Londres, lado B
East London, a “outra Londres”, com sua disparidade cultural e social, prepara-se para virar o centro das atenções durante as Olimpíadas
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Uma população heterogênea passa por Stamford Hill, em Hackney
Alex Webb
Uma população heterogênea passa por Stamford Hill, em Hackney
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O ancoradouro é o lar destes moradores de barcos na rede de canais de East London. Este piquenique acontece no canal Hertford Union, próximo ao local dos Jogos Olímpicos de 2012
Alex Webb
O ancoradouro é o lar destes moradores de barcos na rede de canais de East London. Este piquenique acontece no canal Hertford Union, próximo ao local dos Jogos Olímpicos de 2012
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As “Pearly Queens” Jackie Murphy, a filha Teresa Watts, a sobrinha Sharon Crow e a prima Phyllis Broadbent, de uma tradicional entidade beneficente, cantam em um pub em Leyton
Alex Webb
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No sufoco, mas sobrevivendo, John Cook, vulgo John, o Caçador, captura coelhos nos alagados e os vende em seu “escritório” no pub Anchor and Hope
Alex Webb
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Uma geração mais velha prefere os clubes de bingo Mecca de Hackney, onde as senhoras podem sorver uma cerveja de 2 libras enquanto esperam pelos números sorteados
Alex Webb
Uma geração mais velha prefere os clubes de bingo Mecca de Hackney, onde as senhoras podem sorver uma cerveja de 2 libras enquanto esperam pelos números sorteados
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Os mercados com jeito de feirinha de Whitechapel Road, na área de Tower Hamlets, no East End de Londres
Alex Webb
Os mercados com jeito de feirinha de Whitechapel Road, na área de Tower Hamlets, no East End de Londres, são frequentados por gente que vai lá para comprar e para passear. Ali, um terço da população é bengali
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Fiéis oram em um serviço fúnebre na mesquita turca Süleymaniye, em Shoreditch
Alex Webb
Fiéis oram em um serviço fúnebre na mesquita turca Süleymaniye, em Shoreditch. “Nossos vizinhos nos aceitam e nos veem como membros da comunidade”, diz o diretor Huseyin Hakan Yildirim
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Sibel Beliczynska, cipriota com dois filhos, está desempregada e, até mudar isso, vive do seguro social
Alex Webb
Sibel Beliczynska, cipriota com dois filhos, está desempregada e, até mudar isso, vive do seguro social
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A barbearia A1, na Commercial Road,atende clientes do Paquistão e de Bangladesh
Alex Webb
A salada de East London tem os mais variados ingredientes: jovens, velhos, ricos, pobres, gays, heteros e todos os graus intermediários. A barbearia A1, na Commercial Road,atende clientes do Paquistão e de Bangladesh
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O distrito financeiro de Canary Wharf é um mundo dentro desse mundo que surgiu das docas abandonadas nos anos 1960
Alex Webb
O distrito financeiro de Canary Wharf é um mundo dentro desse mundo que surgiu das docas abandonadas nos anos 1960, quando a navegação se mudou para águas mais profundas rio abaixo
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No fim do dia, jovens profissionais no distrito financeiro de Canary Wharf relaxam tomando um drinque
Alex Webb
No fim do dia, jovens profissionais no distrito financeiro de Canary Wharf relaxam tomando um drinque
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A Noite Gay do bar Joiners Arms acontece na Cordy House, em Shoreditch
Alex Webb
A Noite Gay do bar Joiners Arms acontece na Cordy House, em Shoreditch
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Muitos dos armazéns e fábricas de Hackney Wick, herança do passado industrial da zona leste de Londres
Alex Webb
Muitos dos armazéns e fábricas de Hackney Wick, herança do passado industrial da zona leste de Londres, foram transformados em estúdios e residências para pessoas jovens e criativas como Conrad Steen e Katie Lambert. A conversão comercial desses espaços foi acelerada pela presença próxima do local dos jogos olímpicos de 2012
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Em Haggerston o Centro Comunitário VLC para Refugiados do Vietnã, do Laos e do Camboja oferece, entre outros serviços, aconselhamento relativo a benefícios
Alex Webb
Em Haggerston o Centro Comunitário VLC para Refugiados do Vietnã, do Laos e do Camboja oferece, entre outros serviços, aconselhamento relativo a benefícios, moradia e emprego, além de aulas de inglês, um clube de almoço para idosos e aulas de tai chi
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A luz azulada do crepúsculo suaviza a paisagem de uma travessa de Brick Lane, que já foi um bairro judeu mas hoje abriga muitos imigrantes do sul da Ásia
Alex Webb
A luz azulada do crepúsculo suaviza a paisagem de uma travessa de Brick Lane, que já foi um bairro judeu mas hoje abriga muitos imigrantes do sul da Ásia
Só quando os últimos fregueses limparam da boca os resquícios da torta de carne, quando o último pedaço de geleia de enguia desceu pela garganta e quando a última xícara de chá foi bebida, é que Fred Cooke, dono da “F. Cooke’s – pie and mash shop”, no número 41 da Kingsland High Street, Londres E8 2SJ, virou o cartaz manuscrito à entrada do estabelecimento (que seu avô fundou quando George V assumiu o trono) de aberto para fechado.
