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Edição 143/Fevereiro de 2011 26/01/2012

A moça tem um segredo

Se este retrato for de Da Vinci, valerá 100 milhões de dólares

por Tom O’Neill Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Bianca Sforza atraiu poucos olhares quando foi apresentada ao mundo da arte em 30 de janeiro de 1998. Naquela ocasião, ela não passava de um rosto bonito e emoldurado para os participantes de um leilão na Christie’s de Nova York. Ninguém sabia o seu nome, tampouco o do artista que fizera o retrato. No catálogo, a obra – um desenho colorido a crayon e nanquim sobre pergaminho – constava como sendo do início do século 19 e originária da Alemanha, com estilo inspirado na Renascença. Por fim foi arrematada por uma galerista nova-iorquina, Kate Ganz, por 21 850 dólares.

Dez anos depois, o quadro seguia à venda por preço similar quando foi comprado por um colecionador canadense, Peter Silverman, que já desconfiava da origem renascentista. A própria Kate havia mencionado Da Vinci, esse nome mágico, como uma influência sobre o autor. Silverman foi além: e se o desenho fosse do próprio Leonardo?

Que alguém pudesse entrar em uma galeria e comprar um desenho que depois se revelaria uma obra-prima secreta do genial Da Vinci, valendo talvez 100 milhões de dólares, soa como lenda urbana. Na época em que Silverman adquiriu o desenho, mais de 75 anos tinham se passado desde a última autenticação de uma obra do italiano. E não havia registro de que o criador de Mona Lisa tivesse alguma vez usado pergaminho como suporte. Além disso, se era de fato um Da Vinci autêntico, onde ficara escondido durante 500 anos?

Silverman decidiu então enviar, por e-mail, uma imagem digital de Bianca a Martin Kemp. Professor aposentado de história da arte na Universidade de Oxford e renomado especialista em Leonardo da Vinci, Kemp costuma receber imagens assim, às vezes duas por semana, de gente que ele chama de “malucos por Da Vinci”, convencidos de que descobriram uma nova obra. “Meu reflexo é dizer que não tem nada a ver”, conta. Porém, a “estranha vitalidade” do rosto da jovem despertou nele a vontade de examiná-lo de perto. Para tanto, voou até Zurique – Silverman havia guardado a obra no cofre de um banco. Medindo 33 por 23,9 centímetros, o desenho é um pouco maior que uma folha de papel ofício. “Quando o vi”, diz Kemp, “senti um arrepio, uma sensação de que estava diante de algo anormal.”

Esse arrepio levou Kemp a iniciar uma investigação, que contou com a ajuda das imagens multiespectrais de alta resolução obtidas por Pascal Cotte, da empresa Lumiere Technology, de Paris, as quais permitiram o estudo do desenho, camada por camada, desde os esboços até as restaurações posteriores. Kemp encontrou diversos indícios da mão de Leonardo – o modo como os fios de cabelo eram agrupados sob a malha que os mantinha presos, a requintada modulação das cores, as linhas precisas. As áreas sombreadas mostravam gestos característicos de um artista canhoto, tal como Da Vinci. A expressão da jovem, aprumada mas pensativa, com o olhar de alguém que está amadurecendo rápido demais, transmitia um princípio importante para o mestre renascentista: o de que um retrato deve exprimir “a inteligência em movimento”.

Kemp também precisava comprovar que o retrato havia sido feito no mesmo período em que viveu Leonardo da Vinci (1452–1519), e que os detalhes históricos se adequavam à biografia do artista. O pergaminho, provavelmente de pele de bezerro, havia sido datado entre 1440 e 1650. Os detalhes da roupa do modelo o situavam na corte de Milão durante a década de 1490, quando virou moda o cabelo preso de maneira elaborada. Da Vinci morou em Milão nessa época, quando aceitou encomendas para retratar membros da corte. Marcas de costura na borda do retrato sugeriam que havia sido parte de um livro, talvez uma espécie de álbum de um casamento régio.