Edição 178/ Agosto de 2010 13/09/2011

A vez de Montevidéu

Montevidéu: quando a melancolia encontra a felicidade. Ou de como uma cidade encontra e vive seu melhor momento. O agora

por Gabriela Aguerre

Um homem de uns 40 anos, de terno e gravata, para o carro no meio da rambla, na altura do Parque Rodó. Não parece ter sido um ato pensado: ele freia, larga o volante, sai e, em dois rápidos movimentos, está no teto, aos pulos – amassando o próprio carro. Atrás dele, uma fila de automóveis se forma. Buzinam, mas não para que se saia da frente. Buzinam para comemorar. Toda a rambla está tomada de carros, vans, bandeiras, pessoas vestidas com as bandeiras, além de cachecóis, sobretudos e gorros. Fazia frio. Era o começo da noite de 2 de julho, e a cidade estava em festa. O Uruguai tinha ganhado de Gana, depois de um jogo dramático (na prorrogação, Suárez evita um gol de Gana com a mão e é expulso; o resultado se decide nos pênaltis, Loco Abreu marca o derradeiro, de cavadinha, e fim), e assegurava uma vaga nas semifinais da Copa do Mundo, depois de 40 anos de jejum de glórias futebolísticas, talvez a mesma idade do rapaz que pulava em cima do teto do próprio carro e que era, naquela noite, a expressão máxima da felicidade.

Desde a Avenida Arocena, em Carrasco, na outra ponta da cidade, minha mãe reporta, pelo celular: “Por aqui vejo 40 pessoas em cima de um ônibus, aos pulos. O motorista está entre elas”. A euforia que caiu sobre Montevidéu naquela noite é o retrato de uma nova cidade, mais alegre, mais festiva, mais autoconfiante. Uma nova velha cidade, como a que você vê nas belas imagens que ilustram as páginas desta reportagem e pela qual sugiro um passeio.

O começo, como quase todo começo de viagem, é pelo aeroporto.

O aeroporto

Cabem quase todos os bons adjetivos para descrever o novo Aeroporto Internacional de Carrasco. Desenhado pelo arquiteto uruguaio Rafael Viñoly, que já embelezou outras cidades por aí, ele tem um teto curvo de quase 400 metros que vai do chão ao chão e cria, de longe, a imagem de um olho (ou de qualquer outra coisa curva). Entre os mais belos aeroportos do mundo (e quem diz não sou apenas eu mas a Travel & Leisure, uma das principais revistas de viagem do planeta), foi inaugurado há pouco tempo, em outubro de 2009. Custou US$ 165 milhões (vale a pena pensar no montante quando você tiver de desembolsar os US$ 36 da taxa de embarque, semelhante, aliás, à praticada em Cumbica). Quem conhecia o velho terminal, que ainda não foi derrubado mas que, comparado ao novo, parece um estacionamento de aviões em miniatura, talvez sinta falta da falta de fingers, de sair do avião e pisar o solo ao ar livre, observando o campo aparentemente infinito, e das paredes azul-calcinha, das esteiras desgastadas, das cadeiras de plástico amareladas, do único quiosque de guloseimas – tudo o que dava, à chegada, um toque de nostalgia, de quem chega a uma capital muito antiga, uma Havana da América do Sul, ou um lugar sem tempo, perdido.

Agora algo parece ter mudado. Ainda mais se você estiver voando naqueles aviões da Pluna (a pequena companhia aérea que pertencia ao governo e que foi recentemente privatizada), uns Bombardier novinhos, com capacidade para 90 passageiros e apenas a seis degraus do chão – a sensação é quase a de um voo privado. Um free shop gigantesco, dividido por setores completos (marcas como Nike, Puma e Victoria’s Secret têm suas próprias lojas), está na boca da imigração e mostra o zeitgeist: brasileiro que é brasileiro gosta é de chegar comprando, e aqui é um bom lugar para isso. Para se ambientar, comece com um cachecol de lã de Manos del Uruguay, a refinada cooperativa de artesanato que faz tudo bonito e de qualidade. Deixe os doces de leite La Pataia para o fim, em embalagens de papel-cartão leves e ecológicas. Por apenas US$ 5 você leva de volta para casa um delicioso suvenir comestível (alguns podem ficar retidos na alfândega; veja em Coordenadas).

