida. No sul, a aldeia de Raoni e outras recusaram as ofertas de dinheiro da Eletrobras, um dinheiro que, segundo os ativistas, era uma tentativa de enfraquecer a oposição indígena à usina de Belo Monte. O consórcio responsável pela construção da barragem continua a investir em poços, postos de saúde e estradas na área e também paga a uma dúzia de aldeias próximas uma ajuda mensal no valor de 30 mil reais para a compra de comida e suprimentos.

Os primeiros encontros com as sebentas notas de papel-moeda levaram os caiapós a cunhar um termo expressivo para o dinheiro: pe-o caprin, “folhas tristes”. Elas passaram cada vez mais a fazer parte da existência cotidiana da tribo, sobretudo nas aldeias próximas dos povoados brancos mais avançados na floresta. Na aldeia caiapó de Turedjam, perto da cidade de Tucumã, a poluição resultante do desmatamento e da criação de gado destruiu as áreas de pesca, e não é incomum ver caiapós em supermercados, comprando sabão e frango congelado.

NG - MEKARON-TI, o grande líder, fala português e é um indômito defensor de seu povo.

Martin Schoeller

MEKARON-TI, o grande líder, fala português e é um indômito defensor de seu povo - Foto: Martin Schoeller

DURANTE TRÊS NOITES, Pukatire leva Raoni, Mekaron-Ti e Yte-i às nossas barracas, e ali, na varanda da escola, eles ficam fumando cachimbo, tomando café e contando histórias, enquanto morcegos volteiam ao redor da luz fraca de uma lâmpada fluorescente. “Nos velhos tempos, havia homens de verdade”, diz Raoni. “Eles eram criados para a guerra e não tinham medo de morrer. Não tinham medo de enfrentar armas de fogo com arcos e flechas. Essa foi a minha formação: a tradição do guerreiro. Nunca tive medo de dizer aquilo em que acreditava. Nunca me senti humilhado diante dos brancos. Eles precisam nos respeitar, mas nós também precisamos respeitá-los. Os caiapós vão lutar de novo se forem ameaçados, mas sempre aconselho o meu povo a não sair por aí buscando briga.”

Então grita para que lhe tragam mais café e, claramente agitado, leva a sua caneca para a ponta da varanda, longe do círculo de cadeiras escolares onde estamos sentados. Fica ali por muito tempo, com os olhos perdidos na escuridão.

No dia da partida dos caciques, diversos papéis precisam ser assinados – documentos da Funai autorizando questões que haviam discutido. Mekaron-Ti, tão experiente no mundo dos brancos quanto no mundo da floresta, assina seu nome com a facilidade de alguém que tenha feito isso a vida toda. Raoni, contudo, segura a caneta de modo canhestro. É estranho vê-lo lutar com as letras do próprio nome, sabendo da experiência esotérica que guardam as suas mãos – toda a habilidade com que trança um cinto com fibras de palmeira, introduz um tembetá no lábio, transforma uma cauda de raia em ponta de flecha ou mesmo sustenta uma argumentação que ajuda a garantir o futuro do seu povo. No vale do Xingu, não é nada fácil topar com outras mãos tão hábeis. Mas, no domínio do uso dos instrumentos mais simples da escrita, o grande chefe não se distingue de uma criança.

Seis meses depois, 26 chefes caiapós reúnem-se na cidade de Tucumã e assinam uma carta na qual recusam outras ofertas de dinheiro do consórcio que constrói a barragem: “Nós, o Povo Mebengôkre Caiapó, decidimos não aceitar nem um centavo desse dinheiro sujo. Não aceitamos a obra de Belo Monte nem de nenhuma outra barragem no Xingu. Nosso rio não tem preço, assim como a felicidade dos nossos netos não tem preço. Jamais vamos deixar de lutar. O Xingu é o nosso lar e vocês não são bem-vindos aqui”.