“Pode apostar que houve lágrimas”, diz Cooke – um homem atarracado, com cabelo ralo no alto da cabeça que se avoluma em uma onda branca na nuca – sobre esse dia, 11 de fevereiro de 1997, enquanto fita com tristeza a vitrine do museu Hackney. Ali estão expostas a rede que ele usava para pegar enguias no tanque, as panelas de ferver batata para o mash (purê), as formas de aço para as pies (tortas) e as embalagens de papel para viagem, impressas com a marca F. Cooke. Os utensílios de uma empresa familiar de três gerações tornaram-se artefatos de museu.
“Éramos o palácio de Buckingham das pie and mash shops”, conta. O solitário de diamante em sua orelha direita e a pulseira de ouro grossa como uma algema atestam seu status privilegiado. A loja da Kingsland High Street era uma das seis pie and mash shops da família Cooke. A nau capitânia da frota. Mas foi afundada em resposta às mudanças na paisagem social de East London, como é chamada a região leste de Londres.
A torta de purê de batata nadando em molho de salsa verde-néon, e geleia de enguia na tigela, faz parte da cultura esmaecida do operariado branco da área portuária do East End – as docas londrinas foram a porta de saída para o resto do Império Britânico e de entrada para os imigrantes. Hoje, essa população foi substituída por uma onda de imigrantes do subcontinente indiano.
Tudo começou com os huguenotes, protestantes franceses que chegaram, no século 17, ansiosos para se livrar da perseguição religiosa. Nos séculos 18 e 19, vieram os irlandeses, fugindo da fome. Judeus do Leste Europeu que escaparam de pogroms na Rússia foram os seguintes. Hoje o grupo étnico predominante é o bengali, de maioria muçulmana. Eles começaram a imigrar nos anos 1960, por razões econômicas, e agora compõem um terço da população. Mas também há africanos, antilhanos, paquistaneses, indianos, turcos, chineses e europeus orientais.
Na Cambridge Heath Road, no distrito de Bethnal Green, o supermercado Al-Rahman, com seu anúncio de carne halal, está pegado à mercearia polonesa Sklep Mini-Klos, em frente ao Centro de Convivência Mayfield, dirigido por somalis, e fica na mesma rua do luxuoso hotel Town Hall, que tem duas BMW estacionadas na frente e uma suíte premium com diária de 2 500 libras esterlinas (ou 4.000 dólares). Na esquina está o York Hall, onde acontecem lutas de boxe amador, aos sábados, e, a alguns passos, se vê o sempre agitado café Gallery, onde mães com carrinhos de bebê bebem cappuccinos e jovens profissionais se debruçam sobre laptops. Resumindo: East London é uma região na qual crepita a energia, fervilham a diversidade e o consumo, conforme o gosto, o estado de espírito e o bolso.
Cooke lembra que, no passado, eram em torno de 14 ou 15 pie and mash shops no East End. Hoje elas podem ser contadas nos dedos. “East London virou cosmopolita”, afirma Cooke, sem deixar claro se fez um elogio. “O pessoal quer sua ervilha com arroz e seu kebab”, complementa, meio na brincadeira, com uma pontinha de irritação, mas sobretudo com resignação.
