O fim do petróleo barato
Estamos começando a viver a era que será marcada com o fim da gasolina e outros derivados de petróleo baratos
Sarah Leen
Sarah Leen
Hora do rush na Beltway, artéria principal de Washington, D.C.
Lá nas profundezas, embaixo de quase 2 mil metros de mar e mais 5 mil metros de lama e rocha, o grande prêmio está à espera. Na superfície, o Discoverer Enterprise, um navio-sonda para exploração petrolífera, luta para atingi-lo. Estamos em 2003, na primavera do hemisfério norte, e há mais de dois meses o Enterprise está ancorado no mesmo local, 190 quilômetros a sudeste de Nova Orleans, no golfo do México. O moderno navio perfura um poço para atingir a valiosa jazida petrolífera do leito marinho, estimada em 1 bilhão de barris – o maior campo petrolífero descoberto nos Estados Unidos em três décadas.
Os motores do Enterprise, que tem 255 metros de comprimento, lutam contra a forte corrente marinha. À sombra da torre de perfuração, da altura de um prédio de 23 andares, engenheiros e executivos, preocupados, conversam em grupinhos. “Temos um poço instável”, lamenta-se Bill Kirton, supervisor do projeto para a British Petroleum (BP), empresa petrolífera britânica.
A sonda já penetrou 5,2 mil metros abaixo do leito marinho. Em vez de perfurar na vertical, ela desviou-se mais de mil metros para o lado, para evitar uma formação maciça de sal de rocha. Mas agora, faltando ainda 600 metros, a perfuração parou. A água começa a infiltrar-se no poço, vinda das rochas em torno, e os engenheiros decidem deter esse avanço antes de continuar perfurando. Do contrário, o pequeno fio d’água pode dar lugar a um jorro incontrolável de óleo cru.
Esse poço em dificuldades é apenas um dos 25 que a BP pretende perfurar nessa gigantesca bacia, chamada Thunder Horse (Cavalo do Trovão), que se estende por uma área de 140 quilômetros quadrados no leito marinho. O projeto começará no próximo ano, ao custo de 4 bilhões de dólares, e inclui uma plataforma flutuante, com a metade da largura de um campo de futebol, que vai coletar o petróleo dos vários poços e enviá-lo pelas tubulações até o litoral. Se esses poços corresponderem às esperanças, futuramente cada um vai produzir dezenas de milhares de barris por dia.
Ninguém imaginaria isso, a julgar pelos reforçados utilitários, gulosos consumidores de gasolina, que congestionam as estradas do país. Mas a verdade é que nos EUA a era do petróleo abundante já está em declínio. Ainda não há escassez global; longe disso. O mundo ainda é capaz de produzir uma quantidade imensa de petróleo cru – tão grande que o preço atual, cerca de 30 dólares pelo barril de 42 galões (159 litros), despencaria se a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) não limitasse a produção. Essa abundância significa que, por enquanto, o petróleo é barato. Nos EUA, onde o imposto médio sobre a gasolina é de apenas 10 centavos de dólar por litro (em vez de mais de 50 centavos na Europa e no Japão, por exemplo, ou 40 centavos no Brasil), um galão de gasolina pode ser mais barato do que uma garrafa d’água. Tanto que a maioria das pessoas não se dá o trabalho de economizar. Enquanto a demanda por petróleo aumenta em todo lugar, os EUA seguem sendo o principal consumidor mundial. O país absorve uma quarta parte do petróleo do planeta – cerca de 11 litros diários por pessoa –, embora tenha apenas 5% da população mundial.
Contudo, como sabem os técnicos da Enterprise, saciar a sede de petróleo hoje é mais difícil do que nunca. Não se pode mais contar com as antigas jazidas. Em terra, os 48 estados continentais dos EUA já estão esgotados. Também declína a produção na bacia North Slope, no Alasca, e no mar do Norte, na Europa, que há 20 anos eram áreas extremamente rendosas. Na Venezuela e na Nigéria, distúrbios políticos e sociais ameaçam o fornecimento. O Oriente Médio segue como a principal fonte, mas, com a instabilidade da região, essa dependência é perigosa.
Assim, as empresas petrolíferas estão buscando novas fontes de abastecimento, enfrentando altos custos humanos e econômicos. Com investimentos de alto risco, como os campos de Thunder Horse, e se aventurando na África Ocidental e na Rússia, elas continuam encontrando petróleo em grandes quantidades – o bastante para alegrar o coração do dono de uma poderosa picape Hummer. Mas, ao fim e ao cabo, a busca de petróleo barato será um jogo sem vencedores, e não só porque o consumo de petróleo exerce grave impacto sobre o meio ambiente, a saúde e também o dinheiro dos contribuintes. O problema é que esse vício insaciável que o mundo adquiriu só faz apressar a chegada da crise final.
O atual modo de vida da humanidade está em rota de colisão contra a realidade dos fatos geológicos. O planeta Terra contém um suprimento finito de petróleo. Algum dia o fluxo de óleo cru atingirá seu ponto máximo, e a partir daí passará a diminuir. Esse dia pode chegar daqui a cinco anos ou daqui a 30 anos – ninguém sabe com certeza. Geólogos e economistas debatem sobre a data em que o “pico do petróleo” se abaterá sobre nós, com altas de preços e convulsões econômicas. Haverá ainda uma corrida desesperada para arrancar petróleo de fontes alternativas, como as areias betuminosas. “Podemos facilitar essa transição”, diz Alfred Cavallo, consultor especializado em energia de Princeton, Nova Jersey. “É possível viver bem com um sistema sustentável. Mas sem Hummer para todo mundo, claro.”