A rambla

Diferentemente daquelas cidades cujos aeroportos ficam em regiões ermas e distantes do centro, Montevidéu não demora a se apresentar. A rambla, a avenida à beira-rio que se parece em alguns trechos ao Malecón e, em outros, ao calçadão de Copacabana, está a poucos minutos do aeroporto. Repare: assim que vir o Rio da Prata (muitas vezes tão azul quanto os oceanos, e que os uruguaios não se intimidam em chamar de “mar”), é porque já chegou a ela. Estará na altura do Hotel Casino Carrasco, um glamuroso hotel dos anos 1920 e desativado há mais de uma década. Um longo e várias vezes interrompido processo de licitação finalmente deu ao grupo francês Accor o direito de exploração da marca e do prédio, que tem previsão de inauguração em 2011, sob a bandeira Sofitel. Se por muito tempo os tapumes e letreiros caídos denotavam abandono, agora as obras a todo vapor mostram que algo muito bacana está por vir. E que, se tudo transcorrer conforme o previsto, evocará tempos de glória, tais como os que conhecemos do Copacabana Palace, no Rio.

O seu passeio por Montevidéu pode voltar à rambla todas as vezes que você quiser. É para ali que eu sempre volto, às vezes em sonhos. Para ver o pôr do sol. Para caminhar sem rumo e sem pressa. Para ver gente. Para não ver gente. Para tomar chimarrão (atividade que, no Uruguai, se assemelha em frequência a respirar). Já cheguei a caminhar de Pocitos até o porto, durante um longo fim de tarde (no verão, o sol costuma se pôr depois das 21 horas), e recomendo que você faça o mesmo, mesmo que não tenha um ano inteiro de acontecimentos pra contar a uma prima, uma amiga, um amigo, como muitas vezes é o meu caso.

Naquele fim de dia, a rambla nunca pareceu tão exultante. Enquanto caminhávamos pela urbe, entre as bandeiras, as perucas espalhafatosas azuis e brancas, ouvíamos gritos de “Uruguay que no ni no!” ou “Uruguay nomá!”, expressões de difícil tradução, como em geral são as expressões que revelam a idiossincrasia de um povo. No dia seguinte, “Uruguay. Historia. Locura.” era a manchete do jornal El País, sobre uma foto em página dupla de Loco Abreu. Essa nem precisa traduzir.

Pela rambla, viramos na Avenida Brasil e chegamos a La Pasiva, a lanchonete montevideana por natureza, reino dos panchos (cachorros-quentes) e da mostarda quase branca, de receita secreta. A casa estava tão cheia que era preciso dividir mesa com estranhos. Mas ninguém parecia estranho. Na televisão, reprisavam Brasil 1 x 2 Holanda, jogo que tinha acontecido naquela manhã. Fosse em outra ocasião, não duvide de que os uruguaios estariam em peso sofrendo pela saída do Brasil da Copa. Mas, naquela noite, a alegria ofuscava qualquer lembrança de tristeza.

O Parque Rodó, em Montevidéu, no Uruguai

<p> Marlos Bakker</p>

O Parque Rodó, como nos anos 1930 - Foto: Marlos Bakker

Os bairros

Quando o Montevideo Shopping, o primeiro da cidade, foi construído, 25 anos atrás, parecia não caber naquele bairro de ruas tranquilas, casinhas, pessoas andando a pé. Nem era hábito do montevideano visitar um shopping. Compras eram feitas nos armazéns de bairro, na 18 de Julio ou na Tienda Inglesa, a primeira loja de departamentos, fundada em 1870 e que existe até hoje. Depois outros shoppings vieram (três), um deles construído sobre os alicerces de uma prisão, a Cárcel de Punta Carretas, que nos anos 1970 testemunhou uma espetacular fuga de 111 militantes tupamaros, através de um túnel subterrâneo, construído de fora para dentro por comparsas na clandestinidade. Fugi do assunto, perdão. É que essa história é sensacional – hoje, 25 anos depois do fim da ditadura, é apenas uma anedota heroica.

