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EDIÇÃO 144/ MARÇO DE 2012 27/02/2012

Em busca do cão ideal

Como o homem alterou a evolução canina

por Evan Ratliff

Os donos desses casacos são os frequentadores daquela que é a mais exclusiva reunião de cães no mundo, a qual ocorre todos os anos na véspera da exposição canina do Westminster Kennel Club. No dia seguinte, os melhores cães do país, abrangendo 173 raças, vão disputar um momento de glória no outro lado da rua, no ginásio Madison Square Garden. Hoje, porém, a função lembra mais uma recepção a convidados de quatro patas, enquanto seus donos fazem fila para se inscrever naquele que é o alojamento oficial da competição. Em um carrinho de bagagens, um basset hound fita com olhar desanimado um terrier hiperativo. Diante da lojinha de lembranças, um mastim tibetano, com patas tão grandes quanto mãos humanas, esfrega seu focinho no de um pug, que funga sem parar.

A diversidade explícita no saguão do hotel – uma vertiginosa gama de dimensões corporais, formatos de orelha, comprimentos de focinho, hábitos de latir – é o que faz os amantes de cachorros serem fanáticos. Por motivos tanto práticos quanto fantasiosos, o melhor amigo do homem foi sendo aperfeiçoado a ponto de se tornar o animal mais diversificado do planeta – uma realização assombrosa, pois a maioria das 350 ou 400 raças hoje existentes surgiu apenas há um par de séculos. O que os criadores fizeram foi acelerar o ritmo normal da evolução, mesclando características caninas disparatadas e acentuando- as ao privilegiar os filhotes que apresentavam de modo mais marcante os atributos buscados. Por exemplo: a fim de obter um cão bem adaptado a encurralar texugos, considera-se que os caçadores alemães nos séculos 18 e 19 tenham realizado algum tipo de cruzamento entre cachorros de caça – o basset hound, nativo da França, sendo o mais provável – e de toca, como os terriers, criando uma variação sobre o tema do cão com pernas curtas, corpo roliço e capacidade de ir atrás das presas mesmo dentro de suas tocas. Assim surgiu o dachshund, ou “caçador de texugo” em alemão. A pele frouxa e flexível servia como mecanismo de defesa, permitindo que o cão suportasse mordidas de dentes afiados. E a cauda longa ajudava os caçadores a puxá-los para fora da toca, com o texugo preso à boca.

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Os caçadores, é lógico, não levavam em conta o fato de que, ao forçar o surgimento dessas estranhas variedades, eles também estavam, antes de tudo, mexendo com os genes que determinam a anatomia canina. Desde então os cientistas consideravam que, sob a diversidade morfológica, havia uma multiplicidade genética equivalente. Mas um recente surto de pesquisas sobre o genoma canino aponta para conclusão oposta: o imenso mosaico de formas, cores e tamanhos dos cães deve-se, em boa parte, a alterações em apenas um punhado de regiões do genoma. A diferença entre o corpo diminuto do dachshund e o corpo maciço do rottweiler é ocasionada pela sequência de um único gene. O mesmo ocorre com a disparidade entre as pernas curtas do dachshund – conhecidas como condrodisplasia, um tipo de nanismo – e as pernas longas e finas do galgo.

E isso se repete em todas as raças e quase todas as suas características. Em um projeto denominado CanMap – uma parceria entre a Universidade Cornell, a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e os Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês) americanos –, pesquisadores colheram amostras do DNA de mais de 900 cães, abrangendo 80 variações, e também de canídeos selvagens, como lobos e coiotes. Eles constataram que o tamanho corporal, o comprimento e o tipo do pelo, o formato do focinho, a posição das orelhas, a cor do pelame e outros traços que em conjunto definem a aparência de uma raça são controlados por 50 comutadores genéticos. A diferença entre as orelhas caídas e as eretas é determinada por uma única região dos genes no cromossomo canino 10, ou CFA10. A pele enrugada de um shar-pei depende de outra região, denominada HAS2. Basta mexer em alguns comutadores e um dachshung vira um doberman, pelo menos em aparência. Outra mexida e o doberman vira um dálmata. “O que está ficando mais evidente”, comenta o biólogo Robert Wayne, “é que a diversidade dos cães domésticos resulta de um instrumental genético restrito.”

As notícias na imprensa a respeito de genes específicos a cabelo ruivo, alcoolismo ou câncer de mama dão a falsa impressão de que a maioria das características é governada apenas por um ou alguns genes. Na verdade, a genética simplificada da morfologia canina é uma aberração. Na natureza, em geral, uma característica física ou um estado de enfermidade são o resultado de uma complexa interação de muitos genes, cada qual fazendo a sua contribuição. Nos seres humanos, a altura de uma pessoa é determinada pela interação de 200 regiões do gene.