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Especial - Espaço 11/01/2012

Mundo da lua

A saga dos seres humanos no espaço

por Joel Achenbach

Até hoje, é quase inacreditável: “Homem caminha sobre a Lua”. Ao lado dessa manchete, tudo parece banal. Os acontecimentos mais importantes desde o dia 20 de julho de 1969 envolveram guerras, escândalos, terrorismo, desastres. Talvez devêssemos reconhecer o valor da invenção da internet e da decodificação do genoma humano. Também não é que tenhamos ficado atolados nesses últimos 40 anos.

Mas nada se sobrepõe ao programa Apollo. As viagens à Lua foram feitos tão exuberantes que, até hoje, há gente que se recusa a acreditar que elas de fato ocorreram. As missões Apollo exigiram uma combinação de criatividade tecnológica, coragem e predisposição nacional (leia-se: muito dinheiro dos contribuintes), sem contar o fato de que ocorreram em um momento político propício.

Como sabemos o desfecho da história, é difícil lembrar como a ida à Lua foi audaciosa, como foi cheia de incerteza – e perigosa. As missões Apollo usavam, diferentemente das Mercury ou Gemini que as precederam, um foguete novo, o Saturn V, que tinha 110 metros de altura e era carregado com 2,7 milhões de quilos de oxigênio líquido explosivo e in9 amável, além de outros materiais propulsores. Todas as pessoas sensatas fizeram questão de ficar a quilômetros da nave na plataforma de lançamento. Três astronautas se acomodariam na parte de cima dela. Então a coisa entraria em ignição e uma explosão os carregaria para o espaço sideral.

Os tripulantes seriam carregados até um outro mundo, tão distante que nosso planeta se transformaria em uma bolinha de gude azul tão pequena que poderia ser escondida por um polegar esticado. Depois, teriam que pousar. Não é possível usar pré-quedas em um mundo sem ar. Ninguém sabia se a superfície da Lua comportaria o peso de um astronauta, muito menos de uma nave espacial. Existia a hipótese de que o módulo lunar – o pequeno invólucro que desceria até a superfície da Lua com a ajuda de foguetes – pudesse afundar depois do pouso. Ou que a poeira, em contato com o oxigênio contido dentro do módulo, pudesse entrar em combustão.

Os astronautas precisavam encontrar um local plano para pousar, porque se o módulo lunar tombasse, nunca mais conseguiriam sair da Lua. Chegar até lá não era a parte mais difícil – o maior problema seria voltar para casa. Eles teriam que executar o lançamento da Lua, encontrar com o módulo de comando na órbita lunar e então colocar o motor para funcionar mais uma vez, para ganhar impulso até a Terra, onde re-entrariam na atmosfera a 11 quilômetros por segundo. Eles se transformariam em uma bola de fogo e cairiam de pré-quedas no meio do Pacífico, onde esperariam que alguma pessoa gentil fosse recolhê-los.

Na época, os entusiastas consideraram a visita à Lua como a primeira de muitas façanhas ousadas fora da Terra. Mas as previsões não se tornaram realidade. O pouso na Lua não representou o início da conquista inexorável do espaço. O que podemos dizer é que ela sinalizou o final de uma era. Os americanos ficaram emocionados com a missão Apollo 11 e entediados com a Apollo 12. O drama da Apollo 13 – o fracasso glorioso que deve ter sido o ápice da Nasa – ajudou a fazer o público se lembrar de que ir à Lua não era tão fácil quanto lançar um frisbee. O projeto Apollo já estava sendo podado quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisaram na Lua. A Nasa, pressionada pelos matemáticos do Congresso, cancelou várias missões à Lua. Fomos até lá, demos uma olhada, conquistamos e então cortamos o orçamento.

A era pós-Apollo deixou sua marca com triunfos, por exemplo, quando os astronautas a bordo do ônibus espacial consertaram o telescópio espacial Hubble. A construção da Estação Espacial Internacional (ISS na sigla em inglês, International Space Station) é uma conquista notável da engenharia. Mas o simples objetivo da exploração se perdeu no meio da burocracia do programa espacial. O intuito inicial da invenção do ônibus espacial, que era transformar as viagens espaciais em algo rotineiro, revelou-se tanto uma idéia impossível de tão ambiciosa (o programa já tirou a vida de duas tripulações e continua sendo perigoso) e imprudente do ponto de vista político (porque as pessoas nem dão mais atenção às viagens).

Nenhum ser humano saiu da órbita da Terra desde a última missão à Lua, em 1972. Os europeus, os chineses e os japoneses têm programas espaciais robustos. No futuro próximo, empreendedores bilionários contam com a venda de viagens espaciais a meros milionários. E o programa espacial civil nos Estados Unidos tem um plano elaboradíssimo de retorno à Lua (quem sabe até uma missão tripulada a Marte). Mas ninguém precisa ser cínico para ficar imaginando quando e como e se haverá dinheiro para promover mais uma viagem à Lua.