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Edição 114 /Setembro de 2009 07/12/2011

Nova York, 1609

Ecologistas recriam a paisagem de Manhattan no ano de sua descoberta

por Peter Miller Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Robert Clark

Vista aérea de Manhattan, nos Estados Unidos

Robert Clark

Vista aérea de Manhattan, nos Estados Unidos

De todos os visitantes de Nova York nos anos recentes, um dos mais surpreendentes foi um castor chamado José.

Especula-se que ele teria vindo a nado pelo rio Bronx desde o suburbano condado de Westchester, ao norte. Ele simplesmente deu as caras, em uma manhã invernal de 2007, numa barranca do rio próximo ao Zoológico do Bronx, onde arrancou pedaços de salgueiro às mordidas e fez uma toca. "Se você me perguntasse naquela ocasião quais seriam as chances de existir um castor no Bronx, eu teria respondido que eram zero", diz Eric Sanderson, ecologista da Wildlife Conservation Society-WCS com sede no zoo. "Não há castores em Nova York há mais de 200 anos."

Durante os primórdios do século 17, quando a cidade era uma aldeia holandesa chamada Nova Amsterdam, os castores sofreram caça extensiva por causa de sua pele, que era moda, então, na Europa. O comércio de peles tornou-se um negócio tão lucrativo que um par de castores passou a figurar no símbolo oficial da cidade, e é assim até hoje. O animal de verdade, porém, desapareceu. É por isso que Sanderson se mostrou cético quando Stephen Sautner, diretor assistente de ciência e conservação da WCS, contou-lhe ter encontrado evidências da presença de um castor ao caminhar pela margem do rio. Provavelmente é só um rato almiscarado, pensou Sanderson.

Mas, ao pular uma cerca de tela de arame que separa o rio de um dos estacionamentos do zoo, Sautner e ele toparam com a toca de José bem ali onde o primeiro afirmou que estava. Ao voltar, uma semana depois, deram de cara com o próprio José. "Começava a escurecer", conta Sanderson. "Estávamos na margem do rio quando, de repente, vimos o castor. Ele veio nadando em nossa direção, daí passou a descrever círculos no rio. A gente se afastou um pouquinho, e ele começou a dar aquele sinal de alarme com o rabo na água, slap, slap. Achamos melhor cair fora."

A volta do castor à Big Apple foi celebrada pelos conservacionistas que passaram mais de três décadas restaurando a saúde do rio Bronx, antigo ponto de desova de carros abandonados e lixo. José ganhou esse nome em homenagem a José E. Serrano, representante do Bronx no Congresso que levantara mais de 15 milhões de dólares para financiar a limpeza do rio.

Para Sanderson, a história de José significava mais. Durante quase uma década ele liderou um projeto da WCS cujo plano era visualizar com a maior precisão possível o aspecto da ilha de Manhattan antes que a cidade crescesse. O projeto ganhou o nome de Mannahatta, "ilha de muitas colinas", na língua do povo lenape, que habitava a região quando o navegante inglês Henry Hudson, sob a bandeira holandesa, descobriu o lugar. Trata-se de um esforço para dar marcha a ré no calendário até a tarde de 12 de setembro de 1609, pouco antes de Hudson e sua tripulação adentrarem a enseada de Nova York.

Se as pessoas de hoje pudessem ter ideia da maravilha em que Hudson pôs os olhos, talvez se batessem com mais denodo pela preservação de outros lugares selváticos, pensava Sanderson. "Queria que elas se apaixonassem pela paisagem original de Nova York", diz. "Eu queria mostrar quão grandiosa pode ser a natureza quando está funcionando bem, de posse de todos os seus componentes, num lugar que, em geral, imagina-se desprovido de qualquer natureza."

Bem antes de ver suas colinas terraplanadas e seus alagados virarem chão pavimentado, Manhattan era uma selva extraordinária com enormes árvores - castanheiros, carvalhos -, brejos de água salgada e campos com perus selvagens, alces e ursos-negros, "a mais aprazível terra que se possa trilhar", relatou Hudson. Praias de areia sucediam-se de ambos os lados da costa da estreita ilha de 21 quilômetros de comprimento, onde os lenapes se banqueteavam de ostras e mexilhões. Mais de 100 quilômetros de riachos fluíam por Manhattan, a maioria dos quais abrigando um castor ou dois, o que torna a aparição de José, segundo Sanderson, um raro vislumbre de como as coisas eram naquela época.

"É difícil acreditar hoje que 400 anos atrás havia um pântano com bordos vermelhos em Times Square", comenta ele enquanto espera o farol abrir para atravessar a Sétima avenida. De jeans pretos e blusão, ele não parece diferente dos turistas a seu lado. Mas, ao contrário deles, em sua cabeça ele segue uma trilha ao longo de um riacho que sumia debaixo da entrada do Marriott Marquis Hotel, na esquina da Broadway com a rua 46. "Bem ali existia um açude de castor", diz ele, sob o rumor de um ônibus que passa. "Deve ter sido um bom lugar para cervos, marrecos e outros animais que têm a ver com cursos d’água, como a truta-de-arroio e a enguia."