A moça tem um segredo
Se este retrato for de Da Vinci, valerá 100 milhões de dólares
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Escaneamento multi-espectro
Pascal Cotte, Lumiere Technology
<p> Resultados de escaneamento multi-espectro revelam as cores originais do retrato de Bianca Sforza, executado em giz colorido e tinta sobre velocino.</p>
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Ginevra de’ Benci
Alisa Mellon Bruce Fund, cortesia The Board of Trustees, National Gallery of Art, Washington
<p> <strong><em>Ginevra de’ Benci</em>, c. 1478</strong> Leonardo da Vinci retratava as mulheres com incomparável delicadeza e profundidade. Em um de seus primeiros retratos, o artista demonstra requintada modelagem física</p>
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Mona Lisa
Pascal Cotte, Sipa Press
<p> <strong><em>Mona Lisa</em>, 1503–c. 1510 </strong>Na magistral Mona Lisa, Da Vinci, com o uso inovador das margens esfumadas, conferiu ao modelo um sorriso que revela uma sedutora vida interior</p>
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Dama com Arminho
Pascal Cotte, Lumiere Technology, com autorização da Fundação Czartoryski
<p> <strong><em>Dama com Arminho,</em> c. 1488–c. 1490</strong> Seu domínio do claro-escuro realçou a inteligência sensual da dama amante do duque de Milão</p>
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La Bella Principessa
Gianluca Colla
<p> <strong>La Bella Principessa </strong>Os traços são de um artista canhoto. O retrato foi retirado de um livro dos patronos de Da Vinci. Os furos na lateral esquerda foram alinhados com a encadernação do livro feita no século 15 e o corte a faca indica que o pergaminho saiu do livro. Além disso, o pergaminho, datado por radiocarbono, é de 1440-1660, mas o penteado da mulher é da décade de 1490. Tudo indica que a obra é de Leonardo Da Vinci</p>
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Suporte original de La Bella Principessa
Grzegorz Mazurowski
<p> Uma peça crucial do quebra-cabeça – o suporte original de <em>La Bella Principessa </em>– parece ter sido achada em um livro de 500 anos da Biblioteca Nacional da Polônia. Intitulado <em>Sforziada</em>, o livro tem ilustrações encomendadas pelo duque de Milão para o casamento, em 1496, de sua filha Bianca Sforza com um dos mecenas de Da Vinci. O exame macrofotográfico do pergaminho revelou as páginas faltantes; o retrato da noiva teria sido retirado da página inferior. Enquanto uma equipe do canal NatGeo filmava, o engenheiro Pascal Cotte, à esquerda, e o historiador Martin Kemp inseriram na lacuna um fac-símile do desenho. A página se encaixou, coincidindo com os furos da costura. Não sabemos ainda por que, e quando, o desenho foi retirado do livro</p>
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Detalhes de La Bella Principessa
Gianluca Colla
<p> Detalhes sutis no desenho de <em>La Bella Principessa</em>, como a sombra que destaca o rosto de Bianca Sforza, mostram o fato de Leonardo ser canhoto e outros toques que distinguem o artista, diz o historiador da arte Martin Kemp</p>
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Íris de La Bella Principessa
Gianluca Colla
<p> Kemp também menciona o caráter translúcido âmbar da íris</p>
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Faixa no cabelo de La Bella Principessa
Gianluca Colla
<p> A pressão da faixa no cabelo é outra pista, de acordo com Kemp</p>
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Parte traseira do quadro La Bella Principessa
Gianluca Colla
<p> Parte traseira do quadro</p>
Bianca Sforza atraiu poucos olhares quando foi apresentada ao mundo da arte em 30 de janeiro de 1998. Naquela ocasião, ela não passava de um rosto bonito e emoldurado para os participantes de um leilão na Christie’s de Nova York. Ninguém sabia o seu nome, tampouco o do artista que fizera o retrato. No catálogo, a obra – um desenho colorido a crayon e nanquim sobre pergaminho – constava como sendo do início do século 19 e originária da Alemanha, com estilo inspirado na Renascença. Por fim foi arrematada por uma galerista nova-iorquina, Kate Ganz, por 21 850 dólares.
Dez anos depois, o quadro seguia à venda por preço similar quando foi comprado por um colecionador canadense, Peter Silverman, que já desconfiava da origem renascentista. A própria Kate havia mencionado Da Vinci, esse nome mágico, como uma influência sobre o autor. Silverman foi além: e se o desenho fosse do próprio Leonardo?
Que alguém pudesse entrar em uma galeria e comprar um desenho que depois se revelaria uma obra-prima secreta do genial Da Vinci, valendo talvez 100 milhões de dólares, soa como lenda urbana. Na época em que Silverman adquiriu o desenho, mais de 75 anos tinham se passado desde a última autenticação de uma obra do italiano. E não havia registro de que o criador de Mona Lisa tivesse alguma vez usado pergaminho como suporte. Além disso, se era de fato um Da Vinci autêntico, onde ficara escondido durante 500 anos?
Silverman decidiu então enviar, por e-mail, uma imagem digital de Bianca a Martin Kemp. Professor aposentado de história da arte na Universidade de Oxford e renomado especialista em Leonardo da Vinci, Kemp costuma receber imagens assim, às vezes duas por semana, de gente que ele chama de “malucos por Da Vinci”, convencidos de que descobriram uma nova obra. “Meu reflexo é dizer que não tem nada a ver”, conta. Porém, a “estranha vitalidade” do rosto da jovem despertou nele a vontade de examiná-lo de perto. Para tanto, voou até Zurique – Silverman havia guardado a obra no cofre de um banco. Medindo 33 por 23,9 centímetros, o desenho é um pouco maior que uma folha de papel ofício. “Quando o vi”, diz Kemp, “senti um arrepio, uma sensação de que estava diante de algo anormal.”
Esse arrepio levou Kemp a iniciar uma investigação, que contou com a ajuda das imagens multiespectrais de alta resolução obtidas por Pascal Cotte, da empresa Lumiere Technology, de Paris, as quais permitiram o estudo do desenho, camada por camada, desde os esboços até as restaurações posteriores. Kemp encontrou diversos indícios da mão de Leonardo – o modo como os fios de cabelo eram agrupados sob a malha que os mantinha presos, a requintada modulação das cores, as linhas precisas. As áreas sombreadas mostravam gestos característicos de um artista canhoto, tal como Da Vinci. A expressão da jovem, aprumada mas pensativa, com o olhar de alguém que está amadurecendo rápido demais, transmitia um princípio importante para o mestre renascentista: o de que um retrato deve exprimir “a inteligência em movimento”.
Kemp também precisava comprovar que o retrato havia sido feito no mesmo período em que viveu Leonardo da Vinci (1452–1519), e que os detalhes históricos se adequavam à biografia do artista. O pergaminho, provavelmente de pele de bezerro, havia sido datado entre 1440 e 1650. Os detalhes da roupa do modelo o situavam na corte de Milão durante a década de 1490, quando virou moda o cabelo preso de maneira elaborada. Da Vinci morou em Milão nessa época, quando aceitou encomendas para retratar membros da corte. Marcas de costura na borda do retrato sugeriam que havia sido parte de um livro, talvez uma espécie de álbum de um casamento régio.
