Nossa boa terra
Onde nasce a comida: o futuro depende do solo sob os nossos pés
Jim Richardson
Jim Richardson
Um mosaico de árvores, campos e plantações delineiam o contorno da bacia de Coon Creek, em Wisconsin, nos Estados Unidos
Em um dia quente de setembro, fazendeiros de toda a região estão reunidos em volta de máquinas enormes. Colheitadeiras, embaladoras, trituradoras, cultivadoras, semeadoras – en7 m, tratores para as mais diversas finalidades podiam ser vistos na Farm Technology Days, a feira de equipamentos agrícolas realizada todos os anos no estado americano de Wisconsin. Quando visitei a exposição no ano passado, a empresa John Deere estava apresentando aos visitantes o 8530: um trator que funciona sozinho, orientando-se por sinais de satélite. Eu estava feliz na cabine, aproveitando o ar-condicionado sem ter de me preocupar com nada; sob meus pés as imensas rodas de borracha conduziam a máquina por seu caminho.Os fazendeiros sorriam ao contemplar os tratores atravessando as plantações de cereais. No longo prazo, contudo, tais máquinas podem estar contribuindo para acabar com o próprio sustento deles. O solo do meio-oeste americano, abrangendo algumas das áreas mais férteis do mundo, é constituído de torrões soltos e heterogêneos, entremeados por muitos bolsões de ar. Máquinas enormes e pesadas, como as colheitadeiras, amassam a terra molhada e a transformam em uma camada indiferenciada e quase impermeável – em um processo conhecido como “compactação”. As raízes não conseguem penetrar em solo compactado; tampouco a água escoa terra adentro e, em vez disso, corre pela superfície, provocando erosão. E, como a compactação às vezes ocorre em profundidade, pode levar décadas para ser revertida. Conscientes do problema, os fabricantes de implementos agrícolas instalam pneus enormes em suas máquinas, pois essa é uma maneira de amenizar o impacto sobre o solo. Além disso, os fazendeiros passaram a usar dispositivos de GPS para manter os veículos em trajetos específicos, deixando intocado o resto do terreno. Mesmo assim, esse tipo de compactação continua sendo um problema grave – pelo menos naqueles países em que os produtores rurais podem desembolsar 400 000 dólares por uma colheitadeira.
Lamentavelmente, a compactação é apenas um item, e pequeno, no mosaico de problemas inter-relacionados que afligem os solos em todo o planeta. Nos países em desenvolvimento, uma extensão cada vez maior de terras aráveis está sendo eliminada pela erosão e deserti7 cação de origem humana, numa tendência que põe em risco a existência de 250 milhões de pessoas. No primeiro – e ainda o mais abrangente – levantamento sobre o abuso do solo em escala global, cientistas do International Soil Reference and Information Centre (Isric, “Centro Internacional de Informação e Referência do Solo”), uma fundação independente de pesquisa com sede nos Países Baixos, estimam que a humanidade já ocasionou a deterioração de quase 20 milhões de quilômetros quadrados de terras. Em outros termos, a nossa espécie vem sistematicamente destruindo uma área equivalente ao território dos Estados Unidos e do Canadá juntos.
A escassez de alimentos neste ano, causada em parte pela contínua redução da qualidade e da quantidade de solos cultiváveis do planeta, já provocou tumultos na Ásia, na África e na América Latina. Até 2030, 8,3 bilhões de pessoas estarão vivendo na Terra. Segundo estimativas da FAO, a organização das Nações Unidas para agricultura e alimentação, os agricultores terão de produzir quase 30% a mais de cereais do que os níveis atuais para alimentar toda essa gente. “No longo prazo, vamos esgotar nossa capacidade de cultivar o solo”, comenta o geólogo David R. Montgomery. Em todo o mundo, porém, pesquisadores e agricultores estão descobrindo que até mesmo as terras mais deterioradas podem ser recuperadas. A vantagem disso estaria na possibilidade não só de se combater a fome mas também de se enfrentar questões como escassez de água ou aquecimento global – que poderia ser reduzido de modo signi3 cativo por meio do emprego de vastas reservas de carbono na reengenharia dos terrenos ruins do mundo. “Estabilidade política, qualidade do meio ambiente, fome e pobreza – tudo isso tem a mesma raiz”, diz o cientista Rattan Lal. “A solução para todos esses problemas está na recuperação do recurso mais básico que existe, ou seja, o solo.”