As coisas desaparecem. Perdemos o relógio. Esquecemos os óculos. Às vezes elas reaparecem, às vezes são apropriadas por terceiros ou permanecem perdidas. Assim é East London. Uma paisagem de sumiços; ruas inscritas com traços do passado; um emaranhado de miudezas que, alternadamente, desaparecem e então reaparecem de forma diferente. Um refeitório para os pobres dirigido por judeus na virada do século na Brune Street renasceu como condomínio de luxo. Uma igreja protestante francesa do século 18 tornou-se a Grande Sinagoga de Spitalfields, em 1897, e, 80 anos depois, se transformou na mesquita de Brick Lane, atestando aquela lei de Lavoisier de que nada se cria nem se destrói, simplesmente se transforma.
A loja de F. Cooke em Dalston, por exemplo, foi vendida a um empresário chinês, que a rebatizou de Shangai. Em vez de enguia e torta de carne, o menu contém lagosta assada com gengibre e bolinho de carne de porco. “Fiz o possível, mas não adianta dar murro em ponta de faca. Decidi cair fora e aproveitar o resto de minha vida. Mesmo assim, foi uma tristeza”, lamenta Cooke.
Trace uma linha partindo da Tower Bridge pela margem norte do Tâmisa; siga para o leste até o rio Lea; vire para o norte, faça a volta no distrito de Tower Hamlets e parte de Hackney; vá para o sul até as antigas muralhas romanas da City (o centro histórico da Grande Londres) e você terá o clássico East End de Charles Dickens. O mesmo de Jack, o Estripador e dos gângsteres dos anos 1950 e 1960, os irmãos Reggie e Ronnie Kray – que, segundo um morador do East End, “matavam pelas ruas, mas cuidariam de sua mãe”.
Essa é, historicamente, a Londres do outro lado dos trilhos. Sua proximidade com o Tâmisa, aliada à correnteza na direção leste, teve como consequência natural a instalação dos estaleiros e fábricas nessa área rio abaixo. Situadas fora dos muros da City, indústrias nocivas, como curtumes, abatedouros e fundições de chumbo, puderam funcionar com pouca supervisão. O vento soprava do oeste, arrastando o fedor através do East End, longe do perfumado ar do aristocrático West End. A Revolução Industrial e a expansão do Império Britânico sob a rainha Vitória exacerbaram a degradação. A enorme demanda por estivadores espremeu ainda mais moradores operários em uma área inchada pela imigração. As habitações, apinhadas, proliferaram. As más condições de saneamento espalharam doenças. “Um lugar nada aprazível”, comentou Sam Weller em As Aventuras do Sr. Pickwick, de Dickens.
Ao contrário do esplendor homogeneizado da parte oeste de Londres, com seu Parlamento e seus palácios, a paisagem do leste era, e continua sendo, caótica e malcuidada. Há oásis de beleza: a tranquilidade do canal Regent’s, ladeado de casas flutuantes; as alinhadas e caras residências georgianas na Fournier Street, em que vivem expoentes descolados da arte contemporânea britânica, como Tracey Emin e Gilbert & George; o verde do parque Victoria, inaugurado, em 1845, atendendo a uma petição assinada por 30 mil “east-enders”, e também por “west-enders”, que queriam uma barreira contra o ar pestilento do leste. Mas há miséria no brutal concreto das habitações populares, cujos corredores escuros abrigam traficantes de drogas e um cheiro pungente de urina nas escadarias. Há ainda gangues de rua, terrenos com detritos tóxicos de fábricas moribundas, lodaçais cortados por torres de energia e gasodutos enferrujados.
East London cresceu, e hoje inclui os distritos de Newham, Barking e Dagenham, Redbridge, Waltham Forest e Havering. Apesar de mais de um século de regeneração, das novas áreas comerciais e de mais de 170 galerias e museus, além da prosperidade do distrito financeiro do Canary Wharf e dos imponentes arranha-céus da sede de HSBC, Barclays e Citibank, East London ainda é a parte da cidade mais marcada pela privação.
De 1889 a 1903, o cientista social vitoriano Charles Booth publicou uma série de mapas sobre a pobreza em Londres e, com isso, traçou a divisão leste-oeste. No mapa de Booth, o lado oeste de Kensington e Belgravia fulgura com retângulos dourados, denotando as “classes média alta e alta. Ricas”. Já o lado leste é crivado de trechos pretos, sinalizando as “classes inferiores”, e de quadrados azuis, que significam “pobreza crônica”. Um índice atual da privação londrina mostraria coisa bem parecida.
