O doutor da selva
O médico Drauzio Varella comanda uma equipe de pesquisadores que procura os medicamentos do futuro no coração da Amazônia
Araquém Alcântara
Araquém Alcântara
Drauzio Varella analisa uma espécie da região do rio Negro. Para ele, o futuro da medicina é verde
A primeira hora da manhã, ainda sem a luz direta do Sol, é o momento em que se pode distinguir melhor as infinitas nuanças do verde nas árvores. A variedade impressiona: uma mesma espécie não se repete por muitos e muitos metros. Na Amazônia, durante os meses de janeiro a junho, época da cheia, o leito dos rios praticamente dobra de tamanho, tornando possível a navegação por estreitos canais mata adentro. Viajamos por um igapó, uma imensa área alagada do rio Cuieiras, afluente do Negro. O comandante corta o motor e atracamos em um canto tranqüilo, de frente para uma árvore imensa cujo tronco está encoberto pela água até a metade.
O médico oncologista e escritor Drauzio Varella aprecia momentos assim. Ele contempla, reflete. Aos 64 anos, demorou quase 50 para pôr os pés na maior floresta da Terra. “Nas primeiras vezes em que vim pra cá, eu me perguntava como era possível ter demorado tanto a conhecer este lugar maravilhoso”, diz. Para Varella, a Amazônia abriga o futuro da medicina. Sob seu comando, uma equipe de pesquisadores reúne-se a cada dois meses para localizar e avaliar a diversidade de vida e a atividade farmacológica existente no local, 100 quilômetros a noroeste de Manaus. Num projeto da Universidade Paulista (Unip), o grupo coleta plantas para estudar a atividade de seus componentes contra certos tipos de câncer e bactérias resistentes a antibióticos. “A história da medicina está cheia de casos em que determinado princípio ativo foi extraído de uma planta. Na oncologia, inclusive, uma das drogas mais usadas atualmente contra câncer de mama, o taxol, foi isolada de uma planta nativa da América do Norte, a Taxus brevifolia. Imagine o potencial existente na floresta Amazônica”, afirma.
Estima-se que o Brasil concentre cerca de 20% de toda a biodiversidade mundial, e que a Amazônia contenha 17% da biodiversidade brasileira – um tesouro biológico ainda pouco estudado. A extração do princípio ativo de uma planta e sua manipulação até chegar à fórmula de um medicamento apto a ser usado em seres humanos é um processo complexo, que consome muito dinheiro e um tempo médio superior a dez anos.
Desde que as viagens de coleta ao baixo rio Negro começaram, a bordo do barco Escola da Natureza, em 1998, os cientistas da Unip já contabilizaram 2,2 mil extratos de planta detectados (extrato é o produto da retirada de compostos químicos da planta pelo uso de um solvente – café e chá são exemplos familiares). “Desse total, 72 indicaram alguma atividade contra ao menos uma das células tumorais que estudamos e outros 50 mostraram reação contra bactérias”, revela Varella, ressaltando que, mesmo nos casos mais promissores, ainda há muito trabalho a ser feito. “Depois de detectar que um extrato apresentou atividade contra uma célula de câncer de mama, por exemplo, temos de fracioná-lo, ou seja, separar cada substância de sua composição para chegarmos àquela responsável pela atividade. Depois, é preciso passar para a fase de testes em animais e, posteriormente, em pessoas.”
Ao contrário das antigas expedições capitaneadas por naturalistas europeus, em que o interesse científico vinha a reboque do comercial – e quase sempre contribuía para a destruição do ambiente –, as incursões científicas contemporâneas sabem que a maior riqueza está no conhecimento. No século 21, o enfoque não é mais territorial; trata-se agora de uma busca microscópica atrás de informação. Mas como encontrar a espécie que pode dar origem a uma nova droga no meio da imensidão vegetal da floresta?
A Amazônia não é nenhum tapete verde homogêneo, como ainda hoje se costuma pensar. Existem muitas variações. Na bacia do rio Negro, por exemplo, é possível encontrar áreas de floresta alta, exuberante, vizinhas a campinas de arbustos baixos e solo arenoso. “Cada um desses terrenos dá suporte a vegetações diferentes, as espécies podem mudar muito entre uma área de platô e outra em declive, próxima a um rio”, diz o botânico Mateus Paciencia, coordenador do trabalho de coleta. “As florestas de terra firme estão livres dos alagamentos sazonais e costumam apresentar maior número de plantas de grande porte, com flores e frutos que facilitam a identificação.”
Para ajudar no rastreamento das espécies, os botânicos delimitam na mata as chamadas “parcelas”, terrenos de 100 por 100 metros, onde as árvores de maior porte são classificadas e identificadas – recebem uma placa com um número. A definição do local e a identificação precisa das árvores e plantas são cruciais: de nada adiantaria a um farmacêutico descobrir uma substância no laboratório se não lhe fosse possível saber de que planta ela foi extraída e onde ela está.
Na mata, Paciencia segue o experiente mateiro Osmar Ferreira, levando a lista que contém o número das árvores de cada parcela e que servirá de base para a coleta da manhã. Drauzio Varella, de lupa na mão, pára diante de um tronco recoberto por uma camada de musgo. A névoa paira sobre nossa cabeça enquanto passamos sobre raízes enormes e desviamos de uma seqüência infindável de galhos e cipós. Até que avistarmos as estacas unidas que delimitam a área de pesquisa.