No outono passado, quando conheci Zhang Liubao em seu vilarejo na região central da China, ele estava revolvendo os terraços erodidos de seu terreno com uma pá – algo que vem fazendo depois de cada chuva há mais de 40 anos. Na década de 60, Luibao foi enviado ao vilarejo de Dazhai, 320 quilômetros a leste, para se familiarizar com o Método Dazhai – um sistema de cultivo que, de acordo com os líderes chineses, iria transformar a agricultura do país.
Dazhai está situada em uma anomalia geológica conhecida como o planalto de Loess. Ao longo de incontáveis eras, os ventos varreram os desertos a oeste, carreando saibro e areia para o centro da China. Essa poeira foi se depositando e acabou cobrindo a região com imensos montes de sedimento compacto – chamado de oess pelos geólogos – cuja profundidade chega a centenas de metros em determinados pontos. O planalto de Loess da China estende-se por uma área equivalente à soma da França, da Bélgica e dos Países Baixos. Durante séculos, as camadas de sedimentos vêm sendo carregadas pelo rio Amarelo – um processo natural que resultou, estimulado pelo Método Dazhai, naquele que pode ser considerado o mais grave problema de erosão do solo em todo o mundo.
Depois de Dazhai ter sido devastado por inundações em 1963, o secretário local do Partido Comunista recusou-se a aceitar qualquer tipo de ajuda do governo central – em vez disso, comprometeu-se a reconstruir o povoado e torná-lo ainda mais produtivo. Logo começaram a ser colhidas safras excepcionais, atraindo a atenção das autoridades em Pequim, que enviaram técnicos à região a 3 m de aprenderem com as práticas adotadas ali. E encontraram camponeses usando pás para cultivar em terraços, de cima a baixo, todas as colinas de loess e dedicando os momentos de descanso à leitura do livrinho vermelho com os pensamentos revolucionários de Mao Tsé-tung. Encantado com tal fervor, o líder máximo chinês enviou ao local milhares de representantes de outros vilarejos, entre os quais Zhang Liubao. Ele aprendeu então que seria crucial para a China que todo o pedaço de terra disponível fosse cultivado. E, sendo aquela a China maoísta, não faltaram palavras de ordem para indicar o caminho: “Remova montanhas, aterre des3 ladeiros e crie planícies!”, “Derrube florestas e abra novas áreas de cultivo!”, “Mire-se no exemplo de Dazhai!”
Zhang Liubao retornou a seu vilarejo natal, Zuitou, muito entusiasmado. Em Zuitou, contou ele, a pobreza era tal que seus moradores só conseguiam comer bem uma ou duas vezes por ano. Os agricultores locais dispersaram, derrubando as pequenas árvores que cobriam as encostas e as transformando em estreitos terraços. Em seguida, plantaram painço em todas as superfícies planas recém-criadas. Apesar da fome, a população local trabalhava o dia todo e depois acendialamparinas para prosseguir noite adentro. No fim de tudo, conseguiram ampliar a área de cultivo de Zuitou em cerca de um quinto – um aumento excepcional em um lugar tão pobre.
Infelizmente, “os terraços também criaram um círculo vicioso”, de acordo com Vaclav Smil, um geógrafo que há muito vem estudando o meio ambiente na China. As paredes dos socalcos em Zuitou, que não passavam de sedimentos compactados, desmoronam a todo momento. Mesmo quando não há erosão das plataformas, as chuvas levam embora os nutrientes e a matéria orgânica que há no solo. Após um aumento inicial, a produtividade do terreno vem decaindo cada vez mais. Para manter o nível de produção, os agricultores desmataram mais encostas e construíram outros terraços, os quais por sua vez acabaram sendo destruídos pela chuva.
