Na trilha do Blues
Uma viagem ao berço do Blues, música negra americana
William Albert Allard
William Albert Allard
A plateia absorve os sons do Blues no clube Junior Kimbrough, perto de Holy Springs, no Mississipi, nos Estados Unidos
Meu bisavô Samuel Reuben Kendrick nasceu escravo no estado americano do Alabama. Em 1888, porém, fundou uma comunidade agrícola, chamada Nova África, nos 65 hectares que adquiriu da ferrovia nas cercanias de Duncan, no Mississippi. Entre os problemas que enfrentou – enchentes, infestação de pragas, como o bicudo-do-algodoeiro, acúmulo de empréstimos bancários –, houve um incidente que o convenceu a mudar-se do Mississippi. Quando um meeiro da fazenda ao lado perguntou-lhe se podia viver e trabalhar num trecho de suas terras, Sam Kendrick não só concordou como ainda mandou uma carroça para que o homem e sua família fizessem a mudança. O gesto não foi muito bem-visto por um grupo de brancos. Liderados pelo dono da fazenda vizinha, eles armaram uma cilada para meu bisavô e o surraram com cabos de machado, responsabilizando-o por ter “roubado” um de seus trabalhadores.
Pouco após esse incidente, em um gélido dia de janeiro de 1909, Sam Kendrick decidiu consertar a pequena ponte de madeira sobre o lago na divisa de suas terras. É bem possível que seu espírito estivesse longe dali – talvez absorto nos planos de recomeçar a vida no Texas – pois deixou cair o martelo no lago. Teve de entrar na água gelada, mas conseguiu recuperar o martelo e retomou o trabalho. Naquela noite, porém, começou a sentir calafrios. Alguns dias depois, com 56 anos de idade, morreu de pneumonia.
Ai, o blues é uma dor que corrói o velho coração,
Ai, o blues é uma terrível dor no velho coração,
Como a tuberculose, vai me consumindo aos poucos.
- Robert Johnson
A expressão “having the blues” (estar tomado pela tristeza, literalmente “estar tomado pelo azul”) remonta à Inglaterra do século 18, onde a melancolia era mais conhecida como o “demônio azul”. Todavia, foram sofrimentos parecidos com os de Sam Kendrick, corriqueiros entre os negros após a Guerra de Secessão, que deram origem a esse novo e visceral estilo de música – o blues –, cujos temas são o trabalho estafante, o amor, a miséria e as dificuldades enfrentadas pelos negros libertos em um mundo que havia pouco livrara-se da escravidão.
Se tivesse vivido mais, meu bisavô teria participado de um dos maiores deslocamentos populacionais já ocorridos em tempos de paz nos Estados Unidos. Entre 1915 e 1970, mais de 5 milhões de afro-americanos abandonaram todas as partes e cantos do sul rural, a maioria deles seguindo para as cidades do norte, que então passavam por explosivo processo de crescimento. O filho mais velho de Sam Kendrick, meu avô Swan, acabou radicando-se em Washington, D.C., onde nascemos tanto a minha mãe como eu próprio. Outros parentes seguiram o batido caminho desde o Mississippi até Memphis, onde o blues contribuiu para o surgimento do rock’n’roll. Essa “trilha do blues” desembocava em Chicago – meca dos blueseiros e de outros migrantes.
Um deles, Willie Dixon, que se mudou para Chicago em 1936, definiu o blues como parte das “coisas da vida”. Dixon foi letrista, poeta e filósofo do blues. Por mais de meio século, lutou para que este fosse reconhecido como uma das raízes de toda a música americana. “Tudo o que existe sob o sol, tudo o que se arrasta, voa e nada gosta de música. Mas nada se compara ao blues, pois é o único tipo de música que, juntamente com o ritmo e a melodia, transmite sabedoria.”