O bairro que está surgindo nos arredores do Montevideo Shopping, chamado de Pocitos Nuevo, é a cara mais moderna de Montevidéu. Ali estão a Lotus, templo da música eletrônica, e, nos arredores, o primeiro bar especializado em cerveja, o Burlesque, dentre outros boliches (barzinhos) de responsa. Aliás, seguindo uns dez quarteirões nessa mesma rua, a LA de Herrera, você chega ao Estádio Centenário, um dos mais importantes da América do Sul e da história dos mundiais. Ele foi construído em 1930, na primeira Copa do Mundo (uma das duas em que o Uruguai foi campeão; a outra foi em 1950). Mudei de assunto de novo, mas foi por uma boa causa.

Os demais bairros assistem a transformações gradativas. A Ciudad Vieja, que até os anos 1990 era um lugar bastante perigoso, sem vida noturna além de boates de frequência duvidosa, às quais recorriam marinheiros russos atracados no porto, já há algum tempo vive uma fase solar. Casas restauradas, barzinhos descolados, cozinhas de autor, centros de design, galerias de arte: virou um lugar cool. Seu principal templo de cultura, o Teatro Solís, foi totalmente reformado em 2004. Desde então, recebe shows, ciclos de dança, obras teatrais, peças infantis. Vale consultar a programação durante sua estada ou marcar uma visita guiada pelo belo prédio de 1856 (ou 52 anos antes da inauguração de seu falso rival, o portenho Teatro Colón). E tem lugarzinhos escondidos, como o Café de La Pausa, que descobri nesta viagem, a melhor pausa para alegrias e desalegrias, mas o endereço só conto em segredo. Se você quiser tomar um café com bolo, um chazinho de ervas com biscoito, num 1º andar de um predinho antigo, cercado de livros de poesia e antiguidades, me escreva.

Os uruguaios

Sinto saudades de tudo o que não volta mais em Montevidéu, como os bilhetes de ônibus, pequenos pedaços de papel com cinco números mágicos, que eu colecionava (não só eu mas mais de uma geração de passageiros), e que foram substituídos recentemente por pedacinhos insípidos de papel de fax. Por isso admiro algumas coisas que não mudam nunca, como o Café Brasilero, na Rua Ituzaingó, que deve ser praticamente o mesmo desde 1877. Já tomei ali alguns bons cafés com Eduardo Galeano, que, além de ser parente (compartilhamos um de nossos sobrenomes), é um dos meus escritores preferidos. “Quer escrever? Escreva”, foi o primeiro conselho que ele me deu, quando eu tinha 15 anos. Fiquei contente, aliás, quando o revi na imprensa, comentando a “vitória” do Uruguai no mundial. “Nosso país, que tinha entrado na Copa a duras penas, jogou dignamente, sem se render, e chegou a ser um dos melhores. Alguns cardiologistas nos avisaram que o excesso de felicidade podia ser perigoso à saúde.”

Nenhuma cena foi mais eloquente, no entanto, que a protagonizada por Jorge Drexler, o cantor e compositor que elevou a música uruguaia à categoria de Oscar, e que tenho por hábito apresentar aos outros desde que o conheci, há mais de dez anos, em La Paloma. Ele estava no camarim, prestes a começar mais um show, na Galícia, Espanha. O jogo Alemanha 3 x 2 Uruguai, que definiria o terceiro lugar na Copa, estava por terminar. Drexler subiu ao palco com notebook em mãos e, com a banda tocando ao fundo, narrou os últimos quatro minutos ao público galego – inclusive a falta cobrada por Forlán, eleito o melhor jogador do mundo. Aos 48 minutos do segundo tempo, Dieguito chuta a jabulani em direção ao gol, mas bate no travessão. Tudo bem. La Celeste já tinha cumprido sua função. Aplausos. O show continua.

Quando os jogadores voltaram para casa, no dia 13 de julho, Montevidéu estava sob uma onda de frio polar. Isso não impediu, no entanto, que milhares de uruguaios fossem às ruas saudar os novos heróis. Loco Abreu, o técnico Maestro Tabárez e o capitão Diego Lugano encontraram um lugar especial para a carreata, que passou pelas ruas do centro, pela rambla, pelos bairros que você, espero, já conhece ou vai um dia conhecer. Eles estavam no teto do ônibus – e eu acho que já vi isso em algum lugar.