Monte Erebus: um mundo invertido na Antártica
Enquanto os cientistas tremem de frio, micróbios proliferam no solo de um vulcão
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Vulcão do Monte Erebus com lagos remanescentes
Carsten Peter
Um estudo de contrastes: gelo e neve em primeiro plano e lago de lava embaixo. O Erebus é um dos muitos vulcões que têm um lago permanente. No momento em que esta foto foi tirada, o vulcão estava quieto, mas com frequência entra em erupção e lança bombas de lava a grandes altitudes
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Passagens da caverna Hut, no Monte Erebus
Carsten Peter
Um membro da equipe investiga as passagens da caverna Hut. Dentro das cavidades,o ar úmido e quente do vulcão congela, criando cristais de gelo de formas variadas conforme sopram as correntes de ar.
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Torres de gelo no Monte Erebus
Carsten Peter
É meia-noite, mas, com tanta claridade, é difícil parar de explorar as torres de gelo. Esta é uma das maiores do Erebus, mas seu flanco ruiu com o fluxo de calor e umidade vindo de baixo. Ao longe, à direita, a península Hut Point espicha-se na direção do monte Discovery
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Cratera do vulcão Erebus
Carsten Peter
Em uma noite clara, a principal cratera do vulcão permanece quieta, emitindo apenas algumas lufadas de vapor. A cratera contígua está extinta. Mais além, uma onírica paisagem de gelo marinho e oceano estende-se até as montanhas e os vales do continente antártico
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Luz solar infiltra-se no teto de caverna no Monte Erebus
Carsten Peter
A luz do sol infiltra-se no teto abobadado de uma caverna de gelo no Erebus, o vulcão ativo mais austral do planeta.
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Caverna Warren, Antártida
Carsten Peter
Um conjunto de cordas e escadas facilita o acesso à caverna Warren, um labirinto de passagens derretido no gelo pelo calor do vulcão. Pequenas correntes de arca usaram os recortes à entrada da caverna.
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Equipe de microbiologia investiga Monte Erebus
Carsten Peter
A equipe de microbiologia prepara-se para extrair amostras dos solos quentes do vulcão. Para proteger as formas de vida nativas, os pesquisadores fazem uma assepsia da bota borrifando etanol e usam traje esterilizado por cima da roupa de frio – ficam parecendo monstruosos homens das neves.
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Microbiólogos furam torre de gelo no Monte Erebus
Carsten Peter
O neozelandês Stu Arnold firma a broca enquanto o microbiologista americano Craig Cary mira a furadeira na parede da torre de gelo. Momentos depois, gritos: eles extraíram um cerne de gelo perfeito. Torcem para que contenha micróbios que subiram das profundezas do vulcão e congelaram na torre.
A cena: uma barraca no monte Erebus, um vulcão ativo na ilha Ross, na Antártica. É uma tenda quadrangular como as que o capitão Robert Falcon Scott trouxe em suas expedições à Antártica mais de um século atrás. No centro, tem altura suficiente para que uma pessoa de mais ou menos 1,65 metro fique em pé e, no topo, há duas aberturas que servem de chaminé. Essa tenda específica é ocupada por duas pessoas; ambas estão enfiadas em seus sacos de dormir. Entre elas há uma caixa grande, um fogareiro Primus, duas garrafas térmicas e dois pares de botas pesadas. Está frio demais para ler; mesmo de luva não dá para segurar nenhum livro. Por isso, todos os reclusos – inclusive eu – conversam para passar o tempo. “Quais são seus micróbios favoritos?”, pergunto, espanando o gelo em flocos de meu saco de dormir.
“Só podem ser as estrambóticas arqueias”, responde meu companheiro, Craig Herbold, um americano trintão, corpulento, fã de música eletrônica japonesa e da astrobiologia, o estudo de como pode ser a vida em outras partes do universo. Ele é pesquisador pós-doutorando da Universidade de Waikato da Nova Zelândia, e o membro mais novo de uma equipe de três pessoas que vieram para cá em busca de formas de vida nos solos quentes do vulcão. É isso mesmo. Ele veio a um dos lugares mais frios da Terra procurar seres que prosperam no calor.
O grupo de Shackleton subiu o Erebus em cinco dias e meio. Durante a façanha, enfrentaram uma nevasca que os manteve nos sacos de dormir por mais de 24 horas, sem nada para beber e a temperaturas abaixo de -34ºC. Um homem desmaiou de exaustão e outro sofreu uma lesão pelo frio que o fez perder o dedão do pé. Nossa jornada foi menos árdua: fomos de helicóptero.
Éramos oito. Havia o já mencionado Herbold e os dois membros mais velhos de sua equipe de pesquisa: Craig Cary, um americano expansivo, e Ian McDonald, um inglês discretíssimo, ambos biólogos da Universidade de Waikato e veteranos de pesquisas na Antártica. Antes de iniciar seu trabalho no continente gelado, Cary lecionava na Universidade de Delaware, na costa nordeste dos Estados Unidos, e descia com regularidade ao fundo do mar para estudar organismos que vivem em chaminés oceânicas profundas. Stu Arnold e Al Moore, dois neozelandeses queimados de sol e vento, de ombros largos e sotaque pronunciado, eram encarregados de, nas palavras de Arnold, impedir que fôssemos “massacrados pela montanha”. Havia Carsten Peter, o fotógrafo, e seu assistente, Daniel Jehle, ambos das serras do sul da Alemanha. E eu. Nas palavras de Jehle, apenas “uma garota”.
Apesar da localização remota e do clima brutal – temperaturas médias de -20°C no verão e -50°C no inverno –, o Erebus é um vulcão muito estudado. Desde 1972, uma equipe de vulcanólogos, há tempos chefiada por Philip Kyle, professor de geoquímica do Instituto de Mineração e Tecnologia do Novo México, passa parte do verão austral na montanha, investigando questões como natureza e frequência das erupções, tipos de gás que emite e idade das rochas.
A biologia do lugar, contudo, não é tão bem documentada. Isso acontece, em parte, porque no Erebus a maioria das formas de vida é microscópica. (As principais exceções são alguns musgos e cianobactérias – bactérias que, como as plantas, transformam a luz solar em energia e podem formar colônias grandes o suficiente para ser vistas.) Até pouco tempo atrás, o estudo de micróbios desconhecidos era problemático: não se podia criá-los em laboratório nem descrevê- los e muito menos estudá-los.
Mas hoje não é mais preciso cultivar micróbio em laboratório para aprender algo sobre ele. Há mais ou menos uma década, vêm sendo desenvolvidas técnicas genéticas que permitem caracterizar uma comunidade inteira de micróbios só por seu DNA, o que nos dá um quadro bem mais completo do que vive em qual lugar. Assim, embora tenha sido encontrada vida nos solos quentes do Erebus no começo dos anos 1960, só agora conseguimos avançar bastante nesse estudo.
Os solos quentes do Erebus são pontilhados no topo, ainda mais no local conhecido como crista Tramway. O calor derrete o gelo e cria pequenos trechos de solo quente e úmido que abrigam comunidades de musgos e micróbios.
