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Edição 10/Fevereiro de 2001 02/12/2011

Vidas em conflito

A Indonésia busca um caminho para a paz, após décadas de ditadura política e movimentos separatistas

por Tracy Dahlby Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Alexandra Boulat

Curandeiro na Indonésia

Alexandra Boulat

Na Ilha de Siberut, na Indonésia, a iniciação de um curandeiro requer noites de danças e cantos. 

A noite caiu rápida sobre a enseada em Bitung, no extremo nordeste de Sulawesi, e o campo de refugiados, uma antiga fábrica de ratã, estava quente e úmido como uma estufa. Reunidos à luz ofuscante de uma lâmpada pendurada no teto, cristãos contavam como haviam perdido suas casas em Ternate, nas vizinhas Molucas.

“Os muçulmanos queimaram nossas casas!”, diz um sargento reformado do Exército. “Destruíram nossas igrejas!”, faz coro o professor de inglês da aldeia. “Fomos massacrados!”

Nunca antes ocorrera tamanha comoção nessa cidade na encosta da colina, com suas casas e seus jardins bem cuidados, mas isso é parte de uma doença maior que vem se alastrando de ilha em ilha no leste da Indonésia. Durante décadas, essa região, conhecida como ilhas das Especiarias, havia se orgulhado de suas comunidades mistas de muçulmanos e cristãos como modelos de convivência pacífica entre crenças distintas. Em janeiro de 1999, porém, a área mergulhou em uma guerra primitiva e agora ninguém consegue explicar os milhares de mortos e mais meio milhão de pessoas desalojadas.

O militar aposentado Anton Letsoin afirmou que os problemas em Ternate começaram quando uma carta escrita em papel com timbre forjado da igreja circulou entre os muçulmanos da ilha. Convencidos de que uma “falange cristã” estava se organizando para atacá-los, eles se reuniram na mesquita local. Ali uma testemunha declara ter entreouvido de seus vizinhos um brado aterrador: “Procurem os obets” – termo que designa os cristãos – “e acabem com eles!”

Quem forjara aquela carta? Para os refugiados, poderiam ter sido manipuladores políticos locais, grupos paramilitares ou, talvez, gângsteres de Jacarta que tentavam lucrar semeando a discórdia. Ninguém queria acreditar que a causa fosse a religião. “Estávamos vivendo em paz”, lamenta o professor. “Nunca tinha existido o ódio religioso entre nós!”

Esse é o mistério da Indonésia atual. Três anos depois do colapso econômico que encerrou o governo de 32 anos do ex-presidente Suharto (que, como muitos indonésios, usa apenas um nome), o quarto país mais populoso do mundo fervilha com conflitos religiosos e étnicos tão disseminados que até os indonésios têm dificuldade para entender suas causas. Seu arquipélago em forma de âncora estende-se por 5 mil quilômetros e contém 6 mil ilhas habitadas por 225 milhões de pessoas, por sua vez divididas pela religião (muçulmana, cristã, hindu e budista), pela etnia (cerca de 300 grupos com línguas distintas) e pela água (quatro quintos da área total do país).

Em 1998, o colapso do governo Suharto, corrupto e infestado por uma rede de comparsas, abriu caminho para o primeiro governo eleito democraticamente na república em 40 anos, criando uma oportunidade para a reconstrução de suas instituições políticas e econômicas. Todavia, a mesma onda de resolução popular que expulsou Suharto também extinguiu os controles férreos com os quais ele continha a agitação social. Agora que as comportas se abriram, explica um diplomata ocidental em Jacarta, “está havendo um trauma colossal e um choque de placas tectônicas mentais” que pode levar à cisão do país.

A situação tornou-se especialmente tensa em agosto de 1999, quando cerca de 700 mil habitantes de Timor Leste, a metade oriental de uma ilha pobre e remota, votaram pela independência. Ainda que o caso da ex-colônia portuguesa seja especial (sua anexação pela Indonésia em 1976 nunca foi reconhecida pela ONU), o referendo patrocinado pelas Nações Unidas desencadeou uma sanguinolenta reação por parte dos militares indonésios e suas milícias, adeptos do uso do terror para manter os timorenses na linha. Embora representasse uma parte ínfima da economia indonésia, a perda do território acentuou o temor de que regiões maiores, mais ricas e politicamente rebeldes – como a província de Aceh, em Sumatra, e a remota Irian Jaya – poderiam levar adiante seus desejos separatistas.