Em 2005, o Comitê Olímpico Internacional escolheu Londres para sediar as Olimpíadas de 2012. A cidade anunciou que usaria os jogos para transformar East London e combater a “pobreza, o desemprego, o despreparo profissional e as más condições de saúde”. O evento seria “uma força para a regeneração”, prometeu Jack Straw, o ministro do Exterior na época.
Em East London, as disparidades de renda são gritantes. Em Bethnal Green, pode-se pedir um enroladinho de salsicha (1,40 libra) e uma xícara de chá (70 pence) e comer às mesas de fórmica e em cadeiras de estofamento de plástico do Hulya’s ou dar um pulo ao outro lado da rua e relaxar na mobília feita à mão do Viajante, um restaurante que ganhou duas estrelas no Guia Michelin por sua lula ao molho tártaro com granita de tinta de lula, seguida de coração e língua de pato com espuma de cogumelo e caldo com especiarias (seis pratos, com vinho à altura, por 115 libras).
“Londres é a capital da desigualdade”, afirma Danny Dorling, professor de geografia humana da Universidade de Sheffield. Para Darling, é como dizem no metrô londrino, “Mind the gap” (literalmente, “Cuidado com o vão”; de modo figurado, atenção para a disparidade).
No leste, é só sair à rua e olhar: vire à direita em Hanbury Street na altura da Brick Lane em direção à Bethnal Green Road, e você verá alguns dos conjuntos habitacionais mais barras-pesadas de Londres. Vire à esquerda, e verá Shoreditch, o lar “very cool” de 300 ou mais empresas de alta tecnologia digital. “Os empreendedores precisam de quatro coisas”, diz Elizabeth Varley, fundadora da TechHub, perto da Old Street, onde criadores de aplicativos e softwares à espera de inventar o próximo produto genial podem alugar um escritório por 3 300 libras ao ano. “Necessitam de energia, de conexão ultraveloz, de café ilimitado e de gente bem criativa a sua volta.”
East London tornou-se um núcleo da alta tecnologia, diz ela, graças aos preços acessíveis, à proximidade com a City e ao “jeitão descolado”. “É uma área de artistas, restauradores e varejistas, gente que quer fazer as coisas a sua maneira.”
Gente, entre outras, como o criador de games para computador David Tenemaza Kramaley, que vendeu seu primeiro produto digital aos 13 anos por 1 000 libras, está empenhado em levantar 300 000 libras para seu próximo empreendimento e acaba de se mudar para um apartamento de um cômodo, sem janela, no subsolo, a cinco minutos do trabalho, pelo qual paga, de muito bom grado, 1 000 libras por mês.
“Gosto de morar aqui, porque é conveniente e facilita os bons contatos”, diz ele. Kramaley, cabeleira preta no estilo Beatle, rosto redondo, deleita-se com o viver perigosamente de sua empresa emergente. “Sei que poderia conseguir um emprego bem pago em codificação ou marketing, mas gosto é de estar no controle de meu destino.” Seu objetivo? “Ganhar 2 milhões de libras.”
“Todo mundo quer adivinhar quem serão os novos imigrantes”, diz Sotez Chowdhury, um bengali de 22 anos organizador do grupo comunitário Shoreditch Citizens. “Se perguntam qual será o próximo grupo étnico, digo: esses são os novos imigrantes. E você não pode dizer que eles não se encaixam.” Chowdhury refere-se aos jovens profissionais que se mudaram para a área atraídos por sua vibração e seu vanguardismo.
Uma noite, caminho pela movimentada Brick Lane, no coração da Banglatown, em companhia de Chowdhury e de sua mãe, Rowshanara, que é terapeuta familiar. A ponta sul da rua, com seus restaurantes de curry (são mais de 50), faísca em néons rosa-flamingo, verde-ácido e amarelo; o ar quase estala com o cheiro de curry, cravo-da-índia e com a música de Bollywood no volume máximo.
