Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

especial fotografia 04/01/2013

João Marcos Rosa: instantes vertiginosos da natureza

Discípulo de Araquém Alcântara, o fotógrafo mineiro de National Geographic superou o medo de altura para registrar harpias a quase 40 metros acima do solo

por Marcela Puccia Braz

João Marcos Rosa desligou a câmera e ficou meia hora em transe. Mesmo sem olhar no visor, teve certeza de que a foto estava lá, a imagem que buscava registrar desde quando começou a documentar harpias há oito anos: um adulto levando, nas enormes garras, um tatu-peba para o filhote comer.

Também chamada de gavião-real, a harpia (Harpya harpyja) é a maior ave de rapina das Américas. Ela é difícil de ser fotografada, apesar de seus 2,5 metros de envergadura e até 1,2 metro de altura. Foi só com alguns anos de experiência que o fotógrafo mineiro de NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL conseguiu capturar esta cena específica do imponente animal, que se camufla muito bem e vive no alto das árvores, o que exigiu de Rosa ficar de 20 a 40 metros acima do solo para registrá-lo.

Mas para entender a importância deste momento é preciso voltar a 2004, ano “divisor de águas” na fotografia de João, quando o jornalista formado se inscreveu para fazer o Curso Abril de Fotografia. Na época, quem analisava os portfólios dos fotógrafos inscritos era Ricardo Correa, então editor de foto das revistas semanais da Editora Abril. “Ele meteu o pau nas minhas fotos. Saí de lá mal, porque meu sonho era fotografar para National. Mas, depois, ele me chamou”, lembra Rosa, que, como se sabe, acabou se tornando um dos fotógrafos da edição brasileira e um dos colaboradores do site.

Então o desafio foi o de abrir uma porta para entrar na revista. João havia conhecido o editor Ronaldo Ribeiro por meio de Araquém Alcântara, um dos mais importantes fotógrafos de natureza do país, com quem trabalhou durante um ano como assistente. Mas o contato com Ribeiro não era suficiente. “Eu precisava ir com alguma história que tivesse a cara da revista e aproveitei essa oportunidade para mostrar o trabalho que fiz sobre bioluminescência no Parque Nacional das Emas, em Goiás. Ninguém tinha conseguido fazer uma foto legal e eu fui lá e fiz.”

A reportagem, publicada em março de 2004, foi comprada pelas edições alemã e americana. “Vi que estava no caminho certo e entrei de cabeça”, conta. Foi quando, em busca da próxima pauta, ele conheceu o “cara das harpias”, o biólogo Benjamin da Luz, que estava terminando o mestrado em arquitetura de ninho de harpias. Encontrar Benjamin foi o marco que deu rumo ao registro da ave na carreira do fotógrafo de 33 anos.

A partir daí, um ano de produção junto ao Programa de Conservação do Gavião-Real (PCGR), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), rendeu a reportagem A rainha das selvas, nas páginas de fevereiro de 2006 de NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL.

“Demora para se encaixar em expedições e para que elas te proporcionem oportunidades. Você é mais um e é um fardo, porque você tá cheio de equipamento, é o cara chato que quer ficar até mais tarde. Mas eu produzo para eles [biólogos] imagens mais técnicas, que ilustram o trabalho deles nas revistas científicas”, explica João, que hoje é membro do projeto.

O maior desafio dele foi (e ainda é) a altura. O bicho escolhe as árvores mais altas e que não tenham conexão com a copa das vizinhas para fazer o ninho. E, na Amazônia, o melhor local no mundo para as populações de harpias, os ninhos podem estar a até 50 metros de altura.

Para ver o animal com o fundo verde, livre da silhueta dos outros bichos, Rosa precisou aprender a escalar para estar mais alto que ele e posicionar o pesado equipamento fotográfico em uma plataforma dobrável.

Comente