Futuro incerto

DE ALGUM MODO, a notícia circulou. O cara-pálida sem buracos nas orelhas está a caminho do monte Kendjam. Sou eu. São 2 e meia da tarde e, antes que o nosso grupo chegue à metade do trajeto até a pista de pouso, estamos já acompanhados de um bando de crianças, uma dúzia delas, um grupo de meninos e meninas adolescentes e pré-adolescentes de rostos pintados, carregando água em velhas garrafas de refrigerante. Há até um esfuziante garotinho de não mais de 4 anos: descalço e livre da supervisão dos pais, sempre atentos para que não se perca, atacado por uma onça, mordido por uma serpente ou ferido nos espinhos, existentes em quase todas as plantas.

O menino está apenas de calção – em acentuado contraste comigo, de botas, chapéu, calças compridas, óculos escuros, lambuzado de protetor solar fator 3 milhões e com três faixas na cabeça para absorver bíblicas torrentes de suor. Caminhamos em fila única por um tempo, e então as crianças nos ultrapassam, enxameando ao redor de uns arbustos altos.

Depois de 45 minutos, a trilha começa a subir. A rocha cinzenta do monte avulta mais acima: paredões íngremes, sem fendas e rachaduras óbvias. Os lados norte, sul e oeste parecem impossíveis de serem escalados, mas o lado leste é um decline suave, que se confunde com a floresta. Os adolescentes riem e conversam durante a subida, pulando troncos e balançando-se em cipós. Uma picada ziguezagueia e atravessa uma fenda na qual todos precisam se içar sobre um matacão.

Por fim, uma rampa comprida conduz ao domo no alto. Todas as crianças já se encontram no topo, tendo ao fundo o céu azul-leitoso. Resfolegando, dou os últimos passos na direção deles. As crianças ainda correm de um lado para o outro, aproximando-se do vazio, bem onde a rocha tomba verticalmente por 150 ou 180 metros, talvez mais. Não há, é claro, nenhum corrimão, nenhuma preocupação com os riscos, nada de supervisão adulta. O menino de 4 anos se diverte à beira do abismo, rindo feliz, como se esse fosse o dia mais maravilhoso do ano.

Quando todos começamos a voltar, ele sai correndo na frente, e eu me vejo pensando sobre a noite em que os chefes foram embora, quando um dos guias, Djyti, veio nos visitar e fizemos a ele uma pergunta crucial. “É possível ser caiapó e não viver na floresta?” Djyti ficou um instante a matutar e disse que não. Então, como se contemplasse algo inconcebível, ele acrescentou: “Você continua sendo caiapó, mas sem a cultura”.

No passado, alguns antropólogos consideravam que não havia nada mais importante do que a pureza cultural. No entanto, as culturas evoluem de maneira oportunista, tal como as espécies – os indígenas das Grandes Planícies da América do Norte, por exemplo, adotaram dos espanhóis os cavalos com os quais seriam identificados para sempre. As culturas tradicionais fortes fazem de tudo para se preservar, realizando as adaptações necessárias para assegurar o seu futuro. Podemos nos perguntar se um indivíduo com um cocar de penas de papagaio e protetor de pênis é de fato mais valioso do que outro trajando calção de ginástica e camiseta com a cara do Batman. Porém quem iria lhes negar o valor do conhecimento da fauna e flora da floresta – ou a importância crucial de contarmos com água limpa, ar sem poluição e com o tesouro cultural e genético da própria biodiversidade?

Um dos aspectos mais complexos e irônicos da Amazônia é que os forasteiros supostamente civilizados que ali passaram cinco séculos catequizando, espoliando e trucidando os povos aborígines agora estão recorrendo a esses primeiros habitantes da região para preservar os ecossistemas considerados essenciais para a saúde do planeta – para defender a mata virgem restante do insaciável apetite do mundo desenvolvido.

Meu amiguinho de 4 anos volta correndo por todo o caminho até a sua choça muito antes de eu me esfalfar rumo ao trecho mais fácil perto da pista de aviação. Já está quase escurecendo. Talvez a sua mãe o tenha colocado diante de uma TV para assistir ao vídeo de um ritual caiapó ou a mais um capítulo da telenovela. Talvez para ele o dia não tenha sido nada de extraordinário, sem nada de memorável a distingui-lo dos outros dias. Ainda assim, é difícil imaginar uma vida mais perfeita para um menino dessa idade do que a liberdade de um caiapó em suas terras.

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