Na Woodseer Street, a demografia muda: a Brick Lane dos restaurantes de curry agora é a Brick Lane das butiques, com lojas de roupas vintage, clubes de dança e bares povoados por rapazes de barba rala e garotas de legging e camiseta decotada. O bar e clube de suingue Brickhouse promete naquela semana a cantora burlesca Lady Beau Peep, além da “Safada Sem-Vergonha”, da “Caçadora Peituda” e da “Delícia Pervertida”.
Nisso, um velho conterrâneo bengali atravessa com dificuldade a correnteza de jovens. “Aqui era o nosso bairro”, diz Chowdhury, incomodado com essa cena na moderna Brick Lane. A rua é toda ocupada pela descuidada exuberância de uma geração diferente, com dinheiro para gastar. Pergunto a Rowshanara se aqueles moços têm alguma noção dos problemas sociais que grassam logo na esquina. “Nenhuma”, responde.
“Eu vinha para cá com amigos da universidade”, diz Chowdhury. “Era vibrante. Daqui se veem as luzes do Canary Wharf, mas elas acabam sendo uma ilusão.” Faz uma pausa e seu rosto parece endurecer. “Todos os meus colegas queriam montar um banco de investimento. Nenhum fez isso.”
Em uma dessas cintilantes torres do Canary Wharf, Jerome Frost, chefe de design da Autoridade Pública Olímpica (ODA, na sigla em inglês), a agência responsável pela organização das Olimpíadas, inclina-se para frente sobre a mesa de tampo branco impecável que revela seu gosto pelo moderno. Ele explica a força que move o evento: “Os Jogos Olímpicos representam uma oportunidade única para Londres. Queríamos reinventar, fazê-los mais sustentáveis. A proposta que apresentamos ao Comitê Olímpico foi baseada no que deixaríamos para trás”. “As Olimpíadas do Legado” foi o nome escolhido. A ODA desenvolveu a área: já limpou 2,5 quilômetros quadrados de terras contaminadas, instalou linhas de força no subsolo e aumentou em 80 hectares as áreas de parques. Não se esqueceram nem dos mínimos detalhes ecologicamente corretos: 2 mil tritões foram removidos com cuidado e realojados em uma reserva natural próxima.
Segundo o projeto da ODA, depois dos Jogos Olímpicos, as construções esportivas ganhariam vida nova, tornando-se centros esportivos comunitários. E a vila olímpica seria convertida em um conjunto habitacional para a população – metade reservada a compradores de baixa renda. Os frutos da “regeneração” se espalhariam por toda a área circundante. Aliás, o Westfield Stratford City, um dos maiores centros de compras da Europa, porta de entrada para as Olimpíadas, já foi inaugurado, em setembro de 2011, em Stratford, com 176 mil metros quadrados de lojas de grife.
O projeto impressiona. Mas a apregoada ideia do “legado” foi vista com ceticismo em alguns círculos. “Legado é uma daquelas palavras como ‘exclusivo’ e ‘sensacional’”, diz o londrino Stephen Bayley, crítico de design. “Não se pode criar nenhum legado. Não imagine que grandes prédios podem desfazer um gueto.”
“Vai dar certo desta vez?”, insisti com Jerome Frost. Segundo ele, pelo lado positivo, uma parte do East End foi limpa em tempo recorde e dentro do orçamento, tarefa improvável se fosse deixada para o setor privado. Mas os que vivem ali serão beneficiados? Ou tudo vai acabar como outra Canary Wharf, um apêndice do Vaticano, como definiu um estudioso de questões urbanas, que nada faz além de realçar a divisão econômica? “Se isso não der certo, nada dará”, suspira Frost.
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Fiz essa pergunta ao primo de Fred Cooke Bob, que ainda tem sua pie and mash shop no Broadway Market, um ponto comercial em Hackney. Ele me serve uma tigela com um pedaço de enguia flutuando em um mar de molho verde, e senta-se. É difícil pegar com a colher a enguia escorregadia e, ainda por cima, mordiscá-la.
“Um amigo me disse: ‘Por que você não vende pizza? A moçada adora pizza.’ Falei para ele: ‘Cuida da sua lavanderia, que eu cuido da minha loja de torta’”, conta Bob Cooke, enquanto se levanta e enxuga as mãos no avental de listras azuis.
