No rastro do Jaguar
A onça-pintada sobreviverá se prevalecer o conservacionismo com visão de futuro
Valdemir Cunha
Valdemir Cunha
Até a década de 1980, as onças-pintadas eram mortas por caçarem bovinos, muitas vezes por peões de fazenda. Um estudo de 2007 do Projeto Gadonça mostra que os felinos respondem por apenas 0,3% das baixas em um rebanho por ano. Em criações perto de áreas da mata, o número é maior: em torno de 20%
Nas brenhas de uma floresta da Costa Rica, um jovem macho de onça-pintada (ou jaguar, nos países de língua espanhola) levanta-se do sono, espreguiça e parte na surdina, decidido a abandonar para sempre o lugar em que nasceu.
Há muito esconderijo por ali, além de veados jovens, porcos-do-mato e cutias para comer. E ele já detectou a presença de fêmeas com as quais poderia cruzar. Mas tem também um jaguar macho maduro que reivindica para si a floresta - e as fêmeas. O felino mais velho não vai tolerar nenhum rival. O odor da mãe, trazido pela brisa, tão reconfortante para ele em seus tempos de filhote, já não o mantém conectado a seu lar. É hora de partir.
Mas o caminhante escolhe a direção errada. Poucos quilômetros depois ele atinge o limite da floresta. Mais além se encontra uma plantação de café. Tocado pelo instinto e pela necessidade, o felino segue em frente, abrigando-se nas árvores ao longo de cercas e riachos. Logo, porém, os esconderijos se resumem a touceiras esparsas de arbusto e umas poucas árvores, em que não consegue achar nada parar comer. Ele está agora em uma região de fazendas de gado. Certa noite, a fome e o cheiro de bezerro recém-nascido superam sua relutância em atravessar áreas abertas. Rastejando até chegar perto o bastante para o assalto final, a jovem onça mata o bezerro com uma única mordida de suas poderosas mandíbulas.
No dia seguinte o fazendeiro encontra os despojos e os reveladores rastros do felino. Ele chama alguns vizinhos e junta uma matilha de cães. Municiados com cartuchos de bagos de chumbo, os caçadores acham o jovem. Ansiosos, eles disparam de uma distância muito grande. O crânio maciço do jaguar protege-o da morte, mas os bagos de chumbo cegam um de seus olhos e destroem sua perna frontal esquerda.
Aleijado agora, incapaz de achar suas presas costumeiras na mata e ainda menos de perseguilas e matá-las, o bicho é levado pela fome a buscar comida mais fácil. Ele mata outro bezerro numa fazenda e um cão na periferia de uma pequena cidade. Dessa vez, porém, a onça se demora demais por ali. Atraído pelos gritos do cachorro, um grupo de moradores o encurrala em uma árvore e o mata depois de muitos tiros. Os jaguares, dizem eles, não passam de assassinos de gado e de cães. São uma praga. Têm de ser fuzilados no ato, em quaisquer tempo e lugar.
Essa triste história tem-se repetido milhares de vezes no território das onças-pintadas que se estende do México (e originalmente dos Estados Unidos) até a Argentina. Acontece com frequência cada vez maior, à medida que sítios, fazendas e obras públicas foram devorando mais da metade do hábitat primário desse grande felino.
Alan Rabinowitz vislumbra um 1 m diferente para esse drama. Ele imagina o jovem jaguar, ao sair de seu torrão natal, passar despercebido pelos seres humanos por um corredor quase contínuo de vegetação protetora. Em poucos dias, o animal encontrará um pequeno trecho de floresta com quantidade su1 ciente de presas para que se detenha e descanse um ou dois dias, antes de retomar a caminhada. Por 1 m, alcançará um parque nacional ou uma reserva onde pode se estabelecer, com espaço para deambular, além de caça em abundância e fêmeas prontas para cruzar.
Rabinowitz é o mais destacado especialista em onças-pintadas do mundo, e começou a pôr em prática seu sonho de criar vasta rede de corredores interconectados e refúgios que se estende da fronteira do México com os Estados Unidos à América do Sul. Tal rede é chamada de Paseo del Jaguar ("Caminho do Jaguar"). Rabinowitz considera que nesse sistema está a maior esperança de afastar esse grande felino da companhia de leões e tigres na lista de espécies ameaçadas.
