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Edição 88/Julho de 2007 02/12/2011

Chaga tropical

Nunca a malária afetou tantas pessoas como hoje, sobretudo nos bolsões de miséria da África, da Índia e da Amazônia

por Michael Finkel Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

John Stanmeyer

imagem do mosquito Anopheles, transmissor da malária

John Stanmeyer

Uma fêmea do mosquito Anopheles transmite o parasita da malária ao sugar o sangue humano

Tudo começa com uma picada indolor. O mosquito chega à noite, pousa em um pedaço de pele exposta e assume a mesma postura agachada, com a cabeça baixa, de um corredor pronto para a largada em uma prova de velocidade no atletismo. Em seguida introduz na pele sua estrutura bucal afilada.

É um mosquito de membros longos e filamentosos, com asas mosqueadas. Pertence ao gênero Anopheles, o único inseto que pode ser portador do parasita da malária. E certamente é um inseto do sexo feminino: os mosquitos machos não têm interesse por sangue, ao passo que as fêmeas necessitam da hemoglobina extremamente protéica para nutrir seus ovos. A estrutura bucal do inseto, a probóscide, parece ser rígida como um espinho,mas na verdade é um invólucro com diversas ferramentas – lâminas cortantes e um tubo de alimentação dotado de duas minúsculas bombas de sucção. O mosquito perfura a epiderme, atravessa uma fina camada de gordura e depois alcança a rede de microscópicos vasos capilares repletos de sangue. Aí começa a sugar.

Para evitar que o sangue coagule, o mosquito lambuza a área da picada com um jato de saliva. É nesse momento que tudo acontece. Alojadas nas glândulas salivares do inseto – e introduzidas no corpo do hospedeiro com o borrifo lubrificante –, encontram-se minúsculas criaturas vermiformes. São os parasitas unicelulares da malária, conhecidos como plasmódios.Cinqüenta mil deles poderiam nadar em uma poça com as dimensões do ponto final desta frase. Em geral, cerca de duas dúzias dessas criaturas unicelulares penetram na corrente sangüínea.Mas basta que uma delas consiga entrar. Um único plasmódio é suficiente para matar uma pessoa.

Os parasitas permanecem na corrente sangüínea por apenas alguns minutos. Seguindo pelos vasos do sistema circulatório, logo chegam ao fígado. E é ali que se instalam. Cada plasmódio se introduz em uma célula hepática.Uma pessoa picada pelo mosquito durante a noite nem chega a despertar de seu sono. E por uma ou duas semanas, não haverá nenhum sinal explícito de que algo horrível está ocorrendo no corpo.

Vivemos em um planeta malárico. Talvez isso não seja óbvio para quem vive em um país rico, onde o mais comum é pensar na malária como um problema em grande parte superado, como a varíola ou a pólio. Na realidade, porém, a malária afeta hoje mais gente do que em qualquer outro momento da história. Ela é endêmica em 106 países, e ameaça metade de toda a população mundial. Nos últimos anos, o parasita tornou-se tão disseminado e desenvolveu resistência a tantos medicamentos que suas linhagens mais potentes dificilmente podem ser controladas. Neste ano, cerca de 500 milhões de pessoas serão infectadas pelo parasita da malária. E pelo menos 1 milhão morrerá, a maioria com idade abaixo de 5 anos, e quase todos vivendo na África. Essa taxa de mortalidade é mais do que o dobro daquela registrada apenas uma geração atrás.

O clamor contra essa epidemia, até recentemente, mal se fazia ouvir. A malária é um flagelo dos pobres, fácil de ser ignorada. O fato mais lamentável a seu respeito, na opinião de alguns pesquisadores, é que as nações mais prósperas conseguiram erradicá-la. Enquanto isso, várias regiões claramente miseráveis estão à beira de um colapso malárico total, e dominadas por enxames voadores de seringas zumbidoras e repletasde plasmódios.

Somente nos anos mais recentes a malária atraiu toda a atenção de organizações e doadores humanitários. A Organização Mundial de Saúde (OMS) atribuiu prioridade absoluta ao controle da epidemia. Os recursos financeiros destinados ao combate dobraram desde 2003. A idéia é atacar a doença por meio do emprego conjunto de praticamente todas as terapias antimaláricas conhecidas, desde as mais antigas (ervas medicinais chinesas), passando pelas tradicionais (redes contra mosquitos), até as ultramodernas (coquetéis de vários medicamentos). Ao mesmo tempo, os pesquisadores estão ainda empenhados em alcançar um objetivo difícil: uma vacina capaz deacabar com esse flagelo.

Grande parte dessa ajuda é canalizada para alguns países mais afetados e localizados na África subsaariana. Se conseguirem vencer a doença, essas nações servirão de modelo para a luta global contra o flagelo. E se fracassarem? Bem, ninguém envolvido no problema sequer pensa nessa possibilidade.