“Sim, ainda temos fregueses, mas são mais velhos e estão diminuindo. Os yuppies não vêm comer aqui”, diz, enquanto um rapaz alto de rabo de cavalo espia pela porta e vai embora. “Vendo 3 mil tortas por semana”, afirma. “Estamos aqui há mais de 100 anos. Estaremos por mais 100.”
É quase meio-dia. A rua lá fora está abarrotada de jovens vasculhando o Broadway Market, que antes vendia humildes couve, cebola e batata. Eles procuram bolo orgânico de banana e nozes sem glúten, carne de boi Devon com pedigree, azeite trufado... No ar, música e aroma de pão artesanal saindo do forno. Apenas cinco fregueses estão no restaurante comendo pie and mash.
Em East London, você pode ouvir mais de 200 línguas: bengali, gujarati, urdu, tâmil, suaíli, letão, entre outras. A imigração é ouvida, e não apenas vista, mas há sons que já não se escutam, como o iídiche, que foi o idioma franco na Brick Lane na virada do século 20. A comunidade minguou. Pelas mesmas razões que levaram os brancos da classe trabalhadora a se mudar para Essex, a leste, os judeus de East London mudaram- se para o norte, para subúrbios como Golders Green e High Barnet. Era uma questão elementar: subir na vida e mudar-se para um lugar melhor. Até os anos 1950, a Brick Lane foi uma rua comercial de judeus. Hoje, o único vestígio de sua vida passada são duas padarias de bagel.
“Este é meu East End judeu”, diz Mildred Levison, enquanto me mostra o apartamento próximo à Brick Lane, em que ela cresceu durante a Segunda Guerra Mundial. Andamos até o Spitalfields Market, que foi um abrigo antiaéreo e agora está quase irreconhecível de tão sofisticado com suas butiques e seus bistrôs. Mildred, de 72 anos, aposentou-se de uma carreira na área de programas habitacionais públicos e hoje mora no norte de Londres. Ela lembra-se de que pagava 6 pence para usar a casa de banhos pública e que brincava nos escombros dos bombardeios. “A Brick Lane parece diferente, mas estranhamente a mesma, pois meus avós eram imigrantes.” Ela recorda-se da sensação de acolhimento na comunidade. “Já não há mais nada disso.” Faz uma pausa e põe a mão no coração. “Mas está aqui.”
Ainda está aqui, só que com outra aparência. East London continua a ser um incessante chegar e partir, uma marcha humana de quem vai levando a vida como pode. Gerações chegaram com pouco ou nada, construíram um negócio, uma família, uma vida. Ainda que a pobreza continue a mostrar suas garras, é bom lembrar, como diz Alveena Malik, diretora do UpRising, um programa de treinamento de jovens líderes em East London, que “ser economicamente deficiente não significa ser espiritualmente deficiente”.
“Vim de Bangladesh em 1973 para continuar os estudos”, conta Shahagir Bakth Faruk, durante um jantar comigo. “Meu tio pagou a escola, mas eu não tinha dinheiro; por isso, fui trabalhar como balconista em uma loja de eletrônicos na Brick Lane, ganhando 28 libras por semana. Lembro-me de estar sentado em um parque, lendo uma carta de meu irmão. A carta tinha demorado 17 dias para vir lá da minha terra. Minhas lágrimas ensoparam o papel.”
Com o tempo, ele construiu uma vida nova. Começou um negócio, teve êxito. Por duas vezes, foi candidato do Partido Conservador ao Parlamento, representando Bethnal Green e Bow. “Perdi nas duas vezes. O voto em Bethnal Green sempre foi Trabalhista”, lamenta.
Faruk, de 64 anos, tornou-se britânico. Mudou. “Em Bangladesh, se uma moça quer se casar com alguém que não siga a religião muçulmana, a chance de seus pais consentirem é uma em 1 milhão”, diz. “Mas, quando meu filho veio me dizer que queria se casar com uma moça de mãe cristã e pai hindu, não pensei duas vezes. Hoje, meu filho mais novo anda de brinco na orelha. Um amigo meu comentou e repliquei: ‘E daí?’
O celular dele toca. É seu filho casado, quer saber se está tudo bem com ele. “Esta cidade me ensinou uma lição importante”, diz Faruk, guardando o telefone. “A lição da tolerância.”
