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Edição 126/Setembro de 2010 02/12/2011

Pequenas joias

Coloridos e adaptáveis, os ovos de insetos mostram sua arte em um inédito ensaio

por Rob Dunn Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Sempre nos iludimos. Imaginamos que a Terra seja nossa, mas o fato é que o planeta pertence aos insetos. Mal começamos a contar as suas espécies. Novas formas aparecem até nas cidades, quando mudamos de lugar um pedaço de madeira no quintal, por exemplo. E nunca são iguais. Eles seriam como extraterrestres entre nós, exceto que, vistos de qualquer distância, nós é que somos inusitados, estranhos a seus modos de vida.

Costumamos falar da era dos dinossauros ou da era dos mamíferos, mas, desde que o primeiro animal começou a andar sobre a terra firme, todas as épocas foram, seja de qual perspectiva for, também dos insetos. Enquanto os monstros vertebrados surgiram, prosperaram e se extinguiram, os insetos continuaram se acasalando, pondo ovos e, com isso, povoando todos os terrenos úmidos, árvores e trechos de solo. Eles são, na verdade, o sal da terra.

De certa forma, sabemos o que torna os insetos diferentes. Outros animais primitivos, como aves, répteis e mamíferos, alimentam e protegem os membros mais jovens. De maneira geral, porém, os insetos deixaram de lado essas antigas tradições em favor de uma vida mais moderna.

Os insetos desenvolveram ovos rígidos e, com eles, um apêndice específico, um ovipositor, que alguns usam para depositar seus ovos nos interstícios da terra. Basta virar uma pedra para encontrá-los. Levante um pedaço de madeira e lá estão eles. Enquanto as aves se empenham na procura de locais para seus ninhos, os insetos desenvolveram a capacidade de transformar qualquer coisa - madeira, folhas, sujeira, água e até corpos (especialmente corpos) - em viveiro para seus filhotes. Se há uma única característica responsável pela diversidade e pelo êxito dos insetos, trata-se do fato de que podem abandonar seus filhotes em qualquer lugar e, mesmo assim, eles sobrevivem - e isso se deve a esses ovos.

Ovo de inseto: o ovo da borboleta-flambeau na gavinha de um maracujazeiro

Martin Oeggerli

Os ovos de insetos começaram de maneira singela, macios e redondos, mas, ao longo de 300 milhões de anos, acabaram se diversificando tanto quanto os diferentes ambientes em que reinam. Quando topamos com eles, à primeira vista podemos não ter ideia do que temos diante dos olhos. Os formatos são dotados de ornamentos e aparatos. Alguns se deixam levar pelo vento ou aderem ao dorso das moscas. Eles são tão coloridos quanto pedras semipreciosas. Espinhas, manchas, hélices e listras são comuns. Mais que a biologia, o desenho deles sugere a obra de um artista obsessivo em meio a formas minúsculas. São trilhões de obras magistrais da seleção natural, e no interior de cada uma delas há um animal esperando um sinal para sair pelo mundo.

O funcionamento básico, contudo, é o mesmo de qualquer ovo animal. O óvulo desenvolve a casca quando ainda está no corpo da mãe. O espermatozoide precisa achar e penetrar por uma abertura, a micrópila, numa das extremidades do óvulo. O espermatozoide espera no interior da fêmea por essa chance, às vezes durante anos. Um único espermatozoide, exausto mas vitorioso, fertiliza cada óvulo, e dessa união resultam os primórdios indiferençados de um animal no interior de uma membrana similar a um útero. Ali adquirem formato os olhos, a antena, o aparelho bucal e todo o resto. Durante esse processo, a criatura respira através dos aerópilos do ovo, pelos quais penetra o oxigênio e é eliminado o dióxido de carbono. Que tudo isso aconteça em uma estrutura do tamanho de um grão de açúcar mascavo é algo extraordinário e inacreditável. Essa é, no fim das contas, a mesma maneira pela qual começou a vida da maioria dos animais que habitam ou já habitaram o planeta.

O que você está vendo nestas páginas são os ovos de alguns poucos raminhos da árvore genealógica dos insetos. Entre eles estão ovos de borboleta que defrontam dificuldades para se defender dos predadores e, às vezes, das plantas nas quais são postos. Algumas flores de maracujá transformam partes de suas pétalas de modo a que mimetizem ovos de borboleta; as fêmeas de borboleta, vendo aqueles "ovos" ali, acabam indo depositar seus ovos verdadeiros em outras plantas. Essa mimetização é imperfeita, mas a visão das borboletas não é lá muito aguçada.

Vespas e mosquitos parasitoides usam seus compridos ovipositores para introduzir seus ovos no corpo e nos ovos de outros insetos. Cerca de um décimo de todas as espécies de insetos é parasitoide. Esse é um modo de vida bem-sucedido, ameaçado apenas pela existência de espécies hiperparasitoides, que põem seus ovos no interior do corpo dos parasitoides que já estão dentro do corpo ou dos ovos de seus hospedeiros. Muitos ovos de borboleta e lagarta acabam se transformando em vespas devido a essa competição pela vida. Os ovos mortos e preservados aqui exibidos guardam mistérios. No interior de alguns há jovens borboletas, mas em outros podem existir vespas ou mosquitos que consumiram, ao mesmo tempo, a primeira e a última refeição de sua vida.