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Michael Nichols: no meio do mato e com uma câmera na mão

Fascinado pela vida no planeta, o fotógrafo Michael Nichols fez de sua maior paixão a sua vida

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL   |   Por: Michael Nichols
« Especial Mestres da Fotografia

Ainda menino, descobri um refúgio no bosque perto do quintal de casa. Eu me sentia à vontade dormindo sob o céu estrelado e confiava na natureza. Cresci no norte do Alabama, região cheia de cavernas que comecei a explorar na adolescência. Nessas grutas labirínticas foi onde teve início minha trajetória como fotojornalista.

Fascinado pelo rapel e com jeito para iluminar e explorar cavernas, achei um nicho na documentação de aventuras. Depois, fiz as primeiras descidas de rios na Ásia e na África. Tive encontros quase decisivos com a morte e reuni um alentado currículo de doenças tropicais. Era uma vida excitante e exótica, como se eu tivesse saído dos sonhos da infância. Mas eu ainda não havia compreendido a força da fotografia.

Tudo mudou quando conheci os gorilas-das-montanhas. A primeira vez que tive contato com seu hábitat mágico foi ao fazer um ensaio sobre pilotos de pequenos aviões na África. Enquanto sobrevoávamos em um deles uma serra vulcânica, ele apontou para baixo e disse: “É ali que a americana louca vive sozinha com os gorilas”. Muito depois desse voo, em 1980, fotografei um projeto de conservação de gorilas nessa mesma região de Ruanda, onde tive um contato mais próximo com esses animais fabulosos, vulneráveis e tão próximos de nós. Descobri que minhas imagens podiam ressaltar sua fragilidade e divulgar o esforço de quem lutava para salvá-los. Também percebi que meu fascínio por esses ambientes naturais indicava uma vocação maior. Meu trabalho poderia fazer diferença para aqueles que lá vivem, aqueles que não têm voz.

Para atingir esse objetivo, encontrei um parceiro natural em NATIONAL GEOGRAPHIC. Quando velhos amigos descobriram a caverna Lechuguilla, no deserto do Novo México, convencemos os editores de que ali havia uma boa história. Fiquei entusiasmado, e minha estreia acabou sendo reportagem de capa em 1991. Embora tenha sido minha habilidade para iluminar a escuridão das cavernas o que me proporcionou acesso à revista, não demorou para que passasse a documentar as dificuldades sofridas pelas criaturas e pelos hábitats mais indefesos da natureza.

Fotografia e conservação ambiental estão entrelaçadas desde o início. No fim do século 19, fotos das singulares paisagens do Yosemite e do Yellowstone, nos Estados Unidos, serviram de inspiração e estímulo à preservação dessas áreas. A proteção desses lugares estabeleceria os pilares do sistema de parques nacionais americanos.

Ao longo de sua história de um século, NATIONAL GEOGRAPHIC deu testemunho do poder da fotografia. Em 1906 (quando os periódicos científicos traziam poucas imagens), ela publicou 70 fotos, feitas por George Shiras, que usou uma lanterna para iluminar animais à noite. Essas imagens iniciaram a associação da revista com a fotografia da fauna silvestre. Meio século depois, as fotos que NATIONAL GEOGRAPHIC publicou das sequoias da Califórnia despertaram a consciência da vulnerabilidade dessas árvores magníficas às atividades de madeireiros e de interesses industriais. Leitores da revista e a National Geographic Society contribuíram com recursos para a compra de grandes áreas e se criar uma reserva de proteção dessas árvores imensas. Em 2009, voltei a elas para fazer um ensaio sobre os bosques remanescentes e a busca por estratégias de manejo florestal mais inteligentes.

Minhas imagens também ilustraram o empenho de dois grandes conservacionistas: Jane Goodall e J. Michael Fay. A primeira estudara durante anos os chimpanzés de uma floresta na Tanzânia, mas, quando a conheci, ela estava mais empenhada em mostrar ao mundo o modo desumano com que tratamos os grandes primatas. Nossa parceria resultou na publicação do livro Brutal Kinship (“Parentesco Brutal”), que levou à aprovação de leis que asseguram melhores condições aos chimpanzés submetidos a experimentos médicos e de vacinas.

O ecologista J. Michael Fay é outro incansável militante. Prestes a concluir sua caminhada de mais de 3 mil quilômetros na expedição Megatransect pelo Congo e pelo Gabão, Fay manifestou a vontade de dar meia-volta e fazer tudo de novo – e não estava brincando. Nossa colaboração teve início na década de 1990. Descobrimos uma afinidade em nosso amor por regiões intocadas e achamos uma assim na África Central. Chamamos essa área de “o último lugar da Terra” e começamos uma odisseia de 15 anos para documentar seus esplendores. O projeto resultaria em dez reportagens para a revista, culminando na série sobre a expedição. Esse levantamento não foi feito para estimular a sua exploração comercial. Pelo contrário. Queríamos evitar que a área fosse engolfada numa busca desenfreada por riquezas naturais. O objetivo era defini-la o quanto antes como reserva da natureza para afugentar as motosserras que alteram irremediavelmente a paisagem.

Nossa missão foi cumprida. Apresentamos ao presidente do Gabão, Omar Bongo, imagens que mostravam a extraordinária riqueza de seu país, muitas das quais o deixaram surpreso. “Tudo isso está aqui”, exclamou. Ele criou então 13 parques nacionais, com os ecossistemas delimitados por fronteiras naturais. Essas vastas áreas teriam se perdido para sempre caso não tivéssemos recorrido ao poder das fotos.

Para mim, a recompensa está no fato de que meu trabalho, por sua vez, contribuiu para a luta pela conservação. De maneira modesta, ajudamos a frear o apetite aparentemente insaciável que temos pelos recursos do planeta. É preciso tempo e imaginação para darmos conta de que os recursos da Terra são limitados, e de que nosso planeta é tudo o que temos. A fotografia pode ajudar a todos nós a usar a imaginação e a imaginar um mundo melhor.

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