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Edição 128/Novembro de 2010 02/12/2011

Jane - 50 anos em Gombe

50 anos de Jane Goodall entre os chimpanzés da Tanzânia: um dos mais belos estudos científicos já realizados

por David Quammen Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Na manhã de 14 de julho de 1960, ela chegou a uma praia pedregosa na costa leste do lago Tanganica. Foram seus primeiros passos na então chamada Reserva de Caça Gombe Stream, uma pequena área protegida que o governo colonial britânico havia demarcado nos idos de 1943. Trazia uma barraca, pratos de flandres, uma caneca sem asa, um binóculo tosco, um cozinheiro africano chamado Dominic, e - como acompanhante, por insistência de pessoas que temiam por sua segurança na selva da Tanganica pré-independente - sua mãe. Vinha estudar os chimpanzés. Ou pelo menos tentar. Quem não a conhecia bem apostava em seu fracasso. Mas uma pessoa, o paleontólogo Louis Leakey, que a recrutara para a tarefa em Nairóbi, acreditava que ela podia ter êxito.

Um grupo de moradores acampados na praia perto de redes de pesca recebeu os recém-chegados e os ajudou a descarregar o equipamento. Por volta das 5 da tarde, alguém anunciou ter visto um chimpanzé. "Lá fomos nós", escreveu Jane depois em seu diário. Foi só um vislumbre distante, vago. "Ele se afastou quando alcançamos o bando de pescadores que o fitava. Escalamos a encosta, mas não o vimos mais." Apesar disso, ela registrou um amontoado de ramos curvados e amassados numa árvore próxima: um ninho de chimpanzé. Esse dado, o primeiro ninho, foi o ponto de partida de uma saga, ainda em andamento e completando agora 50 anos, que viria a ser uma das mais importantes da biologia moderna: o contínuo e minucioso estudo do comportamento dos chimpanzés de Gombe, empreendido por Jane Goodall e outros.

A história da ciência registra alguns dos grandes momentos e detalhes icônicos dessa saga, fascinante como um conto de fada. A jovem senhorita Goodall não tinha credenciais científicas quando começou nem ao menos diploma universitário. Era uma brilhante e motivada inglesa, formada em secretariado, que sempre amara os animais e sonhava em estudá-los na África. Provinha de uma família de mulheres fortes, pouco dinheiro e homens ausentes. Suas primeiras semanas em Gombe foram atribuladas, tateando à procura de uma metodologia, perdendo tempo por causa de uma febre que provavelmente era malária, caminhando muitos quilômetros pela selva montanhosa e avistando poucos chimpanzés. Finalmente, um macho idoso, de barbicha grisalha, deu-lhe uma chance - fez um hesitante e surpreendente gesto de confiança. Jane batizou-o de David Greybeard (David, o Barba Grisalha). Em parte graças a ele, Jane fez três observações que abalaram as confortáveis certezas da antropologia física: chimpanzés comem carne (presumia-se que fossem vegetarianos), usam ferramentas (talos de planta para pescar cupim no ninho) e as fabricam (removendo as folhas do caule), sendo esta última uma característica supostamente única da premeditação humana. Foi um avanço enorme na pesquisa científica: cada uma dessas descobertas reduziu ainda mais a diferença percebida entre a inteligência e a cultura do Homo sapiens e do Pan troglodytes.

A observação sobre a confecção de ferramentas era a mais revolucionária das três e causou furor entre os antropólogos, pois uma definição quase canônica da nossa espécie era "homem, o fabricante de ferramentas". Louis Leakey vibrou com a notícia de Jane e escreveu a ela: "Agora vamos ter de redefinir ‘ferramenta’, redefinir ‘homem’ ou aceitar os chimpanzés como seres humanos". Essa frase memorável marcou uma nova fase, fundamental em nossa concepção, do que constitui a essência humana. Outro aspecto interessante a lembrar é que essas três descobertas mais celebradas, independentemente de trazerem mudanças de paradigmas, foram todas feitas por Jane durante seus quatro primeiros meses em campo. Ela decolou rápido.

Jane ganha a confiança dos chimpanzés

Hugo Van Lawick

O mais extraordinário em Gombe, porém, não é o fato de Jane Goodall ter "redefinido" a espécie humana, e sim ter instituído um novo padrão, muito superior, ao estudo do comportamento de grandes primatas na natureza: a ênfase nas características individuais tanto quanto nas coletivas. Jane criou um programa de estudo, um conjunto de protocolos e princípios éticos, um foco intelectual - na prática, ela estabeleceu uma relação entre o mundo científico e uma comunidade de chimpanzés. O projeto Gombe ampliou-se em muitas dimensões, atravessou crises, evoluiu em função de objetivos que nem ela nem Louis Leakey haviam antevisto e por fim adotou métodos (mapeamento por satélite, endocrinologia, genética molecular) e abordou questões que nos levam muito além do campo do comportamento animal. Por exemplo: técnicas de análise molecular, aplicadas a amostras de fezes e urina que podem ser coletadas sem a necessidade de capturar e manusear os animais, trazem revelações sobre as relações genéticas entre os chimpanzés e a presença de germes patogênicos em alguns deles. Uma dilacerante ironia, contudo, ronda o coração desse triunfo da ciência em seu cinquentenário: quanto mais aprendemos sobre os chimpanzés de Gombe, mais razões temos para nos preocupar com sua sobrevivência.

Duas revelações nos últimos tempos, em especial, são inquietantes. Uma envolve a geografia; a outra, doenças. A mais querida e mais bem estudada população de chimpanzés do planeta está isolada em uma ilha de hábitat que é pequena demais para sua viabilidade no longo prazo. E, pior, agora parece que uma versão símia da aids está matando alguns dos primatas de Gombe.

A questão do método de estudo dos chimpanzés e do que se pode inferir das observações de seu comportamento absorve Jane desde o início da carreira. Começou a ganhar foco depois de sua primeira temporada em campo, quando Louis Leakey lhe anunciou sua próxima ideia brilhante: conseguir para Jane admissão em um programa de PhD em etologia na Universidade de Cambridge.

O doutorado parecia despropositado em dois sentidos. Primeiro, Jane não tinha diploma universitário. Segundo, ela sempre desejara ser naturalista ou talvez jornalista - jamais cientista. "Eu nem sabia o que era etologia", me disse Jane pouco tempo atrás. "Demorou até eu descobrir que significava simplesmente o estudo do comportamento." Aceita em Cambridge, ela viu-se em conflito com as certezas então prevalecentes em sua área de estudo. "Fiquei chocada quando me disseram que eu tinha feito tudo errado. Tudo." Jane já tinha 15 meses de dados de campo, a maior parte coletada à custa de paciente observação de indivíduos que ela conhecia pelos apelidos, como David Greybeard, Mike, Olly e Fifi. Essa personificação foi malvista em Cambridge; atribuir individualidade e emoção a animais não humanos era antropomorfismo, não etologia. "Lembrei-me de meu primeiro professor na infância, que me ensinou que isso não era verdade", conta ela. Seu primeiro professor fora seu cachorro, Rusty. "É impossível compartilhar a vida de modo significativo com qualquer tipo de animal dotado de cérebro razoavelmente bem desenvolvido e deixar de perceber que eles têm personalidade." Ela transgrediu a visão predominante - transgredir é uma característica de Jane - e, em 9 de fevereiro de 1966, tornou-se doutora Jane Goodall.