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ESPECIAL ENERGIA 12/06/2012

O exemplo do Brasil

O país precisa de energia para crescer e movimentar a economia. E tem investido com relativo êxito em fontes renováveis para reduzir o consumo dos derivados de combustíveis fósseis

por José Goldemberg

O aquecimento global está alterando de forma rigorosa o clima em determinadas partes do mundo. É cada vez mais frequente a ocorrência de eventos climáticos extremos, tais como grandes inundações, secas severas, tufões devastadores e chuvas mais concentradas em um breve espaço de tempo. Outras consequências ocasionadas pelas mudanças climáticas, como elevação no nível do mar e derretimento das geleiras, também estão previstas.

A energia, porém, não sofrerá tanto com o aquecimento.

Essencial para a manutenção do nível de conforto de bilhões de pessoas em todo o planeta, mais de 80% da matriz global é proveniente de combustíveis fósseis: carvão, petróleo e gás natural. Outra fonte importante é a energia nuclear.

Porém, as reservas fósseis, formadas há milhões de anos, são finitas. Estima-se que o petróleo, se extraído à velocidade atual, será extinto dentro de, no máximo, 50 anos. E, além do esgotamento físico desse recurso, o acesso às reservas mundiais é desigual. Hoje, metade do petróleo produzido no planeta provém de países com regimes políticos complexos no Oriente Médio, responsáveis pelas flutuações no preço do barril.

O consumo dos combustíveis fósseis também nos leva a outra questão premente, a dos problemas ambientais. Sua queima emite gases de efeito estufa, com poluição urbana severa, além de provocar chuvas ácidas e contribuir de forma acentuada para o aquecimento global. Como resolver tais problemas causados pela energia fóssil?

No planeta, as energias renováveis representam menos de 10% das matrizes. O Brasil é, curiosamente, um dos países com exemplos interessantes de solução. Aqui, quase a metade da matriz energética é proveniente de fontes renováveis, uma condição bastante favorável em relação ao resto do mundo. Tal posição se dá pela alta porcentagem da energia produzida por usinas hidrelétricas e fontes alternativas, como a biomassa. Sob o ponto de vista de geração de eletricidade, somos referência global.

Uma das metas da Rio+20 – convenção das Nações Unidas sobre o desenvolvimento sustentável, que ocorrerá, entre 13 e 22 de junho, no Rio de Janeiro – é dobrar a quantidade de energia renovável no mundo até 2030. Mas, até lá, será que o Brasil continuará seguindo de forma positiva? E as demais nações do mundo conseguirão cumprir a meta prevista na convenção?

Embora nosso potencial hidrelétrico seja enorme – mais de 260 mil megawatts de capacidade total –, apenas um terço está instalado, ou seja, em operação. Grande parte do restante, porém, situa-se na bacia Amazônica, palco de controvérsias devido a problemas socioambientais gerados pela construção de grandes barragens. Além disso, a região fica distante dos grandes centros consumidores do Sul e do Sudeste.

A usina de Belo Monte, no Pará, é o exemplo que melhor reúne esse choque de visões. Mesmo com manifestações de ambientalistas contrários a sua construção – cujo projeto promete acrescentar quase 12 mil megawatts de capacidade instalada à matriz energética nacional –, o governo adotou como questão de honra tocar adiante a construção da usina. Com isso, infelizmente, criou-se no âmbito governamental uma falsa dicotomia de que a proteção tal como desejam os ambientalistas é caracterizada como inimiga do desenvolvimento.