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MESTRES DA FOTOGRAFIA 14/12/2011

Uma vida na estrada

Formado em estudos asiáticos, Michael Yamashita misturou suas duas paixões: fotografia e viagens

por Michael Yamashita Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Quando comecei a fotografar, não tinha intenção de fazer da fotografia o foco de minha vida profissional. Minha curiosidade sobre o mundo e minha paixão pelas viagens aos poucos acabaram se tornando um modo de vida absorvente. Embora eu não tenha dado conta na época, minha carreira começou de fato na faculdade. Quando fui a Londres passar um ano estudando, lá comprei uma moto usada, uma Triumph 650 Bonneville, com a qual, levando só uma mochila e uma Nikon emprestada, resolvi ir à Tunísia. A paisagem exótica e impregnada de luz da África do Norte foi a centelha que ateou o fogo em minha obsessão pelas viagens e pela fotografia.

Após me formar, fui ao Japão, em uma “volta às raízes”, para conhecer um pouco o país de meus avós. Lá comprei minha primeira câmera e me inscrevi em um clube de fotografia em Tóquio, basicamente para conhecer pessoas e melhorar o meu japonês, mas acabei sendo fisgado. Um diretor de arte viu algumas de minhas imagens que eu apresentara no clube e me propôs o meu primeiro trabalho profissional. Isso me permitiu conhecer o resto da Ásia, viver em um veleiro em Cingapura e explorar o mar do sul da China.

Sete anos depois voltei aos Estados Unidos e fui direto a NATIONAL GEOGRAPHIC, onde todo fotógrafo sonha em trabalhar. Saí de lá sem nenhuma promessa mas carregado de filmes e com a sugestão de que voltasse com uma história. Isso aconteceu há 30 anos e, desde então, tenho retornado a NATIONAL GEOGRAPHIC com novas histórias. A maioria delas reflete minha paixão pelas viagens. Sou fascinado pelos grandes périplos de viajantes famosos, como Marco Polo ou o almirante chinês Zheng He, não só pela aventura mas também pelo desafio de documentar culturas e locais antigos pela óptica de uma lente moderna, ou seja, de contar uma velha história de maneira nova.

Sempre digo que os fotógrafos são pagos para ter sorte, e tive confirmação disso em uma das minhas primeiras viagens, na qual percorri o rio Mekong, da nascente, na China, à foz, no Vietnã. Os povoados e vilarejos no trecho superior do rio haviam estado inacessíveis ao mundo desde a revolução comunista na China, em 1949. Devido à guerra e às circunstâncias políticas, Camboja, Laos e Vietnã também haviam estado fechados, mas em 1989 as tensões começavam a se dissipar, permitindo que eu realizasse uma viagem que nenhum outro fotógrafo havia feito antes. Descendo o rio através de seis países e culturas diferentes, tive a oportunidade de ver um modo de vida ainda intocado pelo turismo e pelo comercialismo. Em termos pessoais, essa experiência também se revelou muito afortunada, pois foi no Vietnã que minha mulher e eu adotamos nossa filha. Em 2000, o que me levou a refazer os passos de Marco Polo para uma série de três artigos era responder à questão colocada pela historiadora Frances Wood no livro Marco Polo Foi à China?. Minha intenção era provar que ele havia ido – ou não – usando como guia o próprio relato do viajante italiano. De fato encontrei e registrei cenas e locais descritos por Polo e que se haviam mantido inalterados desde suas viagens no século 13. Também percorri regiões do Afeganistão e do Iraque antes de terem sido destruídas ou fechadas devido às guerras desencadeadas pelo 11 de Setembro.

Além dos relatos de grandes viagens, adoro aqueles que esclarecem as tradições e o passado. Foi por isso que passei tanto tempo na China, que sempre me reserva muitos desafios e surpresas. Mas estou convencido de que a boa fotografia deve sempre surpreender. Foi isso o que me levou a dedicar mais de um ano à documentação da Grande Muralha. Eu queria ir além do óbvio e do emblemático para desmascarar muitos dos mitos em torno dela e mostrá-la como elemento vivo da história.

No início de minha carreira, eu agarrava todas as propostas de trabalho, em qualquer lugar. Mas, com o tempo, fui me concentrando na Ásia, onde me sinto mais à vontade. Com as mudanças rápidas que vêm ocorrendo ali, fico atento à beleza perene do mundo natural, de modo a mostrar a natureza tal como é e como espero que continue a ser.

Antes de iniciar qualquer projeto, tento compor mentalmente as imagens de uma história. É assim que se estabelece o alicerce da sorte do fotógrafo É preciso muita pesquisa para saber o que buscar. Logo que tenho a minha “lista de fotos”, me lanço à caça. Às vezes requer horas de caminhada ou longas esperas para que se dissipe a névoa em torno de uma montanha. Talvez seja preciso voltar muitas vezes ao local até obter a luz matinal perfeita ou mesmo esperar por outra estação do ano. Em geral, porém, o segredo do sucesso é saber identificar uma foto mesmo nas situações mais inesperadas.

Cada história adquire vida própria. Uma matéria sobre jardins japoneses virou livro, assim como aquela sobre o rio Mekong. O ensaio sobre Marco Polo tornou-se um livro de grande vendagem e um filme premiado. Em seguida, levou ao artigo, ao livro e ao documentário sobre o almirante Zheng He. Com a foto em película em via de extinção e os constantes avanços científicos, agora os fotógrafos precisam pensar além das páginas da revista ou das paredes da galeria, e explorar os novos meios, as novas tecnologias. Uma coisa, porém, jamais vai mudar: a capacidade de uma fotografia poderosa contar uma história.